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Optei por dar ênfase neste estudo a homens com lesão medular devido algumas peculiaridades que nos chamam atenção quando tratamos deste tema. Por considerar que é através do corpo que experimentamos tanto o prazer quanto a dor, entendo, portanto, que a singularidade da corporalidade está ligada a diversos fatores, sendo um deles o gênero. Há corpos masculinos e corpos femininos e isso dá lugar a experiências bastante diferentes, como, por exemplo, o parto (WEEKS, 2000, pag. 48). Neste estudo não poderíamos negligenciar a importância da corporeidade para a vivência das sexualidades dos sujeitos, tornando-se necessário um recorte de gênero. Mas veremos que muitas das discussões trazidas aqui não estão relacionadas exclusivamente aos homens com lesão medular, muitos dos discursos e perspectivas que enuncio se aplicam tanto a homens como às mulheres.

Desenvolvo minha abordagem lembrando as palavras de Giddens (1993) ao afirmar que quando começou a escrever sobre sexo, se deparou escrevendo tanto sobre o amor, quanto sobre masculino e feminino. O autor cita ainda que “As próprias obras sobre sexo tendem a separação por gênero”. Não estou propondo confirmar ou reafirmar esta tendência, mas trago esta idéia pelo fato de que esta pesquisa necessita de uma especificação de gênero por alguns motivos que enunciarei durante a explanação sobre minhas leituras e meus encontros com os sujeitos da pesquisa. Considero igualmente importantes as preocupações com a sexualidade, tanto de homens quanto de mulheres deficientes físicos(as).

Quanto às mulheres, foi encontrado tanto o estudo de Soares et al (2008), quanto o de Moukarzel (2003), França e Chaves (2008), Montanari (1998) e Carneiro (2007), mas em sua maioria são uma análise psicológica e todos trazem a idéia da negação da sexualidade de que tratarei adiante. Estudos nos quais o foco está na sexualidade do homem com lesão medular são em menor número, com a abordagem não muito diferente dos que tem o foco no gênero feminino como os de Barbosa (2003), Campos (2006) e Silva e Albertini (2007).

A grande maioria das obras que trazem os gêneros masculino e feminino como a de Teixeira (2006) e Mendes (2007), trata de assuntos mais abrangentes, mas discutem, mesmo que brevemente a sexualidade, demonstrando a importância do tema sexualidade no tocante à deficiência física. Nas obras que tratam exatamente sobre sexualidade e deficiência física o enfoque em um dos gêneros se fez presente e veremos ao longo deste estudo que ele se torna necessário devido à densidade do assunto. O maior enfoque que dou ás masculinidades se deve ao fato de que os estudos de gênero como um todo tendem a priorizar as mulheres. Como lembra Matos (2001, p. 46) “são raros os estudos na produção historiográfica brasileira sobre as masculinidades, deixando a impressão de que os homens existem em algum lugar além, constituindo-se num parâmetro extra histórico e universalizante.” Levando em consideração estes dados, acredito ser importante o foco na vivência de homens paraplégicos, não só pela carência de estudos destes sujeitos, mas também devido ao curto tempo de que disponho para a confecção desta dissertação.

Em meus encontros com os sujeitos da pesquisa a evidência do interesse sobre a sexo masculino surgiu da grande curiosidade que estes homens imprimiam ao me falar ou perguntar sobre o assunto. Para minha surpresa tornou-se mais fácil falar sobre a sexualidade com os homens com quem tive contato, pois as mulheres pareciam mais fechadas, “porque é um assunto muito íntimo, afirmou Fabrício de 25 anos, e para a mulher é mais complicado. “Homem fala disso o tempo todo.” Nas próprias objeções das mulheres percebi o caráter delicado do assunto em relação a elas, e ao mesmo tempo as caracterizações e diferenciações entre os gêneros. Parece haver um cuidado destas mulheres com sua “intimidade”, ela deve ser preservada do conhecimento público, enquanto que para os homens que entrevistei há uma necessidade de exteriorização da problemática da sexualidade, que deixa transparecer uma vontade de auto-afirmação com frases como “nós podemos fazer sexo sim”, ou “sou deficiente, mas ainda faço tudo, nada parou de funcionar não”. Devido ao que foi exposto acima seguirei minha explanação através da problematização da sexualidade de homens com lesão medular, que estão inseridos no contexto de estigmatização social.

Nas sociedades ocidentais a masculinidade está diretamente relacionada à virilidade e à força, portanto, quando o homem não preenche estes requisitos se vê retirado de seu lugar comum e precisa experimentar outras formas de representação de sua sexualidade que não estejam exatamente ligadas a este ideal de masculinidade estabelecido socialmente. Le Breton (2003) afirma que a alteração do corpo remete, no imaginário ocidental, a uma alteração da moral do homem e, inversamente, a alteração da moral do homem acarreta a fantasia de que seu corpo não é apropriado. Portanto, em nossa sociedade o homem lesionado é subjugado, pois se supõe que não pode mais exercer suas funções sociais e sexuais. Mesmo sabendo que o ideal de masculinidade vem se modificando atualmente, parece-nos que o antigo padrão ainda reside fortemente sobre os sujeitos da pesquisa.

A obtenção do prazer para um homem cadeirante será negociada diretamente nas relações afetivas e sexuais. A frustração ou a satisfação diante da sexualidade estarão diretamente ligadas a como estes sujeitos irão vivenciar suas relações de intimidade e entram aqui as reutilizações do corpo e as negociações entre os parceiros. O falo, em muitos casos, não é a representação maior de obtenção de gozo de participação no ato sexual.

A sexualidade corpórea que não tem mais o foco central no falo, ainda que este seja evidenciado nas falas dos participantes, traz uma nova perspectiva de masculinidade a estes sujeitos que irá se refletir tanto na visão de si, quanto na vivência de seus relacionamentos. As muitas formas de se fazer mulher ou homem, as várias possibilidades de viver prazeres e desejos corporais são sempre sugeridas, anunciadas, promovidas socialmente (e hoje provavelmente de formas mais explícitas do que antes). “Elas são também renovadamente reguladas, condenadas ou negadas” (LOURO, 2000, p. 9), as configurações relacionadas à maneira como estes homens irão utilizar os códigos sociais sobre sexualidade serão decisivas para a superação do estigma corpóreo ao qual estão submetidos.

Não pretendo com isso mostrar que o homem com lesão medular é um ícone subversor do discurso sobre as masculinidades. Mas ao mesmo tempo em que a lesão medular faz com que o indivíduo tenha que refletir sobre seus movimentos, como andar, ou aprender a usar a cadeira de rodas, a reflexividade

também acontece em relação à maneira como ele vivencia e entende sua sexualidade.