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O marco de uma fazenda, em espaços amplos e abertos, irá dar conformidade aos contextos culturais e científicos da cidade. A Fazenda Monte Alegre, de propriedade do Cel. Francisco Schmidt (1850-1924), integrava uma de suas fazendas no complexo da Cia. Agrícola Francisco Schmidt. Antes da quebra da Bolsa de New York, em 1929, foi vendida para João Marchesi e, posteriormente, confiscada pelo governo. Desde então, o talento da terra teve continuidade no pequeno exercício da Escola Prática de Agricultura, até à sua desativação na década de 30. Mais de uma década após o fracasso da escola rural, toda a Fazenda Monte Alegre foi transformada em Campus Universitário.

Nos ares urbanos havia uma intensa transformação no ritmo de vida, causada pela produção cafeeira e mantida a partir do controle direto de seus produtores e do governo estatal, na especulação cambial interna e externa do país.

Mesmo que no âmbito da investigação seja necessário adotar o conceito de fontes documentais textuais e visuais, parte-se do problema da formação do acervo,

do mapa dessa produção documental do referencial adotado. Associa-se ao problema a documentação recolhida e a necessidade de síntese, da significação exaustiva da cultura cafeeira e, ao mesmo tempo, da dispersão da sua representação. Na origem ou na sua procedência documental, foram os órgãos governamentais que a produziram e nem sempre foram os mesmos que a recolheram. As iniciativas da descrição, classificação e catalogação da documentação partiam de funcionários, pesquisadores, memorialistas e personalidades relacionados à “cultura”, instituições educativas ou científicas, nestas mesmas cidades, nas capitais ou, até mesmo, em fazendas.

Para uma noção do contraste das ações culturais, embora em rede de atividades semelhantes, no momento em que a “elite culta” se orientava na metrópole de São Paulo para concretizar a 1° Bienal Internacional de Arte em 1952, o município de Ribeirão Preto, naquele mesmo ano, mobilizava-se para criar o seu Museu Histórico e Museu do Café. Esse último sustentou a proposta da sua inauguração para inserir-se nas comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo. Por mérito temático, por reivindicar e justificar a “importância” da região ribeirão-pretana para o desenvolvimento da economia do país, dezenas de recomendações foram feitas por parte de Santos para que a novidade compusesse as comemorações estaduais de seus 400 anos, o que não ocorreu30.

Na construção da sua própria imagem, a sociedade conservadora paulista tem seus antecedentes nos dispositivos principais do Integralismo (1932), dentro do qual, o nacionalismo irá orientar as ações públicas da educação, saúde e cultura por todo o país.

Entre os personagens que marcaram a vida pública nesse período,

30 Esse importante fato, baseado no trabalho de Santos, que busca organizar a memória do café em

um museu, poderá ser verificado nos inúmeros artigos jornalísticos, entrevistas e ofícios do Arquivo do Museu Histórico.

encontramos Gustavo Dodt Barroso31, um dos agentes do processo da busca de

uma identidade cultural brasileira. Especializou-se na temática do folclore do Nordeste brasileiro e exerceu grande influência no pensamento da preservação histórica nacional. Advogado, professor, político, jornalista, contista, folclorista, cronista, ensaísta e romancista, nasceu em Fortaleza, CE, em 29 de dezembro de 1888, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 3 de dezembro de 1959. Deputado federal de 1915 a 1918; diretor da revista Fon-Fon e das ações mais influentes na área cultural. Foi “inspetor escolar do Distrito Federal (1919 a 1922); fundador e diretor do Museu Histórico Nacional, a partir de 1922, por muitas gestões; secretário geral da Junta de Juriconsultos Americanos (1927); representou o Brasil em várias missões diplomáticas, entre as quais a Comissão Internacional de Monumentos Históricos (criada pela Liga das Nações) e a Exposição Comemorativa dos Centenários de Portugal (1940-1941). Participou do movimento integralista. Embora não concordasse com o rumo dos acontecimentos a partir de 1937, manteve-se fiel à doutrina filosófica do integralismo. Foi embaixador no Uruguai em 1947 e escreveu: Brasil, Colônia de Banqueiros (1934), denunciando a dependência da economia brasileira à Inglaterra, com o capital de Rothschid, financiadora de Barão de Mauá e da primeira estrada de ferro do Brasil (FAUSTO, 1999), e Introdução às Técnicas de Museus, o qual, de forma direta, irá influenciar os agenciamentos da cultura, principalmente, a organização museológica e estabelecer referência quanto à disciplina Museologia no país.

Retomando as características da sociedade em que figuraram tais personagens, além do conservadorismo, como “alma” da sociedade, também foi solicitado pelas forças no poder um domínio material e representante de suas

31 Informações sobre os dados biográficos de Gustavo Dodt Barroso. Disponível em:

<http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/biografias/gustavoba rroso.htm>. Acesso em: 28 mar. 2009.

tradições, isto é, capaz de exercer uma função capitalizadora da identidade e resistir à transformação nas bases econômicas e ideológicas da sociedade desigual.

A visibilidade das formas simbólicas dessa natureza de poder e dos registros para garantir a memória aproximada aos elementos tradicionais interpretados a partir dos conteúdos informacionais do nacionalismo cultural, foi descrita em listagens, livros, fichas (impressas ou virtuais). Na verdade, são convenções baseadas no sentido da linguagem adotada em seu tempo na perspectiva descendente de um modelo baseado nos princípios de Comte.

1.2.3 Traços biográficos da personagem de Santos, um