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A primeira consequência de valorizar esse aspecto do olhar nas análises de Foucault é perceber como ela desdobra-se em uma crítica da evidência, ou como Foucault nos diz, em uma “rupture d’évidence.” (FOUCAULT, 1980, p.44) Tópico comum a toda uma geração de pensadores42 franceses na década de 60 e 70, trata-se de realizar uma

crítica a esse valor cognitivo que goza, ao menos desde Descartes, o caráter de ser

41 Sigo aqui, sobretudo, John Rajchman (1988)

42Ver por exemplo a aberta polêmica de Derrida contra tal categoria em a Gramatologia, ou ainda em seu

estudo do texto de Husserl sobre a Origem da geometria. Deleuze também irá realizar uma crítica da evidência em Diferença e Repetição, porém a partir de outras premissas em relação a Derrida.

inquestionável. A evidência é, antes de tudo, aquilo que é pura presença, ela é evidente em-si e por-si mesma. É a metáfora do olho da mente que está em jogo na intuição: órgão vidente capaz de representar o “indubitável”, por exemplo, o cogito. Foucault reconhecia, como já vimos, plenamente tal traço marcante do pensamento ocidental e seu profundo enraizamento na filosofia quando praticada como metafísica. Na filosofia moderna, ele nos lembra, o olhar estava fundado nessa “luz, anterior a todo olhar, (...) elemento da idealidade, indeterminável lugar de origem em que as coisas eram adequadas à sua essência e a forma segundo a qual estas e elas se reuniam por meio da geometria dos corpos.” (FOUCAULT, 2011, p.XII) Luz da razão que o olho de certa forma expressa e reproduz. Surgia para Foucault um mito filosófico em que o espaço da experiência identificava-se plenamente com o olhar mais atento: “dessa vigilância empírica aberta apenas à evidência dos conteúdos visíveis.” (FOUCAULT, 2011, p.XII) O olhar tornara- se, então, o depositário de uma fonte de clareza indubitável, ele tem o “poder de trazer à luz uma verdade que ele só recebe à medida que lhe deu à luz; abrindo-se abre a verdade de uma primeira abertura.” (FOUCAULT, 2011, p.XII) É exatamente esta certeza acrítica depositada na evidência que deve ser problematizada. Pois, nela, será que encontramos realmente uma presença pura e indubitável, ou estaríamos frente a um senso comum tornado filosófico?

Como vimos, a arqueologia coloca em suspeita tal supremacia e pureza do olhar desde seu primeiro livro. Isso porque, a partir de uma leitura atenta do livro de 61, compreendemos que a sobreposição moderna entre loucura e patologia mental é uma evidência apenas para nós. Pois, o que faz dessa percepção algo tão evidente, se não uma conjunção prévia entre organização do nosso campo visual e um discurso que o atravessa? A representação da experiência da loucura é feita através de práticas discursivas e não discursivas que organizam, disciplinam, disponibilizam, separam e qualificam os corpos, os comportamentos, a matéria bruta, aquilo que há de mais material, de mais vivo. É o hospital moderno e o discurso psiquiátrico que produzem o caráter de evidência sobre a natureza do comportamento de um sujeito louco e não o contrário. Psiquiatria como dispositivo, como uma complexa teia em que os corpos são apresentados por práticas institucionais, através de uma organização espacial que passa pela arquitetura, pelas roupas, pelos espaços permitidos e não permitidos, pelo controle do horário, pela organização de uma vida pensada em termos de regra e conduta. Espaço de circulação de enunciados, de um saber médico que se inscreve, implanta-se, marca um corpo como um acontecimento incorpóreo, qualificando aquele indivíduo como doente, outros como são.

Complexa teia entre o ver e falar capaz de produzir objetos e sujeitos ligados a jogos de verdade e estratégias administrativas de poder.

Para que alguém possa ser identificado como “alienado”, “louco”, etc, é preciso não apenas um discurso capaz de objetivar tais condutas, mas também uma percepção compartilhada de tais comportamentos (RAJCHMAN, 1988). Não há loucura fora do território circunscrito de uma cultura, de um tempo histórico, de uma sociedade. Tal como na linguagem, há um campo anterior que determina a certeza da proposição eu vejo: um olha-se que a antecede e a constitui. Um olhar que não desvela na sua abertura uma luz originária, antes, vê através das palavras tomando ilusoriamente o discurso como experiência evidente.

Não se trata, porém, de negar que haja evidência e objetividade em qualquer conhecimento, mas sim de limitar a perenidade última em determinadas áreas específicas do saber, fazendo-as surgir fragmentadas pela história. Novamente a diferença é um índice fundamental da empreitada foucaultiana. Pois, muito da astúcia de suas análises consiste em como Foucault pode fazer a diferença surgir exatamente ali onde estávamos seguros agarrados ao dorso do mesmo, destruindo evidências antes não colocadas em questão. Há imperativos morais, políticos e culturais tornados evidentes através de um regime escópico, seja ele o hospital, a prisão, ou a escola. Por isso, explica Foucault, mesmo quando confrontados com a inumanidade dos hospitais psiquiátricos, ou com a barbárie das prisões, nós somos incapazes de “ver” como substituir tais modelos. Isso, precisamente, porque nós vemos através de tais modelos, de trais práticas de objetivação da realidade que naturalizam um olhar, organizando todo um campo prévio de “evidências” - de verdades - que surgem como indubitáveis a um sujeito já disciplinado. Logo, para Foucault, “a evidência está relacionada com a aceitabilidade de uma prática.” (RAJCHMAN, 1988 p.94) Ela faz parte de um dispositivo que torna possível um saber e tolerável seu exercício de poder. Por isso, romper com a evidência é uma condição para a crítica: gesto capaz de, ao fazer a diferença eclodir no terreno da história, desfazer o caráter de “evidência” de algumas pressuposições e preconceitos que colonizam o pensamento e a percepção, permitindo ver e pensar de outra forma questões estruturadas pela violência muda da convenção. Uma arqueologia do olhar exige outro tipo de “vidência”: ver aquilo pelo que se vê, o invisível através do qual o visível aparece, o intolerável por detrás de uma suposta evidência. Vale para a arqueologia o mesmo que um dia, em outro contexto, Foucault dizia sobre Blanchot: “não fazer ver o invisível, mas

fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” (FOUCAULT, 2001a, p.552)

Um regime de visibilidade, portanto, impõe regularidades, áreas de luminosidade e sombra, cria perspectivas e relações que determinam de antemão aquilo que vemos em contraste com o enunciado, com o que pode ser dito. A visibilidade é “uma matéria positiva, um corpo anônimo de práticas, cuja existência nos mostra o quão não livres nós somos em relação ao que vemos, pois não somos capazes de enxergar estes limites no que vemos.” (RAJCHMAN, 1988, p.93) Rachar as palavras e as coisas para extrair seus locais de ordenação, não apenas discursivo, mas também no que elas têm de não- discursivo. A arqueologia do saber é, ao mesmo tempo, uma arqueologia dos enunciados e do olhar.