2 Theoretical foundation and background
2.4 Deformation Modes
Dahiana dos Santos Araújo1
INTRODUÇÃO
E
screver para contar fatos reais sem deixar de lado as emo- ções, impressões e avaliações do narrador virou, há alguns anos, tarefa obrigatória para inúmeros jornalistas. Eles são res- ponsáveis por uma ferramenta dinâmica, de sociabilidade e que, embora mantenha o seu caráter público, sustenta toques de pessoalidade em um cenário que detém como papel preponde- rante noticiar fatos de interesse social: o blog jornalístico. Com o advento das tecnologias, o cotidiano de produção da notícia ganhou novas ferramentas, formatos e linguagens, alterando não apenas o processo de mediação na veiculação de informações, mas as interações sociais e a forma de consumir o que é publicado em novos ambientes possibilitados pelo acesso à Internet.No jornalismo online as tecnologias de comunicação desempenham funções fundamentais nos processos de produ- ção, disseminação e utilização da informação, tornando-se parte
1 Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com especializa- ção em Jornalismo Científico pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e graduada em Jornalismo pela Universidade de Fortaleza (Unifor). E-mail: [email protected]
integrante do conjunto da prática jornalística contemporânea. No entanto, vale salientar que essas tecnologias não desempenham na atualidade funções importantes somente na prática do jorna- lismo online, mas também nas outras formas de veiculação e pro- dução de informações. Nesse ambiente denominado ciberespaço (LEVY 1990), nasceu o blog, na década de 1990, incorporado tam- bém à prática de produção de notícia.
A partir de então, a escrita jornalística intensificou o uso de variadas formas de narrativas, entre informativas, opinativas e subjetivas, e os internautas passaram a se deparar com um novo espaço para expressarem-se, novas formas de interação e colabo- ração. Essa visível imersão de valores pessoais ocorreu durante a cobertura de diversos fatos no país, e fora dele, e esteve viva na cobertura da última campanha presidencial, seja pelo apelo emo- cional do luto, pelas questões ligadas à religião, assim como pelo ir e vir de acusações entre militantes e candidatos.
O cenário é herança da estruturação de subjetividades no ciberespaço, quando, alternando-se entre os valores individuais e públicos, muitas pessoas passaram a divulgar suas impressões, vaidades, lamentações, alegrias e potencialidades na rede mun- dial. Paula Sibilia (2008) ressalta neste contexto a distinção entre o espaço público e o privado. A partir dessa diferenciação, ini- ciada séculos atrás, as atividades dos membros da família são separadas e vivenciadas de acordo com o caráter agora delimi- tado: o público e o íntimo.
Certos usos dos blogs, fotologs, webcams e outras ferramentas como o Orkut e o YouTube seriam estra- tégias que os sujeitos contemporâneos colocam em ação para responder a essas novas demandas socio- culturais, balizando outras formas de ser e estar no mundo (SIBILIA, 2008, p. 23).
Então, a ascensão da prática vigorou também no meio jor- nalístico – levando em conta gêneros, linguagens e estilos, nota- damente – e ganhou os sites de empresas através de ferramentas como os blogs, nos quais está presente algo além das informa- ções oficiais e com ares de imparcialidade idealizados durante a construção da notícia. Ao escrever para um blog – que é multi- midiático por unir vários aspectos da escrita, vídeos ou imagens – é possível construir uma série de posts (cada texto publicado em um blog) com características e intenções diversificadas. Nos blogs, também chamados de diários virtuais, há um constante recorrer à memória, de vida, de pessoas ou acontecimentos de interesse social. É o que ocorre durante as eleições presidenciais, por exemplo, em que a ferramenta passa a atuar como “lugar de memória” ao funcionar como “marco testemunhal de uma era” (NORA, 1984).
Porém, não são apenas traços da subjetividade que o jorna- lista insere em seus posts. Ao contar fatos relacionados às eleições, o jornalista blogueiro também remonta a lembranças presencia- das em momentos distintos de sua vida pessoal, profissional, etc. Quando se lê algumas críticas e comparações nos blogs isso fica mais claro, já que, ao criticar detalhes ocorridos durante o pleito, o blogueiro, embora se refira a outras pessoas, absorve aconteci- mentos montando lembranças de acordo com o que vivenciou em diferentes épocas. Dessa forma, ele faz referências ao passado, contando, por exemplo, fatos históricos, sofrimento da população ou conquistas de outrora relacionadas a atores políticos. Portanto, na construção de suas narrativas, o blogueiro não abre mão da memória coletiva. “Aqueles que lembram, ao narrarem suas lem- branças, estão sempre trazendo à tona memórias que foram cons- truídas coletivamente” (SANTOS, 2003, p.70).
Maurice Halbwachs (1990) foi quem propôs a ideia de uma “memória coletiva”, a fim de ressaltar a construção de uma memória individual que seria sempre criada por meio de
recorrências a momentos vividos em determinados grupos. Para Halbwachs, cada vez que uma pessoa remonta um passado, lon- gínquo ou não, as impressões construídas ali estão impregnadas de experiências e vivências tidas dentro dos grupos que o sujeito fizera parte: família, escola, bairro, trabalho, partidos políticos. O jornalismo está inserida nessa forma de avaliar a memória, mas vai ainda mais além ao ser entendido como o lugar de memória, por atuar, de maneira concreta e também simbólica, no armaze- namento de conteúdo relacionado à construção social de povos, levando em conta as heranças, valores, tradições e outros aspec- tos relacionados à identidade de um local, um objeto, uma nação, etc.
Quando a Internet passa a fazer parte do dia a dia das redações, alteram-se algumas ferramentas, modos de produção de notícia, no entanto permanecem outros aspectos, como o papel da memória e da subjetividade nesse cenário, que entre as ferramen- tas, conta com o blog jornalístico. Os temas presentes nos blogs são variados, percorrem economia, política, cultura e lazer, ciên- cia e etc. Um exemplo disso são as eleições presidências, aborda- das neste artigo a partir da cobertura feita por blogs, levando em conta as perspectivas subjetivas herdadas dos diários íntimos que ganharam o espaço público nos últimos anos. Por ser uma época de inquietação social – embora parte da sociedade diga-se desa- creditada dos governantes – o pleito ganha espaço nas conversas informais, no comércio e como é foco diário da mídia também cria práticas sociais ao permear os blogs jornalísticos.
Este trabalho, ancorado nos conceitos cunhados pelos autores acima citados, apresenta uma análise de conteúdo da cobertura da campanha presidencial de 2014 – que contou, além da presidente reeleita Dilma Rousseff (PT), com os postulantes Aécio Neves (PSDB); Marina Silva (PSB), que substituiu o então candidato Eduardo Campos (PSB), morto durante a campanha; Luciana Genro (Psol); Everaldo Pereira (PSC); Eduardo Jorge (PV)
e Levy Fidelix (PRTB) – , que apresentou perspectivas imersas no constante recorrer à memória, explicitando em muitos momentos a construção da subjetividade do jornalista em meio aos textos postados.
Serão analisados dois blogs: O Radar Político, hospedado no site do O Estado de São Paulo, com textos de diferentes jorna- listas sobre política. Também é avaliado nesta pesquisa o blog do jornalista Reinaldo Azevedo, da Revista Veja. Embora com estru- turas e linguagens diferenciadas, os dois são formados por textos imersos de aspectos subjetivos de quem os escreve e das fontes que aparecem no texto.