Depois que sintonizar uma estação de rádio passou a ser corriqueiro nos automóveis, rádios à pilha e telefones celulares, as pessoas passaram a ouvir o gênero jornalístico nesses apare- lhos e interessa saber o que está acontecendo naquele instante em sua cidade. Ao saber de um acidente em determinada via, bloqueando o trânsito de uma região, o condutor de um veículo, naturalmente, pode refazer uma rota para desviar de eventual congestionamento. Esse jornalismo de serviço passou a ter mais interesse para os ouvintes e, em consequência, para as emissoras, que promoveram alterações nos horários de veicularem as pro- gramações jornalísticas, pensando no momento em que o ouvinte que deseja esse tipo de conteúdo compõe a audiência.
Os autores Paul Chantler e Sim Harris já atribuíam, no iní- cio da década de 1990, a preponderância do jornalismo dentro da programação radiofônica.
A força do jornalismo numa emissora de rádio local é o instrumento que dá a ela a sensação de ser ver- dadeiramente local. Estações de rádio locais que querem atingir grande audiência e ignoram o jorna- lismo correm riscos. Num mercado cada vez mais disputado, o jornalismo é uma das poucas coisas que distinguem as emissoras locais de todas as outras (CHANTLER; HARRIS, 1992, p. 21).
A possibilidade que existe atualmente de as pessoas cria- rem as suas próprias playlists, a partir de downloads pela internet e a facilidade de execução desse conteúdo dentro de aparelhos móveis como celulares, MP3 players e similares – o que já aconte- cia em menor intensidade na época dos walkmans – fez com que as pessoas passassem a ouvir rádio não apenas pela programação musical.
Na década de 1970/80, esses equipamentos ainda não dis- punham de capacidade de geração de notícias ou informações de serviço. Enquanto as músicas eram ouvidas pelos aparelhos lei- tores de mídias como LP’s, fitas cassete e CDs, se a programação jornalística não fosse instantânea e voltada para o serviço, perde- ria totalmente o interesse do receptor, que iria preferir saber das informações a partir da televisão, que trazia, além do conteúdo informacional e sonoro, o apoio das imagens para comprovação.
A pesquisadora Karoline Maria Fernandes da Costa e Silva, em uma reflexão sobre a prática da reportagem radiofônica, situa a realidade que apareceu no cenário do radiojornalismo frente aos avanços da televisão.
Com a chegada da TV, o rádio foi se recuperar anos depois, com a estruturação de novas emissoras, construídas com base no tripé jornalismo, esporte e entretenimento. Surge então a figura do repórter na rua, a acompanhar os fatos e reproduzir ao ouvinte o que acontece naquele exato momento; foi a estra- tégia usada pelas emissoras de rádio para recuperar o prestígio e competir com a televisão, que ocupou o lugar do rádio na sala das casas (SILVA, 2012, p. 5, grifo do autor).
O espaço dentro das salas das casas foi realmente tomado pela TV e os atributos da mobilidade e instantaneidade do rádio foram intensificados na busca pela audiência. Na década de 1980, o radiojornalismo chegou ao meio com mais força e os repórte- res passaram a fazer parte da rotina de produção radiofônica. A presença do conteúdo jornalístico precisava estar no local dos fatos, transmitindo, de imediato, o que acontecia. O repórter na rua deveria acabar com a prática do gilete-press2.
Rocha e Silva (2014), entretanto, demonstraram que o gilete-press ainda é praticado nas redações de emissoras de rádio em Natal-RN, especificamente de uma com formato all news3. A pesquisa deles demonstrou que, em duas horas de programação diária do radiojornal, a emissora veicula, por edição, a mesma quantidade de reportagens, notas e comentários. Os pesquisado- res demonstraram que nada foi veiculado de forma inédita.
Na pesquisa, eles mostram que a emissora local da rede CBN de rádios realizou a leitura integral de textos publicados em
2 O gilete-press é a técnica do recorte de pedaços de jornais impressos para leitura dos apresentadores de noticiários no rádio e na televisão, sem atri- buir o crédito aos autores do conteúdo. O papel era cortado com lâminas (giletes), de onde deriva o termo.
3 O formato all news é caracterizado por programação contínua de conteúdo jornalístico, como exemplo as rádios da rede CBN.
jornais impressos da cidade e coloca, dentro da sua programação, o áudio de reportagens produzidas para a emissora de televisão do mesmo grupo empresarial de comunicação ao qual a rádio está vinculada. Ao final da reportagem, os repórteres gravam a assina- tura4 para o programa da rádio CBN. Os comentários de jornalis- tas e especialistas também foram os mesmos veiculados na edição de programas de televisão do dia anterior.
A pesquisa de Rocha e Silva chama a atenção para um fenômeno presente nas emissoras de rádio de Natal-RN: há pouca ou nenhuma produção de conteúdo jornalístico. Uma pesquisa realizada a partir da ferramenta GoogleDocs5 demonstrou que 85% das pessoas que responderam a um questionário na Internet se interessam por ouvir conteúdo jornalístico nas rádios, sendo que 66% ouvem o noticiário das emissoras de rádio de Natal. Entre os que dizem ouvir o radiojornalismo local, 63% ouvem os radiojornais das rádios comerciais.
Dentro da programação das emissoras comerciais que ope- ram em FM na capital do Rio Grande do Norte, existem apenas cinco programas jornalísticos diários do formato radiojornal. O conteúdo desses jornais radiofônicos de Natal-RN é formado, principalmente, por notas, comentários e entrevistas, havendo pouco espaço para reportagens. Levantamento de observação demonstrou que, dos cinco programas, apenas um deles veicula reportagens produzidas (2 por dia) e dois deles têm a presença de comunicadores nas ruas informando sobre a situação do trânsito.
4 Item das reportagens radiofônicas em que o repórter diz seu nome e o pro- grama para o qual foi produzida a reportagem.
5 Disponível em: https://docs.google.com/forms/d/1CPjd-
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