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Analysis of algorithms – quantifying algorithmic power and limits

42pai s.m. 1 homem que deu origem a outro; genitor, progenitor 2 REL abs. Deus (HOUAISS, 2001:

2104).

43dissoluto adj. 1 que foi dissolvido; que se encontra em estado de dissolução 2 que se decompôs;

3.2.4 As paixões na tríade parabólica

As parábolas da ovelha perdida, da dracma perdida e do filho pródigo apresentam, no nível narrativo, uma estrutura fixa: X entra em disjunção com a presença de Y, Y volta à conjunção com X, X se alegra com a conjunção. Porém, essa estrutura invariante é revestida por atores distintos (pastor e ovelha, mulher e moeda, pai e filho) colocados em espaços diferentes (campo, casa e grande propriedade ).

Vladimir Propp, folclorista e etnólogo, em A morfologia do conto, foi o primeiro a conceber que, nos contos maravilhosos russos, existem unidades sintagmáticas constantes à variedade narrativa. Assim, Cristo, para exaltar as paixões da misericórdia e da alegria, usa invariantes narrativas sob variações discursivas para mostrar que Deus (figurativizado em pastor, mulher e pai) se preocupa com o pecador (figurativizado em ovelha, moeda e filho) e sente alegria ao recuperá-lo (figurativizada em festa).

Convém, entretanto, destacar que, diferentemente da ovelha e da moeda – que não eram responsáveis por se terem perdido – o filho se perde por vontade própria. Em outras palavras, ele rompeu um contrato com o pai. Ao contrário do pastor e da mulher nas parábolas anteriores, o pai não saiu à procura do filho, mas foi a lembrança do pai que levou o rapaz ao arrependimento e ao perdão. Deus, porém, nos três casos, está preocupado com o perdido e alegra-se com sua recuperação. Assim, mesmo que uma pessoa rompa um compromisso com Deus – como foi o caso do pródigo – e depois o retome, Deus estará interessado em recebê-lo de volta.

Nas duas primeiras parábolas, pode-se questionar se o “apego intenso” à ovelha ou à moeda não configura a paixão da avareza, uma vez que ambos representam bens econômicos. Esse apego, porém, ao contrário da avareza, é moralizado positivamente. Segundo o Houaiss (2001: 2905), zelo é: (1) “grande cuidado e preocupação que se dedica a alguém ou algo”; (2) “forte disposição, diligência, empenho aplicado na realização de algo”; (3) “afeição intensa, amor por alguém ou algo”; (4) “sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de que se

pretende o amor exclusivo”. Como se pode notar, a intensidade manifesta-se aqui, nas palavras de Greimas e Fontanille (1993: 184), como “calor”, e o sentimento torna-se disposição para fazer (procurar o objeto perdido): tanto o pastor como a mulher buscam o objeto de valor até entrarem em conjunção com ele. Assim, o apego é reformulado como “devotamento”, o que significa assinalar o investimento exclusivo do sujeito por seu objeto. A atitude do pastor, porém, é de puro zelo, pois ele não se incomoda de largar as noventa e nove ovelhas, que representam um grande valor econômico, para ir atrás da desgarrada. O carinho que ele demonstra ao encontrá-la (“Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo”) prova o afeto depositado no objeto de valor. Se o pastor agisse apenas como proprietário, destituído de afetividade pelo rebanho, jamais abandonaria ao léu um número tão grande de ovelhas para sair à procura de apenas uma. Jeremias (2004: 136) afirma que

os conhecedores da Palestina testemunham unanimemente que é impossível um pastor abandonar simplesmente o seu rebanho à sua sorte. Se precisar procurar uma ovelha perdida, confia o rebanho aos pastores que com ele usam do mesmo curral ou toca seu rebanho para dentro duma caverna.

A mulher, da mesma forma, não demonstra mesquinhez ao querer procurar uma dracma; percebe-se, porém, que aquela moeda tem para ela um valor sentimental, o que a faz procurá-la diligentemente, forma adverbial esta que remete ao segmento definicional nº 2 de zelo. Calloud et alii (1978: 135-136) observam que

É papel do proprietário – em seu aspecto puramente econômico – não negligenciar a menor parte de seus bens, cuidar dela e recuperá- la. Entretanto, não é papel do proprietário preferir uma unidade a

uma grande quantidade (tradução nossa)44.

Jeremias (2004: 137) explica por que uma simples dracma tem valor sentimental para a mulher.

[...] as dez dracmas lembram, a quem conhece a Palestina, o enfeite de cabeça, munido de moedas, das mulheres e que faz parte do dote de casamento e constitui sua posse mais preciosa e o seu dinheiro

44

It belongs to the owner’s role in its purely economic aspect not to neglect the smallest part of his goods, to care for and to recover it. However, it is not part of the owner’s role to prefer a unity as over against a larger quantity.

de emergência, e que nem sequer ao dormir se depõe; de fato nos escritos rabínicos se menciona que denários de ouro eram usados como enfeite. Então, a mulher era muito pobre, pois dez dracmas constituíam um enfeite muito modesto, comparadas com as centenas de moedas de ouro e prata, que hoje, no Oriente, muitas mulheres usam como enfeite na cabeça.

Em A parábola do filho pródigo, o filho mais novo, ao pedir antecipadamente a herança ao pai, manifesta a paixão da ambição, produzida pelo querer-ser rico. O pai, por sua vez, age com justiça, pois ele não só deu a parte pedida pelo filho mais novo, mas também a parte do filho mais velho, o que é assinalado no discurso pelo pronome anafórico eles (“E ele repartiu por eles a fazenda”). Partilhou, assim, a herança sobre o eixo sincrônico:

Haveria então duas maneiras de partilhar os objetos de valor numa comunidade: quer sobre o eixo diacrônico, cada um podendo esperar ter sua parte em determinado momento, com a condição de que a circulação dos bens não seja entravada, quer sobre o eixo sincrônico, podendo cada um participar simultaneamente do gozo dos bens disponíveis (GREIMAS; FONTANILLE, 1993: 187)

Uma vez concretizado esse desejo, o poder e o querer gastar do filho produzem o efeito de sentido da prodigalidade. Segundo Greimas (1993: 115), “pródigo é quem faz ‘despesas excessivas’, quem ‘dilapida seu bem’”. Dissipar é apagar, sem deixar vestígio, uma grandeza qualquer (“havendo ele gastado tudo...”). Cumpre frisar que a esse querer gastar deve acrescentar-se o advérbio “dissolutamente” (“ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente”), o que caracteriza a pejoração.

O filho mais novo, quando chega ao ápice da degradação, é virtualizado a querer-voltar para casa. Ao ensaiar um discurso (“Pai, pequei contra o céu e perante ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus trabalhadores45”), o filho perdido, movido por vergonha, tenta manipular o pai por sedução, ou seja, exercendo uma auto-sanção negativa (“...não sou digno...”), vai exaltar a figura do pai. Essa vergonha – causada pelo fracasso (não-saber administrar os bens) e por uma falta moral (querer-gastar com meretrizes) – é

45

Esse solilóquio é um recurso discursivo que permite ao ouvinte ou ao leitor conhecer o estado de alma do rapaz (GRÜN, 2004: 67).

prospectiva, pois o filho já se envergonha antecipadamente apenas de pensar no encontro que terá com o pai. O jovem gastador, sem dúvida alguma, infringe uma norma de honra do costume judaico ao não seguir os conselhos do livro de Provérbios: “O homem que ama a sabedoria alegra a seu pai, mas o companheiro de prostitutas desperdiça os bens”46. Fiorin (1992: 57) aponta que

A vergonha é, assim, um estado de alma da ordem do saber: o sujeito sabe que não possui a competência para um fazer exigido pelo simulacro de membro de um dado grupo ou que fez algo em desacordo com a deontologia grupal.

A trajetória dessa vergonha pode ser representada pelo seguinte quadro semiótico:

possibilidade contingência poder-ser poder-não-ser simulacro existencial do sujeito indignidade imaginário de confiança

relaxamento tensão – reconhecimento da falta

necessidade impossibilidade não-poder-não-ser não-poder-ser

confissão - honra rebaixamento, humilhação, desonra distenção – liquidação da falta intensão – estabelecimento da falta