• No results found

Introduction

In document fh_2007_04.pdf (1.528Mb) (sider 9-14)

Sobre a percepção dos profissionais com os quais E. teve contato em seu percurso no SUS, acerca da possível relação entre seu trabalho e seu processo de saúde e doença, as mais atentas a essa questão foram a psiquiatra do CAPS e a médica da ESF. Estas, também, foram as que

48 Se compararmos, em 2006, E. ganhava cerca de sete salários mínimos da época, considerando o valor com as horas extras habituais. Em

2015, com o auxílio doença relatado, não chegava a ganhar dois salários mínimos, considerando que neste ano o salário mínimo era R$788,00.

mais atenderam este usuário. Segundo os registros dos prontuários no período pesquisado, cada uma teve oito atendimentos com ele49.

A médica da ESF escolheu o caso, exatamente por observar a existência de uma relação entre seu adoecimento mental e o assalto ocorrido na empresa, almejando compreender melhor o que tinha acontecido e como essa relação poderia ser estabelecida:

O que percebo é que ele tinha uma depressão. Piorou muito depois do assalto. Ele mudou muito. Começou a escutar vozes, ficar agressivo... Tinha casos de depressão na família, mas, não tinha sintomas psicóticos. Até o assalto, não tinha sido afastado pelo INSS (Médica da ESF).

Quando questionada sobre o diagnóstico do usuário, esta médica afirmou:

Eu não sei se ele passou por isso ou absorveu do que aconteceu com colegas. (O psiquiatra do NASF) na

época, colocou reação aguda ao estresse. Eu acho que poderia ser, mas, o psiquiatra que vai dizer (...)

Acho que teve estresse pós-traumático e que este desencadeou alguma coisa mais grave, mas, não tenho segurança para afirmar qual CID (Médica da ESF).

Esta médica, que também tinha formação como médica do trabalho, reconheceu que era importante para o usuário ter um diagnóstico estabelecido e a relação com seu trabalho evidenciada, principalmente, porque o ajudaria nas questões trabalhistas e previdenciárias. Sobre as perspectivas de E. retornar ao trabalho, afirmou: “Para voltar para seu trabalho, acho difícil. Para outra (ocupação), é preciso avaliar. Seria importante perguntar para ele, o que ele poderia fazer. Não sei como funciona a reabilitação do INSS.”

A psiquiatra do CAPS, ao ser questionada sobre o lugar do trabalho no processo de saúde- doença desse usuário, afirmou perceber, claramente, sua importância na construção/desconstrução de sua subjetividade e de suas relações sociais:

Eu acho que o trabalho é muito importante para ele. Ele se sentia importante com o que fazia. Ele tinha um cargo que fazia com que na comunidade dele tivesse um status. Ele tinha convênio. Tinha uma outra remuneração do que seus vizinhos, sua comunidade. Quando acontece esse evento, e, ele não tem mais condição de trabalhar e fica nisso, tudo isso se desfaz. Com a perda do trabalho, vem a perda do status, do lugar na família, do lugar na casa como provedor, até isso desmorona com o desmoronamento do trabalho. Acho que ele como pessoa se descontruiu. Ele estava, de certa forma, ancorado nisso. Ele me trazia isso. Antes existia uma pessoa, existiam coisas. Ele fazia coisas e depois vem o nada (Psiquiatra do CAPS).

Embora durante o acompanhamento essa psiquiatra tenha ficado em dúvida50 quanto ao diagnóstico do usuário, na entrevista ela relatou ser um caso de estresse pós-traumático, com evolução para esquizofrenia paranoide:

Tirando os sintomas de humor, que melhoraram um pouco, preenchia todos os critérios (para esquizofrenia paranoide): delírio paranoide, alucinação auditiva, afeto embotado, (inaudível) persecutório... Ele teve um

49 No prontuário do usuário junto à ESF havia o registro de 11 atendimentos médicos entre 30/11/11 e maio de 2015, sendo que três desses

foram realizados pelo médico que substituiu a titular em seu período de licença maternidade. Conhecemos esse médico, que nos deu uma entrevista em junho de 2015, mas não se lembrou de E., que atendera quase um ano antes, entre agosto e novembro de 2014.

evento muito marcante, parecia estresse pós-traumático: a revivência do trauma, as vivências, mas, é abolido por outra sintomatologia. Tinha sintomas de humor importantes. Mas, na verdade ele não tentava suicídio porque estava deprimido. Ele tentava suicídio porque as vozes mandavam. Ficou mais claro esse componente (Psiquiatra do CAPS).

Questionada sobre a idade do usuário para o desenvolvimento de uma esquizofrenia, ela esclareceu que haveria dois picos para o início da doença: um no final da adolescência/início da vida adulta e outro na 4ª década de vida. Também considerou possível o quadro de estresse pós-traumático contribuir para o desenvolvimento de uma patologia maior. Ela relatou sua experiência em um país estrangeiro, em que vários cientistas estudavam a relação entre o estresse pós-traumático e o desenvolvimento de psicose em soldados, participantes de guerras, dada a frequência desse quadro no referido país:

A gente nunca sabe o quanto a gente está na corda bamba. A gente não sabe qual o nível estressor suficiente para que a gente conheça uma outra realidade de nós mesmos. A corda bamba dele estava lá. É possível, sim, do estresse pós-traumático desencadear uma psicose (Psiquiatra do CAPS).

Sobre as indicações terapêuticas, essa psiquiatra reconheceu, novamente, a importância do trabalho na vida de E. e a necessidade de envolvê-lo em alguma atividade. Ela acreditava que, dadas às dificuldades de um homem com mais de 50 anos, com histórico de internações psiquiátricas e afastado do trabalho havia quatro anos, seria complicado reinseri-lo no mercado formal cada vez mais seletivo. Nesse caso, talvez o melhor fosse que E. trabalhasse com atividades informais. Assim, essas atividades poderiam preencher em alguma medida a lacuna que E. sentia, para além da sua questão previdenciária. Para este fim, a psiquiatra ponderou que a terapia ocupacional seria mais apropriada do que a psicologia – “para reabilitá-lo para alguma coisa. Porque eu sentia que a vida dele era um vazio, sem a questão do trabalho”.

Os demais profissionais, quando questionados sobre o lugar do trabalho no processo de saúde e adoecimento desse usuário, trouxeram vários elementos, por vezes ambíguos, em que ressaltavam a positividade do trabalho, ao relatarem o quanto sua ociosidade o fazia sofrer, de acordo com a enfermeira da ESF e a psicóloga de apoio do NASF. No entanto, observamos algumas dificuldades nos profissionais para perceberem os impactos negativos que aquela atividade laboral poderia ter tido no usuário. Tanto a enfermeira da ESF, quanto a psicóloga de apoio do NASF relataram acreditar que o trabalho como vigilante poderia ter tido um efeito desencadeador ou exacerbador do adoecimento mental de E., sendo coadjuvante nesse

processo, principalmente, por este envolver sintomas psicóticos51. A enfermeira, que afirmou ter tido pouco contato com o usuário, considerou que ele falava muito de seu trabalho e pouco de si, como se percebesse uma dicotomia entre essas questões. Já a psicóloga que o atendeu duas vezes, relatou não ter tido tempo para construir uma análise do caso, tendo dúvidas se o assalto realmente tinha acontecido ou se era alguma criação do seu quadro patológico. Como na época estavam ocorrendo muitos assaltos a carros-fortes no Brasil, com ampla divulgação pela mídia, ela relatou que seria possível que E. se identificasse com essa situação e ficasse assustado, por ter o mesmo trabalho. Segundo essa psicóloga, talvez E. se sentisse muito cobrado, ou poderia ser algum estresse do trabalho ou, quem sabe, ele estivesse adoecido e as vivências no trabalho tivessem piorado seu quadro. Com isso, pareceu-nos que ela creditava o desenvolvimento do seu adoecimento mental a uma dinâmica psíquica autônoma das suas relações sociais.

A psicóloga do NASF que também atendeu E. por duas vezes, sendo uma delas em 2012, no que se referiu às questões de seu trabalho, lembrou-se, apenas, do sofrimento advindo da ociosidade, não se recordando do trabalho envolvido, nem de suas possíveis questões. No prontuário, havia uma anotação sintética de um atendimento, ressaltando que era um caso para atendimento sistemático, com o encaminhamento para psicologia de apoio do NASF.

A terceira psicóloga que apareceu nesse percurso, a do CAPS, atendeu E. quatro vezes. Em uma breve entrevista baseada em suas anotações no prontuário do usuário, ela relatou que o usuário apresentava queixas de sintomas, sem demanda para a psicologia. Ela não se referiu às questões relativas ao seu trabalho. Pareceu-lhe que as questões conjugais tinham um peso maior, tendo o usuário dificuldade de elaborar o impacto de seu adoecimento na relação com a esposa, que teria começado a trabalhar para complementar o salário do marido que diminuíra. Com este dado, indiretamente, a psicóloga indicou que o afastamento de E. do trabalho, com as repercussões salariais envolvidas nesse processo, afetava sua vida conjugal. Ainda chamou-nos a atenção que no registro do quarto e último atendimento psicológico nessa unidade havia uma anotação do desejo manifesto do usuário em “ter um bico, mas, não dá conta. Sentimento de menos valia por não estar trabalhando”, sem apontamentos de como esta questão foi ou seria trabalhada no acompanhamento.

51Ainda assim, conforme a Classificação de Schilling, proposta na publicação “Doenças relacionados ao Trabalho: Manual de Procedimentos

para Serviços de Saúde”, seria considerada uma doença relacionada ao trabalho – Grupo 3, isto é, o trabalho como provocador de um distúrbio latente ou agravador de doença já estabelecida (Brasil, 2001a).

Outro profissional que apareceu na trajetória de E. pelo SUS foi o psiquiatra do NASF, que o atendeu, possivelmente,52 quatro vezes, sendo o principal suporte especializado à equipe da ESF para a condução desse caso. No entanto, ele negou-se a participar desta pesquisa. As informações que coletamos sobre os atendimentos prestados advêm dos seus parcos registros no prontuário do usuário. Observamos que na primeira avaliação realizada por ele, em fevereiro de 2012, houve o levantamento sintético do histórico profissional de E. e o registro de algumas condições de trabalho, como a falta de ar no carro-forte, o risco das viagens e o clima de desconfiança e vigilância da empresa em relação aos funcionários. Esse psiquiatra chegou a pensar na possibilidade do usuário ter desenvolvido um quadro de estresse pós- traumático53. Mas preferiu firmar os diagnósticos de F33.3 e F43.054, conforme anteriormente relatado. Ao afirmar esta última CID, pareceu-nos reconhecer que houve um trauma, ao qual E. pudesse estar reagindo. No entanto, ainda que na avaliação inicial do usuário essas informações sobre algumas questões relacionadas ao seu trabalho tivessem sido registradas, não havia apontamentos de como elas foram ou seriam tratadas. Os relatos dos outros dois atendimentos resumiam-se a breves descrições de sintomas e medicamentos, permanecendo a CID F33.3.

In document fh_2007_04.pdf (1.528Mb) (sider 9-14)