No âmbito disciplinar acadêmico compreendeu-se o documento a partir de antecedentes recentes. Em linhas gerais, tomando a visão evolucionista da ciência moderna, com os objetivos de mapear o conhecimento e universalizá-lo, a documentação foi entendida como processo de classificações do conhecimento universal: a Dewey Decimal Classification – CDD –, Dewey em 1876; a Classificação Decimal Universal – CDU –, Otlet e La Fonatine em 1905. Esse último foi trazido ao Brasil pelo Diretor da Biblioteca Nacional Cícero Peregrino da Silva, no início do século XX. (OTLET, 2007, p. 1).
Na modernidade, particularizaram-se os contextos facetados da classificação – Ranganhathan em 1933; trabalharam-se com a contenção quantitativa da informação e formulação de sistemas – Bush em 1945; formularam-se as leis bibliométricas – Bradford em 1948; separaram-se o documento da informação
considerando o seu suporte – Briet em 1951; e processaram-se grandes avanços a partir da prática de uma Ciência Social – Buckland em 1991; Pombo, Horjland e, em especial, Frohmann (ORTEGA; LARA, 2008). Estes autores da área da Ciência da Informação são citados aqui porque eles pensaram sobre as interatividades possíveis e referentes aos fatores subjetivos que deveriam ser levados em conta para compreender como os documentos tornam-se informativos.
O presente estudo, portanto, volta-se para o documento separado da informação, considerando o seu suporte e a contextualização cultural do documentalista Santos na sociedade ribeirão-pretana. Essa cidade que foi resultante da expansão econômica do café, onde a linha de força do poder foi produzida e representada na formação de um museu histórico, em uma prática museológica, a partir do estudo do colecionismo.
A elaboração desta tese voltou-se para o estudo da documentação do museu em questão – Museu Histórico e de Ordem geral Plínio Travassos dos Santos. Dessa forma, os arranjos documentais foram compreendidos mais como dispositivos complementares da ideologia vigente na sociedade do que propriamente aceitos a partir de uma ordem de um sistema de classificação científica.
Mesmo que pareça óbvia a hipótese da importância dos contextos sociais, culturais e históricos para o estudo do colecionismo e, movimentando o eixo da organização da documentação com a operação da memória, a ela pedem-se verificações que são possíveis a partir do estudo da cultura material “retida” (condensada) no espaço museal.
Faz sentido observar as propriedades dos objetos, materiais informacionais de uma cultura, inferindo-se, do ponto de vista do sujeito “disparador” desses dispositivos de poder materializados (coleções), da hipótese afirmativa da
“verdadeira história”, aplicada à “moderna ciência” em unidades significativas (arranjo) do acervo museológico.
Mas, as dificuldades em provar que esses “[...] lugares da memória [...]” (REDE, 2003), são condensações do que se perde e do que se conquista socialmente, está no limite das transições sociais. Principalmente no âmbito econômico de produção e nas profundezas dessas modificações é quando aparecem os vários motivos para que sejam mantidos os referenciais do passado, e entre eles, a documentação produzida no museu. Nela destacam-se a continuidade das consagrações do poder e está presente a ritualização dos valores instituídos pela grandiosidade histórica, o desejo pela imortalidade e a austeridade imposta, perceptíveis e recorrentes nos espaços museais que objetiva a preservação da memória.
Nos significados do conjunto de objetos adjetivados, sempre no sentido da “enormidade”, é recorrente aos pesquisadores partirem de acepções da quantidade (do “volume”), da comparação do que é grande com o que é pequeno, se em um acervo há qualidade ou quantidade, se a documentação é ínfima ou apreciável, se é da guarda definitiva ou não. Não é difícil encontrar nos museus históricos legendas certificando os objetos de autenticidades, raridades e adjetivados por “o único”, o “maior”, o “melhor” entre outros que conferem, aos tais objetos e aos seus provedores, singularidades.
Esses valores, destinados aos acervos, simples atributos da comparação, são linhas iniciais de um grande trajeto de análise. O que interessa aqui é focar nos padrões do documentalista, os quais oferecem parâmetros para compreender a coleção do Museu Histórico, e utilizar pegadas do caminho realizado por Santos, na medida dos critérios da honra, aos olhos de uma sociedade vigilante de seus costumes e ideologia.
Como fundador do museu, Santos considerou a Fazenda Monte Alegre o local ideal para instalação da imortalidade da “verdadeira história”, de natureza histórica local, do funcionamento do museu e continuidade. Entre tais, cita:
O Museu de Atibaia, de iniciativa do seu ex-prefeito Dr. Walter Engrácia de Oliveira, e Museu Histórico de Belo Horizonte, este com o significativo, patriótico aproveitamento de vetusta casa de “fazenda” do extinto “Cureal D’El Rey”, instituição marcante do Prefeito Dr. Juscelino Kubischek de Oliveira, hoje o eminente Presidente da República. (SANTOS, 1956)
As ações de Plínio não apresentam casualidades ou improviso, mas, assim como produzia relatórios de viagens, cartas-ofício, solicitações de verbas e agradecimentos, entre outras tipologias documentais, também revelou, no conteúdo informacional, princípios descritos no seu Plano para organização dos museus:
MUSEU DO CAFÉ “FRANCISCO SCHMIDT”
6. Museu do Café. Se bem que instalado em apropriado Pavilhão, em face dos elementos que já possui, ou, apesar disso, o Museu do Café Francisco Schmidt ainda não passa de simples germe de Museu. Dada sua natureza, poderá ser estático, mas, para isso, ainda muito reclama [...]. (SANTOS, 1958).
O fundador dos museus municipais, Santos, delineou os primeiros passos no sentido da museologia, organizando um planejamento para a organização do Museu Histórico e do Museu do Café, elaborado em 1958, embora já em funcionamento desde quando funcionava no endereço da Inspetoria Escolar, na Praça Santo Antonio. A reprodução de alguns destes itens do Plano para organização dos museus ilustra o período de constituição e função social dessas instituições curadoras da representação da história oficial brasileira e da sociedade do café.