3. Methodology and data
3.5 Firm characteristics and cash holding in a Norwegian setting
Se a religião guarda uma relação tão específica com o universo político nos Estados Unidos, a dinâmica partidário-eleitoral não poderia seguir isenta destas interconexões com a fé religiosa do povo americano.
Os Estados Unidos têm uma longa tradição de separação entre igreja e Estado, mas uma equivalente inclinação para misturar religião com política. Ao longo da história do nosso país, grandes movimentos políticos e sociais – desde a abolição, sufrágio feminino e os direitos civis até as lutas atuais sobre o aborto e casamento gay – tem atraído autoridade moral e inspirado liderança das instituições religiosas. Porém, nesta geração passada, a religião se envolveu mais fundo na trama da política partidária do que jamais no passado. (PEW FORUM, 2005)
Dentre as correlações possíveis entre o jogo partidário e o universo religioso, aquela que mais se destacou na virada para o terceiro milênio foi a influência do indicador de frequência ao
culto religioso, a chamada “lacuna de Deus” (God gap ou church attendance gap). Os norte-
americanos que frequentam a igreja42 regularmente e guardam uma visão de mundo religiosa- tradicional têm votado cada vez mais no Partido Republicano, enquanto aqueles menos conectados a instituições religiosas e com perspectivas mais seculares tendem aos candidatos democratas. Esta linha divisória está ficando tão familiar que ofusca o ineditismo do processo histórico. (PEW FORUM, 2005)
Um estudo revela que as aproximações recorrentes no cenário religioso norte-americano se verificam através de um corte seccional entre as denominações. Ou seja, a similitude ideológica se apresenta em relação ao grau de conservadorismo moral, e não entre linhas de denominações
religiosas. “Por exemplo, os católicos tradicionalistas estão mais próximos de evangélicos
tradicionalistas que de católicos modernos em seus pontos de vista sobre aborto ou pesquisas com células-tronco embrionárias.” (PEW FORUM, 2005, p.4)
42 Ao longo de todo o texto o termo “igreja” foi referenciado genericamente, indicando à participação de serviços
FIGURA 6 – FREQUÊNCIA AO CULTO RELIGIOSO E O VOTO PRESIDENCIAL 2000 VNS EXIT POOL
BUSH GORE
2004 NEP EXIT POLL BUSH KERRY
BUSH GAIN
% % % % %
More than once a week Once a week
Monthly
A few times a year Never 63 57 46 42 32 36 40 51 54 61 64 58 50 45 36 35 41 49 54 62 1 1 4 3 4 Fonte: PEW FORUM, 2004 (b)
Ainda que a correlação existente entre os indivíduos que guardam crenças religiosas conservadoras e aqueles que votam em candidatos conservadores seja forte, ela não é universal. Uma das exceções ilustrativas é o conjunto de latinos e afrodescendentes que, apesar de se vincularem a tendências mais tradicionalistas em seu credo pessoal, estão mais propensos a apoiar candidatos democratas do que republicanos. Pode-se concluir que aspectos como etnia, gênero, ou status socioeconômico adquirem realce, uma vez que dividem a sociedade americana conforme suas preferências ideológicas, no que concerne à religião e, concomitantemente, à política partidária. (PEW FORUM, 2005)
Em estudo comparativo, o aspecto religioso tem aparecido, em meio aos demais indicadores sociais, como um dos mais influentes para a escolha do candidato no pleito presidencial. A origem mais provável para o avivamento da “lacuna de Deus” é a existência de debates públicos sobre questões morais, que compõe o cerne da “guerra cultural” americana. Nos extremos opostos, encontram-se os secularistas e os tradicionalistas. Os termos da disputa situam-se em na defesa da tradição e contra a decadência espiritual trazida pela modernização da sociedade. O eleitorado define seus candidatos a partir do posicionamento em torno de temas como manipulação genética, oração e leitura da Bíblia nas escolas, eutanásia, aborto e controle de natalidade, direitos homossexuais, dentre outros. (PEW FORUM, 2005)
Apesar da polarização política entre liberais e conservadores estar relacionada, no primeiro plano, ao exercício da fé do cidadão norte-americano (a frequência com que vai à igreja), há também paralelos possíveis a serem projetados entre as tradições e denominações religiosas e filiação partidária.
Há importantes diferenças na filiação religiosa dos americanos que se identificam politicamente como conservadores ou liberais. Os mórmons, por exemplo, compõem um dos grupos mais conservadores em termos de política nacional. De outro lado, os judeus, budistas e hindus são provavelmente melhor descritos ideologicamente como liberais. E há outros grupos que se
localizam neste intervalo, como os católicos romanos, que mostram uma divisão bastante equilibrada entre fiéis conservadores, moderados e liberais.
Além da filiação, a crença e a prática religiosa também podem ter importantes impactos na ideologia. Por exemplo, indivíduos que relatam frequentar regularmente os cultos e que dizem que a religião é muito importante em suas vidas, tem maior probabilidade de se identificar enquanto conservadores. Estes padrões se estendem a muitas comunidades religiosas nos Estados Unidos, incluindo os evangélicos, protestantes mainline e igrejas negras protestantes, assim como católicos romanos e judeus. (PEW FORUM, 2008b)
Com relação à identificação estabelecida entre os partidos Republicano e Democrata e as principais tradições religiosas nos Estados Unidos, ganham realce as alterações transcorridas na segunda metade do século XX. Se nos anos 60 os evangélicos se identificavam majoritariamente com o Partido Democrata (60% em contraste com os 30% que se afirmavam Republicanos e 10% com os independentes), em meados dos anos 2000 os evangélicos eram predominantemente republicanos (56%). (PEW FORUM, 2007, p.7)
Dentre os protestantes tradicionais, o movimento foi análogo, porém inverso e menos abrupto. O número dos simpatizantes do Partido Democrata subiu levemente de 37% em 1960 para 40% em 2004, enquanto aqueles que se mostravam identificados com os republicanos passaram a compor 42% dos crentes (em contraste com 52% da década de 60). O volume de protestantes que se identificam como independentes também aumentou durante estas cinco décadas, de 11% para 19%. Os católicos romanos, por sua vez, estiveram principalmente aliados à política democrata. Entretanto, a rejeição ao ideário republicano diminuiu, praticamente equiparando a predileção partidária católica. Isso porque na década de 1960, 71% dos fiéis da Igreja Romana se identificavam com o Partido Democrata, 18% com o Partido Republicano e 11% se consideravam independentes. Já em 2004, o apoio aos democratas despencou para 44%, o republicanismo ascendeu para o patamar dos 40%, e os independentes se mantiveram relativamente estáveis, com 12% de aderentes entre os católicos neste início de século. (PEW FORUM, 2005) A tabela que segue traz o conjunto das principais denominações religiosas norte-americanas e como elas estão relacionadas ao mosaico político-partidário.
Fonte: PEW FORUM, 2008a
A interseção entre as escolhas religiosa e partidária não se relaciona somente pela prevalência de determinadas tradições à adesão política e ideológica mais ou menos conservadora. Outra percepção bastante difundida na sociedade norte-americana é a que o Partido Republicano é mais pró-religião (friendly toward religion) que o Partido Democrata. No levantamento realizado em ocasião da corrida eleitoral de 2008, 50% do público entrevistado afirmou que o Partido Republicano era pró-religião, 23% neutro e apenas 9% disse que os republicanos eram hostis em relação à religião (unfriendly toward religion).
Os números contrastam com os 30% que entendiam que o Partido Democrata era pró- religião, 15% hostis, e a maioria (37%) acreditava que os democratas eram neutros quanto aos apelos da fé. (PEW FORUM, 2007c, p.10) Como mostra o gráfico abaixo, os últimos anos
mostraram a reafirmação dos laços religiosos no partido Republicano, mas também a diminuição da percepção que os democratas são refratários ao universo religioso.
FIGURA 8 – A FAMILIARIDADE DOS PARTIDOS COM A RELIGIÃO
Fonte: PEW FORUM, 2008d.
Não surpreendentemente, os entrevistados entenderam que a proximidade dos partidos com a esfera religiosa era algo positivo. Ao mesmo tempo, há uma preocupação expressa acerca da influência dos liberais (considerados não religiosos) sobre o controle do Partido Democrata. Em 2007, pouco mais de um terço dos entrevistados pensava assim (37%), indicador que declinou ligeiramente desde 2005, quando somavam 44%.
Em contrapartida, há também uma pequena pluralidade (43%) de norte-americanos que partilha a ideia de que os conservadores religiosos exercem muito controle sobre o Partido Republicano. Os indicadores se mantiveram estáveis no final da década de 2000, como mostra a tabela a seguir.
FIGURA 9 - QUEM CONTROLA OS PARTIDOS
Aug 2007 Aug 2008 Religious conservatives
have too much control over the Republican Party?
Agree Disagree Don’t know 43 41 16 48 41 11 Liberals who are not
religious have too much control over the Democratic Party? Agree Disagree Don’t know 37 47 16 43 45 12 Fonte: PEW FORUM, 2008d
Paralelamente, outro indicador revela um grande descontentamento popular com a tentativa dos políticos liberais de diminuir a influência da religião no governo e nas escolas, que soma 69% dos cidadãos norte-americanos. Da mesma forma pensam 87% dos republicanos e 78% de todos os protestantes (número que sobre para 86% entre os evangélicos brancos).
No extremo oposto, há também significativa parcela (49%) da população que critica a tentativa de imposição dos valores por parte dos cristãos mais conservadores. No espectro político, estes indivíduos se polarizam entre 59% dos democratas e apenas 31% dos republicanos. Dentre as tradições religiosas, o olhar desconfiado polariza-se entre evangélicos brancos (com a pequena soma de 25%) e secularistas (68%). (PEW FORUM, 2004)
O que se revela através das estatísticas, especialmente, é a capacidade de influência da religião em momentos de decisão política diante das urnas. Para 38% da população norte- americana, a religião influenciará diretamente na hora de votar, indicador este que é mais proeminente entre republicanos (31%) que entre democratas (20%). Seguindo a tendência, os evangélicos brancos são os mais suscetíveis aos apelos religiosos na decisão pelo candidato, chegando a 48%. Dentre estes, 60% dos que são altamente comprometidos com sua fé levam-na em consideração no momento da votação. (PEW RESEARCH CENTER, 2003)
Por outro lado, há um relativo consenso sobre a necessidade do líder da nação guardar profundos sentimentos religiosos – 72% dos norte-americanos enfatizam esse aspecto. Dentre os grupos políticos, destacamos os republicanos, dos quais 86% apoiam a crença religiosa do presidente. Um consenso similar existe dentre os grupos religiosos, com a um pequeno desvio dos não filiados, dos quais apenas 36% defendem esta ideia. (PEW FORUM, 2008b)
A eleição presidencial de 2004 é especialmente simbólica para a análise da conexão entre religião e política partidária nos Estados Unidos. Isso se deve ao fato de que, nesta campanha, os candidatos discutiram abertamente suas crenças religiosas, as igrejas estiveram bastante ativas na mobilização política e os votantes se alinharam não somente pelas preferências político-ideológicas, ou influenciados por ditames demográficos (como renda, gênero e faixa etária), mas também conforme o grau de comprometimento para com suas religiões pessoais, a já mencionada “lacuna de frequência religiosa”.
Em 2004, a campanha presidencial esteve marcada pela guerra no Iraque, pela ameaça terrorista e pela insegurança econômica. Neste contexto, os aspectos morais tiveram significativo impacto. De fato, 64% dos eleitores afirmaram que os valores morais influiriam sua escolha nas urnas. (PEW FORUM, 2004) Certamente os evangélicos brancos podem ser considerados o principal componente da coalizão republicana, repetindo o desempenho de 2000. O grupo representou quase um quarto de sua base eleitoral. George W. Bush recebeu o apoio de 78% dos
evangélicos brancos nas urnas. Esta elevada porcentagem é ainda maior que aquela garantida quatro anos antes, de 69%.
A associação entre o Partido Republicano e a direita religiosa tem uma história prévia, pois reflete a estratégia que os dirigentes do partido adotaram para renová-lo após a humilhante derrota de Barry Goldwater para Lyndon Johnson nas eleições presidenciais de 1964. A expansão das bases do Partido Republicano foi articulada por um dos conselheiros de Goldwater, Paul Weyrich, e incluiu a fundação do influente think tank conservador Heritage Foundation em 1973, e a aproximação com líderes religiosos dos movimentos pentecostal, carismático e fundamentalista.
O apoio destes conservadores religiosos já fora indispensável para a vitória de Ronald Reagan na campanha de 1980. (MARSDEN, 2008, p.15-17) Karl Rove, que assessorou George W. Bush em suas bem sucedidas candidaturas ao governo do Texas (1994 e 1998), foi o mentor da aproximação do Partido Republicano com a direita religiosa nas campanhas presidenciais de Bush filho. (PEREIRA, 2009, p. 205)
O impulso religioso foi importante para o incremento da participação política dos conservadores em âmbito local e também para grandes campanhas nacionais. A moeda de troca pretendida foi, e continua sendo, uma agenda doméstica que abordasse, com rígido senso de moralidade, temas como aborto, direitos homossexuais, ensino do criacionismo nas escolas públicas, apoio a campanhas de abstinência como forma de combate à AIDS e gravidez adolescente, entre outros. Esta parceria teve seu auge durante o governo Bush filho, quando os líderes da direita cristã puderam circular nos corredores de poder, reunindo-se com membros da administração e da Suprema Corte para defender sua agenda conservadora.
Além da importância da direita cristã e dos indicadores da “lacuna de frequência religiosa” para a eleição de 2004, ressalta-se nesta corrida presidencial outra particularidade: ela representou a disputa entre um católico e um protestante. George W. Bush, metodista convertido de vida religiosa ativa e publicamente expressa, suplantou nas urnas John Kerry, um dos poucos católicos romanos que logrou candidatura à presidência da nação americana.
De fato, apenas três católicos competiram em eleições presidenciais em toda a história da democracia nos Estados Unidos. Todos representaram o Partido Democrata: Alfred E. Smith perdeu as eleições presidenciais de 1928, John F. Kennedy saiu vitorioso em 1960 e Kerry foi recentemente derrotado por Bush filho. A expressiva maioria dos presidentes americanos foi criada em famílias ligadas à cristandade protestante – quase metade esteve filiada às igrejas episcopal ou presbiteriana e apenas Jefferson, Lincoln e Johnson não eram filiados a uma tradição religiosa específica.
Igreja Episcopal George H. W. Bush Gerald Ford Franklin Roosevelt Chester Arthur Franklin Pierce Zachary Taylor John Tyler William Harrison James Monroe James Madison George Washington Igreja Presbiteriana Ronald Reagan Dwight Eisenhower Woodrow Wilson Benjamin Harrison Grover Cleveland James Buchanan James Polk Andrew Jackson Igreja Batista Bill Clinton Jimmy Carter Harry Truman Warren Harding Igreja Metodista George W. Bush William McKinley Rutherford Haynes Ulysses Grant Unitários
William Howard Taft Millard Filmore John Quincy Adams John Adams Sem filiação formal Andrew Johnson Abraham Lincoln Thomas Jefferson Discípulos de Cristo Lyndon Johnson James Garfield Igreja Reformada Holandesa Theodore Roosevelt Marvin Van Buren
Quacre Richard Nixon
Herbert Hoover
Igreja Católica John F. Kennedy
Congregacional Calvin Coolidge Igreja Unida de
Cristo
Barack Obama Fonte: www.adherents.com/adh_presidents.html.
A divisão historicamente conformada entre protestantes e católicos foi uma grande característica da influência da religião na política partidária. Durante anos, nunca foi cogitada a hipótese de eleger um católico para a presidência do país. Ainda que as eleições de 1960 tenham rompido esta barreira, a disputa nas urnas foi acirrada e religiosamente seguimentada: 78% dos católicos votaram em Kennedy, enquanto 63% dos protestantes brancos votaram em Richard Nixon.
Kennedy ainda é o único católico a ocupar o cargo mais alto da política americana. Se o predomínio do espírito protestante funcionou como uma barreira à candidatura de um católico à presidência dos Estados Unidos, com as demais tradições religiosas tal feito era ainda mais improvável. Nunca um judeu saiu candidato à presidência.
Em 2000, o judeu Joe Liebermanfoi vice na chapa democrata de Al Gore. Em 2006, Keith
Ellison foi o primeiro mulçumano eleito para o governo federal, como representante do estado de
Minnesota. Em 2008, Joe Biden foi o primeiro vice-presidente católico eleito pelo povo americano, na mesma eleição que suscitou debates sobre o background mulçumano de Barack Hussein Obama.
Esta realidade adentra o século XXI, quando 31% da população norte-americana afirmam que não votaria em um candidato mulçumano e 41% não confiaria em um ateu para dirigir os Estados Unidos. Dentre os entrevistados em pesquisa de 2003, 52% guardam maiores restrições em
votar num candidato sem religião do que com uma religião específica, ainda que não seja aquela que professa particularmente. (PEW RESEARCH CENTER, 2003)
Nas eleições de 2008, vimos Barack Obama reforçando publicamente sua fé cristã, à revelia das desconfianças de uma origem mulçumana. De fato, o candidato avançou no apoio do eleitorado de todas as tradições religiosas, e também em relação aos mais assíduos no culto. Obama obteve 43% dos votos dos fiéis que frequentam serviços religiosos ao menos uma vez na semana e 42% daqueles que vão à igreja mais de uma vez na semana, em contraposição a 39% e 35%, respectivamente, do concorrente John McCain.
O atual presidente da América recebeu, ainda, 57% dos votos daqueles que frequentam ocasionalmente serviços religiosos, e 67% dos que nunca vão à igreja. (PEW FORUM, 2008e) Além dos significativos ganhos que Obama teve com as minorias (tanto étnicas quanto religiosas), em 2008 ele obteve maior apoio entre os evangélicos brancos – 24% em contrapartida aos 20% angariados por Kerry quatro anos antes. (PEW FORUM, 2008f, p. 21)
Em suma, pode-se deduzir que, se a religião é um elemento que garante tônus diferenciado à cultura e à dinâmica política dos Estados Unidos, os reflexos nas urnas são inevitáveis. Seja em termos de uma rivalidade sectária entre católicos e protestantes, da predileção de determinadas tradições por algum seguimento político ou, ainda, de sobreposição entre tradicionalistas morais e opções ideológicas mais conservadoras, a religião tem se mostrado um fator que ajuda a definir opções que delineiam o espaço público do país.
Segundo Gary Bauer (2004, p.53), “De fato, podemos dizer que a maior divisão entre as
porções liberal e conservadora do atual espectro político é precisamente a ideia de um papel vital
para a compreensão moral e religiosa.” Ou seja, a disputa política, assim como a paisagem
institucional e toda a arquitetura pública dos EUA refletem, impreterivelmente, as raízes da moralidade religiosa que se encontram diluídas na história do país.
Quando chamados a opinar sobre a influência da religião no governo (líderes e instituições tais como o Congresso e a Suprema Corte), 45% dos norte-americanos dizem perceber um declínio, sendo que 36% o interpretam negativamente. No outro extremo, o que equivaleria a 42% da população norte-americana afirma perceber um aumento da influência da religião sobre a prática político-institucional do país.
Mais uma vez, essa percepção varia conforme a divisão ideológica no espectro partidário. Apenas 35% dos republicanos percebem um aumento do fator religioso no governo e 23% apoiam este movimento. Partilhando de opinião similar, 45% e 48% dos democratas e independes, respectivamente, apontam para um processo de elevação deste indicador. Contrariamente aos
republicanos, ambas correntes políticas entendem a tendência como prejudicial – dados revelam que assim julgam 28% dos democratas e 32% dos independentes. (PEW FORUM, 2006a)
Percebe-se, a partir destas divergências tão acentuadas sobre a díade religião/política, que partidários dos republicanos e democratas polarizam-se não somente quanto a aspectos clássicos de embate ideológico. Sua orientação nos campos das ideias e práticas políticas diverge também porque estes grupos trazem diferentes cosmovisões (influenciadas pela religião) que orientam suas
“leituras de mundo”.
Ao mesmo tempo em que grande parte dos norte-americanos recebe com pesar a tendência de distanciamento da religião em relação à prática governamental, pelo menos a metade da população do país (51%) julga pertinente que temáticas sociopolíticas sejam abordadas dentro das igrejas. Os assuntos são bastante variados, e a ênfase conferida a alguns revela o julgamento moral e o direcionamento de conduta esperado por determinado corpo doutrinário. Dentre os temas mais mencionados, encontram-se a pobreza, o aborto, a guerra no Iraque, o casamento homossexual, as pesquisas com células tronco-embrionárias, etc. (PEW FORUM, 2006a)
No fim dos anos 2010, os dados trazem uma inversão da expectativa popular com relação ao envolvimento das igrejas com assuntos sociais e políticos. Na virada da década, o número de críticos à discussão política no púlpito superou os fiéis que apoiam a prática.
FIGURA 11 – IGREJAS DEVEM SE MANTER FORA DA POLÍTICA
Fonte: PEW FORUM, 2010b.
A presente análise revela, portanto, a influência da religião como fator identitário e norte para escolhas ideológicas que delineiam o espaço público nos Estados Unidos. A diversidade
religiosa que se mostra uma constante ascendente também revela a divisão da cena política entre os chamados conservadores e liberais.
Para citar o derradeiro exemplo, durante o governo de George W. Bush ressurgiram expectativas de líderes religiosos e políticos conservadores pela institucionalização do criacionismo nas escolas públicas. O próprio presidente incentivara o ensino do intelligent design, paralelamente ao darwinismo.
Respondendo à pergunta sobre o evolucionismo, 42% dos americanos responderam que os seres humanos só existiram da forma como estão no presente e 51% acreditam numa mudança evolutiva ao longo da história. Dentre os últimos, somam 21% os que acreditam serem resultado da obra de um Ser Superior, enquanto os que acreditam na seleção natural são apenas 26%. (PEW FORUM, 2006) A pesquisa revela como a sociedade norte-americana esteve dividida em relação à