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Introduction to energy saving

A dive into NarrowBand IoT

2.4 Introduction to energy saving

A mercantilização da agricultura foi caracterizada por Ploeg (1990, 1992). O mesmo autor dedicou esforços para explanar a ideia da “lógica de mercado” (PLOEG, 2008) como esfera primordial e organizadora da reprodução social, a qual governa, influencia e determina em grande medida a reprodução social e material dos agricultores familiares pela via do aumento da produtividade. Entretanto, a adoção de recursos tecnológicos por meio do crescente uso de fertilizantes químicos conjugados com a motomecanização não pode indefinidamente garantir o aumento dos rendimentos e da produção (MAZOYER; ROUDART, 2010). Dessa forma, a geração de excedentes introduz inexoravelmente a adoção da racionalidade gerencial conjugada com o aporte da intensificação tecnológica, como exigências do novo padrão produtivo, e cerne do desenvolvimento agrário e agrícola (BUAINAIN et al. 2013c; BUAINAIN et al. 2014c). As atividades agropecuárias, nesses moldes, é a luta direta entre o capital, o Estado e entre as famílias rurais quando pressionadas pela reprodução social (NIEDERLE, 2007).

Essa opção gera transformações nos modelos técnicos, culturais e na racionalidade decisória na medida em que é mediada pela educação, assistência técnica, produção e a disseminação contínua da inovação tecnológica. Entretanto, o moderno mercado agrícola exige processos organizativos mais elaborados, em virtude da pulverização dos agricultores, com poucos compradores e muitos ofertadores e, por vezes, de um mesmo produto em um mesmo período, características intrínsecas de um mercado assimétrico e imperfeito (ABRAMOVAY, 2004; ELLIS, 1998). Souza Filho (2014) acentua que dessa forma a:

[...] enorme assimetria de poder de mercado entre produtores rurais, ou suas organizações, e a maioria dos compradores, bem como entre processadores e varejistas. O crescente controle dos mercados por poucas grandes empresas processadoras, intermediários e varejistas tem o potencial de aumentar a competitividade e gerar ganhos para o conjunto dos agentes das cadeias, [...] Entretanto, a centralização das decisões e o aumento das assimetrias no interior de cadeias geram problemas distributivos, com implicações para as atuais políticas públicas e para o próprio desenvolvimento econômico [...]. (SOUZA FILHO, 2014, p. 335).

105 dos estabelecimentos rurais geridos pelos agricultores familiares e instituir possibilidades de barganhar de melhores preços; agregar valor ao produto, acessar mercados, inclusive internacionais e adotar novas tecnologias (CECHIN, 2014). A busca do desenvolvimento/crescimento, especialmente o econômico, coloca o Estado no papel indutor, por meio da instrumentalização de políticas públicas que agem buscando potencializar o sistema vigente. A criação do Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) em 1996 está em consonância com esse objetivo, pois o programa fora pensado para financiar os agricultores familiares consolidados e de maior renda (MAARA, 1996). E, resultados da pesquisa discutidos mais adiante atestam essa premissa.

Martins (2016) enfatiza que essa opção retirou da agricultura familiar as possibilidades de se constituir em uma agricultura alternativa, ao mesmo tempo em que perdeu a opção de se tornar uma referência de solução da questão social da massa de desenraizados do campo. Ao se constituir em uma imitação do modelo francês, o Pronaf, sem a adoção de outras políticas públicas estruturantes e complementares de desenvolvimento rural, os recursos oferecidos se concentraram, especialmente na oferta de crédito. O padrão de produção adotado pelo Pronaf seguiu a rota tradicional do “agronegócio”. Segundo Carneiro, (1997), as funções sociais no desenvolvimento econômico estão sustentadas “[...], nas noções de produtividade e na rentabilidade crescentes, o que resultaria, [...] em uma contribuição do setor para a competitividade da economia nacional e, em consequência, na melhoria da qualidade de vida da população rural” (CARNEIRO, 1997, p. 71, grifos da autora). O que foi conquistada por uma minoria de agricultores em melhores condições.

A opção política, ainda segundo a visão de Carneiro (2000, p. 133-134) será apoiar os agricultores familiares mais capitalizados visando fortalecer “[...] aqueles que apresentavam potencialidades de serem transformados em “empresas familiares viáveis”, através da incorporação de tecnologia e da racionalidade econômica voltada para atender as demandas do mercado”. Buainain et al. (2014a) pondera sobre inúmeras deficiências técnicas, produtivas e de mercados que induzem a exclusão de parte expressiva dos agricultores familiares, que diante do quadro de circunstâncias estão fora dos padrões produtivos mínimos exigidos para serem inseridas no mercado, na medida em que:

[...] o acirramento concorrencial em curso nas regiões de produção agrícola vai afastando as chances de inserção e permanência no mercado de parte desses produtores, que encontram crescentes dificuldades de comercialização de seus produtos e integração aos mercados. Sua arquitetura tecnológica deficiente, a produtividade baixa e a dificuldade de obter informações comerciais adequadas, tudo isso, somado a uma estrutura de custos que pode ser comparativamente mais alta (em relação aos mesmos produtos, mas oriundos de outros estabelecimentos mais

106 modernizados), acaba condenando, em movimento gradual e inescapável, as famílias rurais que não têm condições de aperfeiçoar produtivamente a sua atividade. (BUAINAIN et al. 2014, p. 204).

Esse quadro de realidade permite questionar se as possíveis alternativas de inclusão socioeconômica dos agricultores familiares só podem ser viabilizadas pela opção focada na produção agropecuária. O processo de expansão da agricultura brasileira nas décadas recentes tem demonstrado a seletividade social e a predominância dos agricultores familiares tecnologicamente modernizados e estruturalmente organizados. O aporte do conjunto articulado de tecnologia e outras estratégias tornaram isso possível. Entretanto, há uma parcela expressiva de agricultores que estão sendo nitidamente encurralados pelas circunstâncias sociais e econômicas (NAVARRO; CAMPOS, 2013).

O mercado que é apontado como alternativa de inclusão socioeconômica é o mesmo que promove a exclusão de milhares. Pois o sistema que produz os abastados, produz igualmente, os desafortunados. A tendência parece ser essa em que “Uma quantidade importante de seres humanos já não é mais necessária ao pequeno grupo que molda a economia e detém o poder” (FORRESTER, 1997, p. 27). Na medida em que os agricultores familiares operam sob a influência das trocas mercantis ocorrem mudanças na organização do trabalho e na relação entre seus membros. Eles são regidos pela intensificação do trabalho e pressionam o uso dos recursos produtivos e ambientais disponíveis, assim como a urgência em adotar a especialização técnica, a fim de gerar excedentes e renda monetária.

Visto pelo lado do debate acadêmico, há a urgente necessidade do reconhecimento da vinculação crescente dos agricultores familiares com as imposições do mercado como estratégia de sobrevivência e reprodução social. Essa demanda exige dos agricultores familiares novas habilidades e novas competências, visando ampliar as possibilidades de racionalização, para disputar um “lugar ao” sol entre os concorrentes. Bourdieu (1979) demonstra ser um processo condicionante e evolucionário, pois,

[...] a organização econômica tende a se impor como um sistema quase autônomo que espera e exige do indivíduo um certo tipo de prática e de disposições econômicas: adquirido e assimilado insensivelmente através da educação implícita e explícita, o espírito do cálculo e de precisão tende deste modo a aparecer como incontestável porque a “racionalização” é a atmosfera da qual se alimenta. (BOURDIEU, 1979, p. 15).

Neves (1997) menciona que as demandas do mercado exigem a incorporação de inovações tecnológicas e institucionais determinadas pela competitividade racional da

107 economia capitalista, e reafirma a obrigatoriedade da análise das formas de integração mercantil. A provocação da autora faz sentido, ao chamar a atenção para a dimensão da importância que a integração mercantil assume na vida dos agricultores, o que induz a refletir sobre a o papel das organizações sociais rurais, da academia e da pesquisa agropecuária, que necessitam buscar inovações institucionais visando interferir na prospecção e consolidação das cadeias produtivas e dos mercados agropecuários. Dessa forma, se torna pertinente enfatizar que são praticamente inexistentes no meio acadêmico brasileiro os estudos empíricos dedicados aos mercados agropecuários e às cadeias produtivas, mesmo sendo o Brasil um dos principais produtores agrícolas mundiais.

O ponto chave para gerar mudanças é a urgente inovação institucional. Entretanto, quando se menciona inovação, quase sempre se faz referência à inovação tecnológica. Contudo, a acepção tomada por Salles-Filho e Bin (2014, p. 441) é bem mais abrangente. Inclui as condições institucionais que possam auxiliar a captura de valor e renda dos produtos pelos agricultores, pois a “A inovação tecnológica na pequena produção sem inovações organizacionais, comerciais e institucionais tem efeitos muito pequenos, às vezes perversos”. Esse fator representa um enorme desafio para as organizações que representam os agricultores familiares, e devem com urgência pautar a inclusão dos arranjos organizativos, produtivos e comerciais dos agricultores nas distintas regiões.

Induzem dessa forma a ponderar quais as possibilidades de incluir nos processos produtivos e mercadológicos a agenda da relação entre a produção agrícola e os consumidores, ao incorporar os apelos exigidos pelo novo padrão de desenvolvimento agrário e agrícola. Entre eles, a segurança de alimentos saudáveis, a adoção de prudência ambiental que assegurem relações dos aspectos produtivos com as dimensões utópicas e necessárias da sustentabilidade. Essa temática será ampliada na seção seguinte.