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Chapter 4 – Knowledge and Laws – Informed Machine Composition

2. Rule-systems and machine learning

O contato freqüente com a morte pode intensificar o prazer da vida, deixando de ser um fator evasivo e exterior. Torna-se, assim, parte constituinte do mundo vital.

Como o sono tonifica o dia, a idéia de morte tende a fortalecer o processo de vida, compreendendo que sua presença faz parte de nossa saúde e equilíbrio mental. Quando este contato é inexistente, entramos também na esfera de quase suicídio, entendendo aqui a atitude como sendo a possibilidade irreal de um controle radical e absoluto de nossa existência.

Esta tônica comportamental afasta-nos de qualquer possibilidade de termos uma vida saudável e nos conduz inevitavelmente ao desespero. Esta hipótese, gradualmente nos imobiliza, tornando-nos frustrados e avessos à realização de eventuais projetos.

O legítimo pensamento filosófico do tema traz consigo certo inconformismo com as questões e justificações que nos rodeiam. Esta conduta tanto se faz na não aceitação da dor que nos é imputada como nas alegrias desfrutadas. Desta forma, faz-se uma concepção desconfiada e temerosa diante da vida, que sob os olhos da filosofia faz-se sempre ocultadora de múltiplos níveis de significação. Adorno designa este fenômeno como sendo o desprezo pelo superficial e por um estado de bases sensíveis. Este “pensar filosófico” traz à superfície do ser, clara e estruturada, muitas das coisas que nos careciam de sentido. Daí talvez a reincidente idéia de que o ato de pensar seja causador das intempéries do presente ou então um grande motivador da desgraça ou desestruturação da ordem estabelecida.

Uma mentalidade que dissimule a realidade, fazendo crer numa capacidade imperturbável de sensações prazerosas e gozo existencial é, seja ela qual for, um mecanismo de dissimulação do real, algo que por mais aveludado que possa parecer, tende ao acobertamento ou legitimação de uma miséria reinante. Acobertar ou neutralizar o fenômeno da morte soa assim como uma violência ao próprio indivíduo, pois a negativa de sua totalidade (compreensiva) faz-nos órfãos. Não deixo aqui aquela vertente materialista cínica que tenta reduzir ao nada a existência humana, nem pulo ao “nada” transcendente, mas a tentativa esperançosa de se conquistar a própria vida.

De fato ela é hoje algo totalmente alheio. Um fato quase sempre incidental e alheio desprovido de todo o aspecto biológico. Ela é uma grande catástrofe que teimosa e injusta nos acometeu. Uma ironia racional construída pelo grande distanciamento de nossa consciência do fenômeno. A maioria de nós é impermeável à idéia que temos inevitavelmente um encontro com a morte. Nossa mente debilitada é um palco infértil para lidarmos, mesmo que rudimentarmente, com a questão.

Esta incapacidade crônica não é algo novo. É fruto de uma certa inaptidão de se lidar com o novo e com o que poderíamos chamar de nada absoluto. Mas o que seria de nossa própria consciência sem a idéia de morte? Não são poucos os que relacionam todo o processo de consciência ao terror que se dá à própria idéia de fim, ou se preferirem, de aniquilamento. A contrapartida desta consciência da morte é a mesma que advém da idéia de eternidade. Numa mesma moeda estamos petrificados de medo e avançamos frente às questões mais complexas da cultura humana.

Adorno (1986), em sua Dialética Negativa já considerava que quanto mais o homem se desprende de sua consciência animal, mais ele se obceca contra tudo que o faça suspeitar de sua eternidade. Pensando assim, podemos inferir com ele que a própria forma arcaica de propriedade é, na verdade um meio de afugentar a morte, entronando-

se na imortalidade através de uma autonomia em bases possessivas. Através de um novo ritual de posse, esquece-se toda idéia da morte, bem como toda ritualização. Afastando- se toda a problemática acredita-se que a mesma encontra-se resolvida, o que fatalmente o levará a uma volta, ou seja, uma recondução ao processo de animalidade de que partira.

Sem dúvida nenhuma uma necessidade desmedida de autoconservação. O mesmo arcabouço que nos serviu muito no passado acaba por aprisionarmos. Se por ventura a morte nos serviu de patamar racional, hoje ela se vê dizimada pelo seu próprio substrato criativo. Uma possibilidade, que nos é colocada por Adorno (1986), da perda de uma aparência angustiante e aterrorizante da morte se daria pelo indivíduo já se encontrar morto, ou seja, a indiferença nada mais é que a constatação de um estado símile.

Nesta idéia é importante a concepção do indivíduo como peça ou mercadoria de troca, onde sua morte nada mais seria do que a constatação de sua nulidade frente ao absoluto social. Talvez deste fato se justifique a idéia da morte inusitada e repentina. Aquela que nos remete de forma inesperada e súbita ao já conhecido e cotidiano — nada. (NOBRE:1998)

Estendendo esta compreensão, podemos atribuir, além da visão antropológica mais óbvia, um cunho psicanalítico relevante. A nulidade fenomenológica existiria sim, como um ponto de fuga diante da percepção da própria nulidade existencial e toda a opressão que esta idéia nos imputa. Pensar na morte faz ascender toda uma gama de fatores opressores e vivifica assim a “coisificação” e o vazio das relações de que tomamos parte. Rejeitar o pensamento de morte, mesmo que seja a alheia, faz-nos sofrer a dor pela nossa morte presente. O fator absurdo não é o fenômeno e sim a intolerável idéia de se recobrar a consciência da já mencionada nulidade e a imputação da idéia que

destacar o sentimento de culpa para com os mortos, não só pelo abandono, mas também pela situação invejável da não-dor.

Na linguagem especificadamente o efeito do interdito da morte também é evidenciado. Tal fato nos é colocado de forma inequívoca por Maurice Blanchot notando que todo o discurso, seja qual tipologia, é interligada a uma outra escrita anterior muito mais necessária e fundamental. Nessa escrita anterior, uma das principais omissões é a da morte. Essa ausência tem como significado a recusa em se pensar na temática, fazendo com que haja uma corrupção pelo eterno, mesmo que haja em termos finais uma discrepância da lógica interna. Dentro destes termos, a linguagem ficaria assim usurpada, ficando a serviço da instauração de uma pseudo-segurança. Uma vez onde não há mais “a presença mítica para nos acalentar”, temos que nos proteger do sentimento esmagador do medo que nos acompanha sombriamente. O irônico dessa questão é que ao mesmo tempo a linguagem se faz capa e é em si a possibilidade concreta para uma vitória (BLANCHOT:2001).

Como o próprio autor revela, perdemos a morte. E com esta afirmação ele afirma que da mesma forma que ao omitirmos temos que recobrá-la a partir da re-significação das idéias, dos sentidos. É pela palavra que temos a possibilidade de perpetuar nossas sensações mesmo sendo elas traumáticas e nos propiciando dores tão pungentes. Da mesma forma que o nomear traz consigo um poder e um controle a simples palavra traz o retorno do homem à sua realidade finita.

Através do re-vivamento da própria palavra é que se dá a nova criação conceitual. Assim a linguagem mostra nuances divinos, não pelo seu ato eternizante, mas pela perversão daquilo que nomeia numa possibilidade de transformação. Entretanto, essa transformação não se dá pela mentira, mas sim pela interiorização do próprio fenômeno numa comutação de sentidos (BLANCHOT: 2001).

Mas como fazer dessa interdição a transposição para algo irradiador de poder? A resposta não é a idealização romântica e adocicada nem a interdição do elemento que nos é próprio, mas sim na coexistência com a contradição desse enigma estranho com quem nos brinda a morte. Resta-nos a sua verbalização, no trabalho árduo e quase sempre ingrato do dia-a-dia em se perceber envolvido na malha anônima e invisível do seu poder discursivo: a dissolução da idéia (consciente) da morte é a inquestionável dissolução da individualidade do sujeito autônomo.

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