Os objetivos buscados no ensino coletivo do violino no PVM podem ser observados sob dois aspectos, os quais, desde sua criação, estão claramente determinados. Quando procurada pelo presidente da Fundação Vale, a presidente da FAM recebeu a proposta de se desenvolver um projeto social através da música, tendo como finalidade a criação de uma orquestra, onde a Vale lhe propunha o seguinte: “[...] queremos que você faça uma orquestra com crianças de periferia, da rede pública municipal de ensino, [...] queremos da rede pública municipal e crianças que não saibam nada de música” (CAPUTO, 2010).
A proposta inicial da Fundação Vale foi significativamente ampliada após o primeiro contato com a presidente da FAM. A princípio a Vale queria um projeto com 100 crianças estudando música para formar uma orquestra, mas abraçou a idéia de ampliação quando teve sua primeira conversa com Glória Caputo. Segundo a mesma, o encontro se desenrolou da seguinte forma:
[...] o presidente da Fundação Vale [...] me autorizava cem crianças no projeto. Aí eu disse pra ele “olha, eu tenho que lhe falar a verdade, de cem crianças se nós conseguirmos tirar um quarteto de cordas vai ser um achado, porque cem crianças é muito pouco se quisermos ter uma orquestra de qualidade; os sopros não têm problema, se você me pede uma banda, com cem crianças pra fazer uma triagem eu faço uma banda, mas uma orquestra com violinos, violas e violoncelos, eu lhe confesso
que não dá pra fazer”. Eu disse isso pra ele, e disse também, pra eu preparar as cordas eu precisava pelo menos de quatro a cinco anos pra gente pensar numa orquestra infanto-juvenil, e eu achava que uma empresa como a Vale, que precisa de visibilidade, não poderia esperar quatro anos sem nada, então o que eu sugeriria pra gente fazer seria um projeto como eu tinha pensado fazer num outro lugar anterior a ele, que seria uma experiência, um projeto experimental, tendo em vista tantos que eu já havia experimentado ao longo da minha vida. Eu propus que tivéssemos mais alunos para podermos fazer uma peneira maior. Nós temos dois caminhos para essa peneira. O que eu vou dizer pra você é muito interessante. Porque na verdade nós só temos pouco mais de 200 alunos nos instrumentos, sendo uns 40 só nas cordas. Agora desses duzentos, nós tiramos já uns setenta e cinco para a orquestra. Isso é incrível. De duzentos tirarmos setenta e cinco. O que contribuiu pra isso foi a rotatividade (CAPUTO, 2010).
A presidente da FAM sempre deixou claro que o objetivo principal do projeto era a formação de uma orquestra infanto-juvenil, como resultado de uma proposta de inclusão social pela profissionalização e, para que isto acontecesse, estabeleceu alguns critérios que visam o melhor aproveitamento do tempo e do investimento. Com isso, os alunos cumprem uma carga horária bastante extensa, visando alcançar este objetivo. Segundo alguns professores, quando foram chamados já foram informados do objetivo a ser alcançado.
Eu conheço a professora Glória há muitos anos, mais ou menos uns vinte anos, pois eu trabalhei em um projeto de interiorização da Fundação Carlos Gomes em Santarém, quando ela levou o projeto de interiorização pra lá, foi quando eu a conheci e comecei a trabalhar nesse projeto. Quando ela foi começar o projeto Vale Música aqui em Belém, ela me ligou, naquela época eu trabalhava na Universidade Lutherana de Santarém, perguntando se eu poderia vir trabalhar com ela, considerando que ela já conhecia o meu trabalho. Contudo, eu não pude vir logo que o projeto iniciou, em abril de 2004, pois eu estava no meio de um semestre na universidade, então eu teria que esperar terminar o semestre pra poder vir, e foi o que eu fiz, e em julho de 2004 eu me mudei pra cá (Belém) e iniciei meu trabalho no projeto em agosto, a convite da professora Glória Caputo. O objetivo da minha vinda era desenvolver um trabalho de iniciação musical, de musicalização infantil, para que as crianças, após serem iniciadas na teoria e no solfejo, pudessem ser canalizadas para um instrumento de orquestra. Essa iniciação musical era feita através do coral e da flauta doce. (Professora de coro e flauta doce do PVM, formada no curso de Bacharel em Música Sacra com Habilitação em canto, flauta doce, piano e violão).
No Projeto Vale Música eu ingressei ainda cursando o último ano da universidade. Fui convidado no início do projeto, sendo um dos professores fundadores do mesmo. A professora Glória, quando chegou até mim, disse que iria começar um projeto que tinha uma idéia nova para trabalhar música com crianças, uma maneira diferente do que a gente tinha até então na cidade. Foi assim que eu ingressei no Projeto Vale Música. (Professor de violino do PVM, Bacharel em Música co Habilitação em violino).
Eu ingressei no projeto em 2007 e eu estava cursando o bacharelado na UEPA em convênio com a Fundação Carlos Gomes, foi nessa época que eu conheci a professora Glória. Ela me disse que estava procurando uma pessoa para poder contribuir com o projeto dela que estava recém-formado, já tinha algum tempo, mas que no momento estava precisando de mais professores de violino, [...] era justamente em função dessa necessidade de contribuir com o trabalho que já vinha sendo feito [...] o projeto tinha começado, se eu não me engano, com dois professores, o professor Paulo Keuffer e o professor Marcus Guedes, no primeiro mês e logo depois o professor Pádua entrou. Depois, como foi definindo o caráter social do projeto que é qualificar crianças para ingressar no mercado profissional de música [...] dar uma cultura diferente a essas crianças e assim influenciar outras crianças que moram com elas e a sua família, então esse caráter exigia uma qualificação melhor de professores e uma equipe mais concentrada e profissional, para poder desenvolver esse trabalho aqui no projeto, então acho que no período que eu trabalhei aqui eu percebi que o trabalho realmente funcionava porque os professores tinham uma história parecida em termos de formação musical, mas todos eles trabalhavam em conjunto também, apesar de os alunos terem aulas individuais de reforço, o estudo também era coletivo, então isso eu acho importante. (Professor de violino formado no curso de Bacharel em Música com Habilitação em violino).
É importante observar que alguns dos professores/colaboradores do PVM ao nele ingressarem ainda eram estudantes universitários, não obstante a experiência musical. Este aspecto é fundamental para entender a perspectiva metodológica do PVM, porque, revela a ênfase à experiência musical face ao domínio técnico e maturidade artística. A escolha de uma maioria de bacharéis ou de futuros bacharéis é um indicador disto. O professor que se adequa ao PVM é o profissional que se revela um bom músico e que consegue reproduzir essa qualidade em seus alunos. Acrescente-se que historicamente (e isto desde a Idade Média) o músico é o prático (kantor), que se diferencia do teórico da música (musicus) (Beyer, 1993). Em termos de objetivos e metodologia, que pretende a aplicação prática da teoria, o músico prático corresponde ao perfil que interessa ao PVM, no intuito de formar futuros músicos profissionais.