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Apesar de sua ampla influência, o puritanismo era um fenômeno da Nova Inglaterra. O fervor puritano dos primeiros colonos durou pouco tempo. Logo a dissidência aumentou e o número de membros da igreja encolheu.

No século XVIII, com o aumento da prosperidade material, o afluxo crescente de imigrantes de diferentes convicções religiosas e a melhora continuada da educação e da cultura, inclusive com a valorização do conhecimento científico, a América do Norte Inglesa viu a influência puritana diluir-se na sociedade, embora a religiosidade como um todo jamais tivesse deixado de representar um papel importante e a ala protestante do cristianismo de exercer a hegemonia cultural. (SILVA, 2009, p. 82)

Os não-puritanos começaram a requisitar participação no governo civil e as igrejas passaram a ser associações voluntárias às quais os indivíduos se filiavam por vontade e mantinham através de contribuições privadas. As igrejas tinham que competir umas com as outras por fiéis e não recebiam nenhum privilégio do governo. “Pelos idos de 1820, o pluralismo religioso, ausência de uma religião oficial e a tolerância se transformaram no modelo americano tradicional, com a única exceção de Massachusetts, que aderiu ao padrão em 1833.” (MURRIN, 2007, p.29)

Esta transformação da cultura religiosa processada no século XVIII, que inaugura a diversidade e a heterodoxia em terras americanas, tem origem no chamado Primeiro Grande Despertar (Great Awakening), uma onda de entusiasmo e redescoberta da fé protestante que percorreu as colônias americanas nos anos 1730-40. À época, as maiores denominações eram as congregacionais, anglicana e quacre. O movimento iniciado em New Jersey não foi unificado, mas trouxe o ensejo comum de fortalecer a igreja frente à secularização governamental e à hegemonia do pensamento racionalista sob as influências do Ilunismo europeu e do deísmo.

Lideranças como Jonathan Edwards e George Withefield deram alguma coesão ao movimento que teve duas vertentes, uma mais racionalista (contrária aos dogmas calvinistas) e outra mais emocional. (SILVA, 2009) Despreocupada com os rituais e com a correção litúrgica, os surtos de renovação religiosa focavam no “sentido de culpa” e na “salvação por Cristo”. A religião

se tornou especialmente pessoal e focada na redenção e no estilo evangélico de “renascimento”

Mais do que angariar novos seguidores, o Primeiro Despertar mudou o “sentido de

existência” e a organização das igrejas americanas. O poder passou das mãos dos clérigos para os

leigos. As lideranças não decorriam de treinamento teológico, mas de indivíduos que recebiam

“chamados” para uma vida de transformação e salvação. Eram homens e mulheres convictos de sua

relação direta com Deus. Os pregadores vindos do interior traziam um estilo menos erudito e racional, mais apaixonado e emocional, com grande ênfase na experiência individual. O estudo da Bíblia em casa auxiliou a descentralização da informação e reforçou o sentido protestante de individualismo. O espírito democrático e independente reinante no campo religioso se faria sentir, mais tarde, nas aspirações políticas. (MURRIN, 2007)

Na Nova Inglaterra, o despertar foi influenciado por igrejas congregacionais, nas colônias do centro-sudeste, por presbiterianos e no sul por metodistas e batistas. Em geral, o movimento revivalista religioso chocou-se com as igrejas mais tradicionais e trouxe temas novos, como a escravidão, para o cristianismo.

Para muitos analistas, o Primeiro Grande Despertar foi um fator de unificação das colônias que facilitou a revolução e a independência dos EUA. O movimento protorrevolucionário teria mudado a cultura americana e originado a “igreja americana” na medida em que diluiu uma

devoção religiosa ecumênica e um sentido de “americanidade” por uma longa lista de

denominações e seitas. (SILVA, 2009)

A religião na América pré-revolucionária enfatizou dois aspectos que influíram fortemente no espírito revolucionário: a salvação através da conduta terrena reta e a ideia do laço especial de Deus com uma comunidade escolhida. “Mudanças ideológicas se processaram dentro da estrutura simbólica calvinista de salvação pela experiência e entendimento dos desígnios da providência divina para os povos de Deus na Terra.” (BLOCH, 2007, p.50)

Concomitantemente, a própria revolução teria influenciado o status quo religioso, na medida em que dividiu ideologicamente denominações (principalmente anglicana e quacre)34 e fortaleceu as expectativas milenaristas que incentivaram o povo a se libertar da Inglaterra e fundar uma nova república, não somente como um experimento político, mas como parte do novo trabalho de Deus na Terra. (MURRIN, 2007)

A crença na providência divina deu sentido elevado, a-histórico, à revolução. O esforço

perene para definir a “comunidade de Deus” contribuiu para formação do nacionalismo americano. “Preocupações religiosas sobre as condições da salvação ajudaram a moldar o entendimento de valores revolucionários chave, como liberdade e virtude.” (BLOCH, 2007, p.49)

34 Para os anglicanos, a revolução colocou o dilema da fidelidade à Inglaterra, enquanto os quacres tiveram seu

No início do século XIX, os Estados Unidos vivenciaram o que ficou conhecido como

Segundo Despertar ou “grande renascimento”. Se o primeiro havia se concentrado na Nova

Inglaterra (costa leste), o segundo se espalhou pelo sul e oeste do país. Uma das fontes de inspiração do movimento veio da igreja presbiteriana do Kentucky, que inovou a prática religiosa

com os acampamentos de “retiro espiritual”.

Em isolamento, os crentes poderiam “renascer” através da expressão coletiva e apaixonada de sua fé. Os metodistas foram os maiores entusiastas do estilo emocional e do ascetismo estrito para uma vida sem pecados. Logo havia pastores migrando do Kentucky para o Tenessi e Ohio, rumando ao interior para promover a revitalização de denominações tradicionais e, muitas vezes, originando outras. Este é o caso, por exemplo, dos mórmons e adventistas, igrejas que nasceram durante o Segundo Despertar, se fortaleceram e estão ativos no mercado religioso americano contemporâneo.

A preocupação individual com a devoção e a salvação se revelou no combate aos vícios terrenos como prostituição, bebidas alcoólicas e jogos de azar. Indiretamente, os indivíduos se viam responsáveis por decisões políticas, econômicas e por temas sociais como a escravidão. Destarte, a defesa de teses progressistas e a preocupação com a moralização dos costumes ganhou conotação política, na tentativa de influenciar as leis e políticas públicas americanas. (SILVA, 2009)

Em suma, o Segundo Grande Despertar elevou a devoção evangélica ao patamar de religião nacional e moldou a igreja e a cultura sulista, com traços que podem ser observados até hoje. Outra faceta relevante deste movimento foi a influência do estilo carismático e voluntarista que, à época, conformou a visão de mundo do americano médio que foi conquistar o Oeste. (MURRIN, 2007)

Dos anos 1850 até o início do século XX, houve um Terceiro Despertar movido por altas doses de ativismo social. A tese pós-milenarista, que condiciona a segunda vinda de Cristo à reforma moral do planeta, deu força aos projetos moralistas. Cruzadas nacionais eram feitas em torno do combate à pornografia, trabalho infantil e consumo de álcool. Neste contexto se encontra a mobilização pela Lei Seca, uma das primeiras grandes vitórias políticas da religião organizada. (SILVA, 2009, p.100)

O crescimento das igrejas protestantes mainline se revelou pelo número de fiéis, nível educacional e fundos arrecadados, que puderam ser direcionados à criação de escolas, universidades, entidades filantrópicas (como o Exército da Salvação e a Associação Cristã de Moços) e de excursões missionárias no exterior. Em muitas cidades o “renascimento” foi interrompido pela guerra civil. No sul, ao contrário, a guerra estimulou o fervor religioso, principalmente entre os batistas.

Para alguns autores, a história da religião americana teria sido marcada por um quarto Despertar, que teria ocorrido nos anos 1960-70. Em que pese o impasse na definição das mudanças processadas neste período como um Great Awakening, é inegável o aumento na frequência aos serviços religiosos, o enfraquecimento das grandes e tradicionais denominações religiosas (principalmente metodista, luterana e presbiteriana) e o crescimento das igrejas e seitas evangélicas e fundamentalistas35. Da mesma forma, o secularismo e o movimento dos não filiados ganhou espaço, conforme descrito no segundo capítulo.

Um renascimento carismático inundou o movimento protestante pentecostal, seguimento que enfatiza as experiências de manifestação do Espírito Santo, através de profecias, curas e da glossolalia (falar em línguas). Este também foi o período das megaigrejas e do televangelismo, da mobilização de conservadores em torno da agenda social (em temas como direitos homossexuais, aborto e criacionismo) e seu engajamento político na luta partidária.

Como veremos adiante, um conjunto de conservadores religiosos se organizará não somente no púlpito das igrejas e nos populares programas de rádio e televisão, mas também no Partido Republicano, alterando a paisagem política estadunidesnse. Este despertar religioso, caracterizado pelo engajamento político da família evangélica, é a base para a direita religiosa que influiu diretamente nas eleições políticas a partir de Reagan. Líderes como Billy Graham, Jerry Falwell, James Dobson e Pat Robertson uniram carisma, conservadorismo social e plataformas políticas específicas na conformação da direita religiosa americana, conforme será descrito no quinto capítulo.