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Dando início a análise da terceira coleção, encontrei atividades que utilizaram as categorias de análise descritas anteriormente, referência e alusão, presentes em questões de compreensão leitora, para a exploração da leitura. Outra questão importante acerca desta

coleção, é que a Unidade 3 do primeiro livro é composta por um capítulo (Literatura e interação), que visa ao trabalho com a construção do sentido do texto.

Essa unidade aborda, inclusive, o conceito de intertextualidade e interdiscursividade, que, conforme os autores, diz respeito ao “emaranhado de textos que, de forma explícita ou implícita, dialogam na produção e na leitura de outros textos” (BARRETO (Org.), p. 78, 2016). Ou seja, para fazer as suas interpretações e deduções, o leitor mobiliza as suas experiências pessoais com a possibilidade de relacionar essas informações a outras experiências de leitura.

O quadro a seguir expõe as atividades que articularam essas categorias.

Quadro 9– Coleção 3 (Referência e alusão)

Português: ser protagonista

TOTAL Categorias de

análise

5Atividades

1ª ano 2ª ano 3ª ano

Referência 1 0 1 2

Alusão 2 1 1 4

Fonte: Própria autora (2017).

Conforme podemos observar no quadro acima, foram encontradasseis atividades relativas à temática de minha investigação (a intertextualidade nas atividades das seções de leitura), cujas atividades estão expostas no volume um (em maior quantidade), no volume dois e, em menor quantidade, no volume três da coleção Português: ser protagonista, característica em comum com as outras coleções analisadas anteriormente.Vale ressaltar que em uma das seis atividades analisadas, encontramos a referência e a alusão, simultaneamente. O exemplo a seguir é uma atividade retirada do volume um da coleção Português: ser protagonista. Essa coleção foi catalogada em nosso corpus como coleção3, a atividade a que nos referimos é indicada para alunos do primeiro ano do Ensino Médio.

Figura 30- COLEÇÃO3 _A23

Fonte: Coleção 3: Português:ser protagonista.

Essa atividade é relacionada ao conto Se nada mais der certo, leia Clarice, do escritor angolano José Eduardo Agualusa. O texto, no contexto do conto, significa que o contato com a literatura (especialmente a clariciana), é que possibilita aos indivíduos ultrapassarem o sentido da vida e do pensamento comum. Podemos verificar, ao longo do conto, várias referências, como a escritora Clarice Lispector e o heterônimo do poeta português Fernando Pessoa,Alberto Caeiro, e os textos de Ernest Hemingway e Herman Melville. O universo da literatura é ressaltado não somente pela referência a esses ilustres escritores, mas também é reforçado pela menção ao título de duas obras de Clarice Lispector: A maçã no escuro e A hora da estrela, dois de seus mais importantes romances.

O procedimento intertextual predominante que se observa no conto do escritor angolano Agualusa é a referência, conforme foi dito, pois esse recurso intertextual “não expõe o texto citado, mas a este remete por um título, um nome de autor, de personagem ou a exposição de uma situação específica” (SAMOYAULT, 2008, p. 50).

As quatro questões propostas na atividade visam ao trabalho com o texto, de forma a explorar desde o significado do título do conto, como a questão 1, até questões ligadas às referências feitas aos escritores, possibilitando que o leitor mobilize suas experiências pessoais para relacionar o que lê a outras experiências de leitura. Quanto maior for a experiência de leitura, maior a possibilidade de o leitor perceber o diálogo que acontece entre os textos e os autores.Dessa forma, fica claro o quão é importante o trabalho com a intertextualidade nos livros didáticos, tendo como foco principal o autor, o leitor e o texto, numa perspectiva interacional e dialógica da língua.

A próxima atividade foi retirada do segundo livro da coleção Português:ser protagonista, destinado aos alunos do 2° ano.

Figura 31- COLEÇÃO3 _B26

Fonte: Coleção 3: Português: ser protagonista.

Nesta atividade, as questões exploram conteúdos acerca da tirinha do Calvin, escrita por Bill Watterson. Na tirinha, identifiquei o recurso intertextual implícito por copresença, denominado alusão, como podemos ver no terceiro quadrinho, quando o Calvin pergunta a sua mãe: “você não está me engordando só para me comer, né?”, fazendo uma alusão ao conto de fadas de tradição oral, que foi coletado pelos irmãos Grimm (1812), “João e Maria”, conhecido mundialmente. Segundo Corrêa e Cunha (2006), atividades com textos que tenham relações com assuntos que fazem parte da vivência dos alunos são importantes para o desenvolvimento da habilidade de leitura e de compreensão de textos.

Como é possível ver nos itens, a relação intertextual não é questionada, mas sim utilizada como pretexto para ensino da gramática, como no item d (Na terceira fala de Calvin, aparece a locução “está me engordando”. Que aspecto verbal ela exprime?). Os demais itens

da questão também não trabalham com a identificação dos recursos intertextuais. Dessa maneira, percebe-se que a intertextualidade não é trabalhada e aproveitada de forma produtiva nesta atividade, o que poderia orientar os alunos para a importância do fenômeno para a compreensão da leitura, a partir de um diálogo entre produções de épocas e espaços diferentes.

Conforme salientam os PCN (1998, p.41):

A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto, a partir dos seus objetivos, do seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo que sabe sobre a língua: características do gênero, do portador, do sistema de escrita, etc. [...] Um leitor competente é alguém que, por iniciativa própria, é capaz de selecionar, dentre os trechos que circulam socialmente, aqueles que podem atender a uma necessidade sua. [...] Formar um leitor competente supõe formar alguém que compreenda o que lê; que possa aprender a ler também o que não está escrito, identificando elementos implícitos; que estabeleça relações entre o texto que lê e outros textos já lidos; que saiba que vários sentidos podem ser atribuídos a um texto; que consiga justificar e validar a sua leitura a partir da localização de elementos discursivos.

É importante frisar que a presença dos intertextos favorece o verdadeiro sentido do texto que é compreendido por nós, leitores, que estabelecemos um diálogo com outros textos. Em vista disso, o professor precisa estimular os alunos a perceber essas múltiplas oportunidades de interpretação, ou seja, precisa trabalhar com o fenômeno da intertextualidade nas atividades de compreensão leitora em sala de aula a partir do uso do livro didático como principal suporte para as leituras e atividades.

Passo, então a última atividade retirada do terceiro livro da coleção Português: ser protagonista, destinado aos alunos do 3° ano.

Nessa atividade temos um poema do escritor Paulo Leminski, intitulado Profissão de febre (Figura 32). No item (a) da atividade temos que “O título desse texto faz uma alusão ao poema Profissão de fé, de Olavo Bilac, em que o eu lírico enaltece a forma e a métrica, além de revelar o seu esforço constante e sua disciplina para alcançara perfeição na poesia”. No poema de Leminski Filho o eu lírico fala de uma “profissão de febre”, isto é, ele não segue dogmas rígidos, mas o ritmo agitado, determinado pela natureza. A palavra “febre” indica temperatura elevada do corpo e serve para expressar agitação, anseio exacerbado.

Figura 32- COLEÇÃO3 _C28

Fonte: Coleção 3: Português: ser protagonista.

Os itens (a), (b) e (c), da questão 4, fazem questionamentos que incentivam o trabalho com as relações intertextuais presentes no texto, como podemos ver, por exemplo, nos itens(a) e (c) (“Que relação o eu lírico estabelece com os elementos da natureza? Explique.” e “O título desse texto faz alusão ao poema Profissão de fé, de Olavo Bilac, em que o eu lírico enaltece a forma e a métrica, além e revelar seu esforço constante e sua disciplina para alcançar a perfeição na poesia. O eu lírico do poema de Paulo Leminski parece compartilhar desse credo? Justifique.”, respectivamente), que possibilita o trabalho com a alusão a partir da relação do poema “Profissão de fé”, de Olavo Bilac, com o poema “Profissão de febre”, de Paulo Leminski Filho.

A alusão, para processada, necessita de um apelo à memória do interlocutor, uma vez que se caracteriza por fornecer pistas ao interlocutor para que ele as associe a entidades não explicitadas no texto. Portanto, é imprescindível o trabalho com as possibilidades de relações explícitas e implícitas que podem ocorrer entre os textos, caracterizando o fenômeno da intertextualidade.

Dadas às considerações, afirmo que a terceira coleção analisada estimula o trabalho com a intertextualidade em suas atividades retiradas das seções de leitura, principalmente nos

livros destinados ao 1° e ao 2° ano do Ensino Médio, da mesma forma que as duas coleções analisadas anteriormente.

Feita essas considerações acerca da análise da presença da referência e da alusão nas atividades das seções de leitura, darei continuidade a análise, com foco, agora, na presença da citação, nas atividades selecionadas.

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