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O pano de f undo que habit a qualquer r ef lexão de cunho cult ur al sobr e o Vale do J equit inhonha é a per gunt a: exist e uma “cult ur a do Vale”?

Como se ver á adiant e, embor a em poucos t r aços, o Vale é t ão var iado, ist o é, múlt iplo, que é dif ícil f alar dele. Par ece-se um pouco com o Br asil: como def ini-lo em poucas palavr as, abar cando t oda sua diver sidade? Diver sidade que, aliás, é o conceit o da moda, e pode não ser o mais adequado aqui, pois seu uso excessivo e indiscr iminado t em pr ovocado seu esvaziament o heur íst ico, f azendo com que per ca o vigor que o t or nar ia cent r al par a nosso t ema.

I númer os t r abalhos sobr e o Vale int r oduzem o leit or em seus meandr os, e nenhum deles t r az uma car act er ização sat isf at ór ia, uma ident idade unif icador a a essa const r ução que se nomeia como “Vale do J equit inhonha”. A compar ação com o Br asil é per t inent e: como descr evê-lo a um leigo? Ter íamos que r egr edir ainda mais a per gunt a, avaliando essa necessidade de expor uma ident idade, consist ent e, coer ent e, f act ível. De f at o, se não necessit amos do Vale enquant o obj et o de pesquisa – enquant o um obj et o, o obj et o -, por que nos ent r egar íamos à sempr e dif ícil, mas nest e caso, cer t ament e impossível, t ar ef a de of er ecer uma sínt ese, uma def inição?

É possível, em t odo caso, ar r olar car act er íst icas at r ibuídas ao Vale, e at é bast ant e f r ut íf er o, dada a r ecor r ência de algumas delas, na lit er at ur a escr it a, e t ambém na lit er at ur a or al. A quest ão é delicada, e as r espost as possíveis dependem muit o mais, a meu ver , de um posicionament o epist emológico53.

53 Em “Por uma Poét ica do Sincr et ismo Tr opical”, Per ez expõe seu desej o de olhar o Br asil de out r a f or ma. A visão que int er pr et a o Br asil na ar t iculação das dicot omias moder no/ t r adicional, cent r o/ per if er ia, desenvolvido/ subdesenvolvido,

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De qualquer modo, devo explicit ar minha posição, par a melhor apr eciação do leit or . Em vár ios moment os do meu per cur so em campo e da escr it ur a dest a disser t ação, me debat i com essa quest ão. Muit os pesquisador es, ar t ist as, poet as, apaixonados pelo Vale def endiam ar dor osament e a “cult ur a e o povo do J equit inhonha”. É uma f ala cor r ent e – embor a, às vezes, de bast idor - ent r e pesquisador es e pr of issionais com os quais t r abalhei, que “quem t r abalha com o Vale é movido pela paixão”. I sso me int r igava, ao mesmo t empo em que me r econhecia aí, exat ament e no cor ação, na paixão, na apar ent e ir r acionalidade de enf r ent ar longas dist âncias, viagens cansat ivas, est r adas per igosas, e encont r ar t ant a alegr ia em f azer par t e disso. Ant es de me apr of undar no Vale como pesquisador a - e como pr of issional, no exer cício do ser viço público -, o Vale par a mim er a um lugar de lembr anças doces da inf ância, de t ias, de pr imos, de r oças, de comidas, de cheir os: um Vale vivido, vívido. Sônia Mat t os f ala t ambém do Vale como espaço vivido, e acr escent a que “a delimit ação de uma r egião, def inida a par t ir de r ef erenciais pr imár ios de espaço e de t empo, só ganha signif icado enquant o mat er ialização de limit es per cebidos à luz de r elações sociais, que ar t iculam t ant o os element os que per t encem à cult ur a local quant o element os cult ur ais dif er ent es. Só a par t ir dessa ar t iculação e pela mediação

f acult ando a cur a das mazelas ao cr esciment o econômico, ser ia um r educionismo que supr ime e cega os olhos ao que a aut or a chama de poét ica do sincr et ismo. A int er pr et ação cai como uma luva par a o Vale do J equit inhonha. Diz que “com seu sist ema híbr ido de composição, f eit o de complement ar idades e de conf lit os, o Br asil é um pr oblema par a a lógica car t esiana”, pois “na nossa lógica social, o pr incípio em vigor não é do t ipo ou ... ou, ao cont r ár io, t r at a-se, t odo o t empo, de r eunir , de r e-ligar . É um pr incípio de t ipo e ... e. O pr incípio de or ganização social que pr evalece em nossa sociedade, queir amos ou não admit i-lo, é o da plast icidade e do moviment o. A mar ca das r elações sociais à br asileir a é o af et ivo, que, não impor t a qual sej a sua manif est ação, é levado a ext r emos: a sensualidade alt ament e desenvolvida, o exot ismo do gost o, o exager o dos gest os e das f alas, a r eligiosidade car nal, pr of ana, o apelo const ant e à int imidade e à cumplicidade, et c. Um or ganismo social de abundância, de sedução, o que, no ent ant o, não quer dizer igualdade e har monia idílicas. Uma sociedade t oda f eit a de cur vas, de vir avolt as em t odos os sent idos: j amais linear , j amais igual a si mesma” (Per ez, 2001). Disponível em <ht t p:/ / www.ant r opologia.com.br / colu/ colu6.ht ml> Acesso em 23/ 04/ 2010.

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de um j ogo de ident idades e oposições é que se t or na possível t r açar os limit es de uma r egião – que muit o mais que limit es mer ament e f ísicos exist em enquant o limit es sociais” (2001, p. 63).

Pesquisando as hi[e]st ór ias do Vale, peguei um livr o na bibliot eca: Lembr anças

da Ter r a, uma compilação de depoiment os de nat ivos do Vale. Abr i par a examiná-lo e

decidir se o levar ia; est r emeci ao ler : Mest r a Guindô, o mesmo nome da mãe do pai de minha mãe. Cor r i as páginas e iniciei a leit ur a; t r at ava-se dela mesma. Um t ext o escr it o, dif erent e dos out r os depoiment os do livr o, que f or am cont ados pelas pr ópr ias pessoas, pr ocur adas e f ot ogr af adas pelo or ganizador , Eduar do Ribeir o. O aut or pr incipia o livr o dizendo que “est e não é um livr o de casos: é um livr o de hist ór ias” (1996, p. 5). Com isso, pr ocur a dar valor e legit imidade às f alas dos ent r evist ados, que passam assim a const it uir document os e of er ecer r ef lexões que são consider adas equânimes em r elação ao conheciment o cient íf ico ou acadêmico.

Mest r a Guindô – minha bisavó - escr ever a em 1902, de acor do com suas palavr as, “par a evit ar que venham desapar ecer são est as anot ações escr it as nas páginas dest e livr o de cont as de um est abeleciment o comer cial. A loj a que t ivemos em Ar açuaí”, acr escent ando que “os dados aqui escr it os por mim f or am anot ados com muit o int er esse par a que sir vam no f ut ur o par a serem do conheciment o de t odos (ou quase t odos) os descendent es da f amília ‘da Tr indade’ ou Tr indade, que acr edit o ser única no t er r it ór io br asileir o” (apud. Ribeir o, 1996, p. 143, 144, 145)54.

Par eceu-me um encont r o mar cado: encont r ava, mais de 100 anos depois, t ais escr it os, que er am solenement e dir igidos a mim, descendent e. Apesar de não t er o sobr enome Tr indade, que Mest r a Guindô consider ava único no país, e apesar de não desconhecer a exist ência dessas anot ações, por mot ivos diver sos não havia t ido

54 A pr oveniência do sobr enome é muit o cur iosa: uma longa hi[e]st ór ia, que se inicia no século XV, nas cor t es it aliana e espanhola. I númer os per calços f azem alguns membr os da linhagem desembar car em na I lha de Tr inidad e Tobago (pr óxima à Venezuela), possessão espanhola, na época. Por t er sido “a pát r ia dos nossos ancest r ais”, adot ar am-lhe o nome.

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cont at o com o t ext o publicado. O Vale r et or nava a mim, a r egião como um espaço vivido pleno de signif icação. A emoção da hist ór ia cont ada por Guindô r epr esent a bem a par t e do livr o que ela abr e: “5. Avent ur as”. Ela cont a: “Er a meu avô um lavr ador aut ênt ico, dest emido e de gr ande capacidade de t r abalho. Meus avós e bisavô em I lhéus, ouvindo f alar nas f amosas t er r as do ‘Sequeir o Gr ande’, par a lá se dir igir am [...] com o pr opósit o de f azer em aber t ur as naquelas f amosas mat as” (apud Ribeir o, 1996, p. 154). Em seguida, nar r a em det alhes a lut a, a r ecuper ação e a mor t e de seu pai, em conf lit o com uma onça. Sua mãe, ent ão, seguiu par a o Calhau, que havia mudado de nome há pouco t empo, passando a chamar -se Ar açuaí. À Mest r a Guindô f oi per mit ido algo r ar o em sua época: após casar -se, seu mar ido assent iu que ela t er minasse o cur so nor mal, em Ar açuaí, e daí seguisse par a Diamant ina, t endo f or mado-se em f ilosof ia e música nest a cidade.

Per f azemos, assim, com Mest r a Guindô, o per cur so do Rio J equit inhonha, da f oz, no sul da Bahia, at é a nascent e, na r egião de Diamant ina, per cur so – do nor t e par a o sul e do lest e par a o oest e, ou do lit or al par a o int er ior – seguido por vast os segment os da população br asileir a. A maior par t e dos net os de Guindô per manecer am no Vale, mas alguns seguir am o moviment o mais cont empor âneo de buscar a met r ópole, dent r e eles, minha mãe. Acident alment e (?), encont r ei minha pr ópr ia hi[e]st ór ia nest a busca pela hist ór ia do Vale. Tal alpondr as e ser endipit ys, ou sej a, acaso, sur pr esa, encont r ei r ef er ências à minha pr ópr ia ancest r alidade55.

55 Tr at a-se da “descober t a daquilo que não se est á pr ocur ando”, e que apont a par a a ir r upção no t r abalho do ant r opólogo da impr evisibilidade, “acent uando a cent r alidade dos indícios sensor iais e das conexões est abelecidas ent r e element os apar ent ement e díspar es e dist ant es ent r e si, t udo isso demandando paciência, sensibilidade e t empo”; “t empo, at é, de desapr ender t eor ias e pensament os aut omat izados, inclusive os que vêm r evest idos de aut or idade”. Ser endipit y - “t r at a- se (ninguém é obrigado a saber ) de palavr a cunhada por Hor ace W alpole (1717-1797) a par t ir de um cont o de f adas per sa (os t r ês pr íncipes de ser endip) par a se r ef er ir à impor t ância do acaso, da sur pr esa e da descober t a daquilo que não se est á pr ocur ando” (Velho, 2006, p. 11).

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Par ece-me, por t ant o, que mais do que se f alar em uma cult ur a do Vale, o que por si só j á ser ia um br ut al r educionismo ant r opológico, o caminho é de apr eender um Vale de cult ur a.

2. Da ocupação

J á f izemos um r econheciment o mais ínt imo do nosso t ema e “obj et o” de pesquisa, baseado nas obser vações em campo. Com essas hi[e]st ór ias, imagens e sensações em ment e, passemos agor a a algumas consider ações sobr e Car aí e as r ef er ências à sua hi[e]st ór ia encont r adas na bibliogr af ia consult ada, t ent ando cont ext ualizá-la r egionalment e. Após est e br eve hist ór ico, volt o à descr ição das at uais conf igur ações sociais par a, em seguida, r et omar um dos eixos dest e t r abalho: a r ef lexão sobre as ações de int er venção.

Consider o f undament al int r oduzir o leit or na hi[e]st ór ia da ocupação do Vale, uma vez que t r at o, nest e t r abalho, de uma população aut óct one. Embor a os inúmer os t r abalhos escr it os t r agam t ais int r oduções, guar dam dif er enças ent r e si, por que cada aut or f az seu r ecor t e e pr ior iza o que consider a mais impor t ant e par a si: o que é silenciado, muit as vezes, pr evalece como mais signif icat ivo. Quer o of er ecer a opor t unidade ao leit or de avaliar meu pr ópr io silêncio.

Ant es do mais é pr eciso dizer de qual Vale f alamos: de acor do com Souza “o Vale t em r ecor t es var iados, cuj as f r ont eir as se sit uam nos diver sos limit es est abelecidos por agências gover nament ais e não-gover nament ais, públicas e pr ivadas, inst it ucionalizadas ou não. Não havendo uma delimit ação pr ecisa do seu t er r it ór io, o Vale é aquilo que r ecor t am os agent es que lá at uam” (2010, p. 13). Cabe, por t ant o, r egist r ar a incer t eza das vár ias inst âncias gover nament ais quant o aos limit es do t er r it ór io daquela r egião, o desconheciment o, ou, se pr ef erir mos, a desar t iculação das diver sas inst âncias, bem como a desar t iculação com a sociedade civil, em suas vár ias f or mas, inclusive pesquisador es e int elect uais que pensar am e est udar am a

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r egião. Só recent ement e, alguns esf or ços em coligir e or ganizar t odo o mat er ial pr oduzido t êm sido empr eendidos. Tal sit uação lembr a a associação f eit a por Regina Hor t a Duar t e, ent r e os conceit os de Deleuze espaço liso/ nomadismo e espaço

est r iado/ sedent ar ismo par a int er pr et ar a per cepção da sociedade oit ocent ist a da

r egião dos ser t ões do lest e: “a mat a, povoada por índios, cor t ada por um r io enigmát ico quant o a seu cur so exat o e sua navegabilidade, apr esent ava-se como um espaço liso, aber t o e indef inido” (2002, p. 19)56.

A ideia de um moviment o sem par t ida nem chegada, por sua vez, r elembr a as palavr as de Fr ei Chico, que, quando descr eve a met odologia ut ilizada na composição do j á mencionado Abecedár io da Religiosidade Popular diz que a f or ma de enciclopédia ou dicionár io, com ver bet es que r emet em a out r os, expr essa uma maneir a de pensar “do povo”, que ele nomeia como “pensament o r edondo”: sem par t ida nem chegada, sem conclusão possível.

Dent r e as possíveis conf igur ações geogr áf icas do Vale, t emos a divisão do I nst it ut o Br asileir o de Geogr af ia e Est at íst ica (I bge) em mesor r egiões e micr or r egiões, que t em a vant agem de dar uma ideia das divisões – ou indivisões, ist o é indet er minações – menor es, impor t ant e par a uma visualização do Vale como um t odo57. Em 1990, o inst it ut o publica nova divisão micr or r egional par a o Censo de 1991. Em 1992 e 1995, são cr iados vár ios novos municípios em t odo o Est ado, alt er ando a

56 Par a sit uar o pont o, segue um t r echo do t ext o de Deleuze cit ado por Duar t e: “Enf im, não é em absolut o o mesmo espaço: no caso do xadr ez, t r at a-se de dist r ibuir - se um espaço f echado, por t ant o, de ir de um pont o a out r o, ocupar o máximo de casas com um mínimo de peças. No go, t r at a-se de dist r ibuir -se num espaço aber t o, ocupar o espaço, pr eser var a possibilidade de sur gir em qualquer pont o: o moviment o j á não vai de um pont o a out r o, mas t or na-se per pét uo, sem alvo nem dest ino, sem par t ida nem chegada” (Deleuze, 1997, p. 9).

57 A Mesor r egião é def inida de acor do com a or ganização espacial que conf er e uma ident idade r egional, baseada em t r ês dimensões: “o pr ocesso social como det er minant e, o quadr o nat ur al como condicionant e, e a rede de comunicação e de lugar es”. A Micr or r egião é def inida com base na Mesor r egião, de acor do com a especif icidade da est r ut ur a de pr odução e da int er ação r egional (I BGE apud Souza, 2010, p. 17).

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composição dessas micr or r egiões geogr áf icas. São as seguint es (incluindo o Vale do Mucur i e Nor t e de Minas, par a algumas micr or r egiões)58:

MI CRORREGI ÃO DE SALI NAS

Águas Ver melhas I ndaiabir a Rubelit a Taiobeir as

Ber izal Mont ezuma Salinas Var gem G. do Rio

Par do Cur r al de Dent r o Ninheir a Sant a Cr uz de

Salinas

Divisa Alegre Novor izont e Sant o Ant ônio do Ret ir o

Fr ut a de Leit e Rio Par do de Minas São J oão do Par aíso

MI CRORREGI ÃO DE GRÃO MOGOL

Bot umir im Gr ão Mogol J osenópolis

Cr ist ália I t acambir a Padr e Car valho