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Intrapreneurial context

Para avaliação de sua participação no grupo, os familiares foram solicitados a falar um pouco sobre como tinha sido freqüentar o(s) encontro(s), bem como dar sua opinião sobre o uso do GRAF como estratégia para o cuidado de enfermagem e sua importância para os familiares.

Percepção sobre a participação no GRAF

Os familiares foram unânimes em afirmar os benefícios alcançados pela sua participação no(s) encontro(s) do GRAF. Em seus testemunhos, transparece a percepção do grupo como uma oportunidade para apoio mútuo e compartilhamento de experiências entre pessoas que estão vivendo situações semelhantes, relatada por Loomis (1979). Além de se referirem ao grupo como significativa fonte de apoio e suporte, seus depoimentos também expressam o valor das informações recebidas nos encontros, confirmando que o objetivo principal do GRAF, de contribuir para a satisfação das necessidades dos

familiares de pacientes internados em UTI, foi atingido. Todos esses aspectos parecem ter favorecido a sensação de acolhimento manifestada por muitos:

“Eu gostei demais (...) porque a gente fica tão desesperado,

perdido, né? (...) achei bom... a gente achar alguém pra conversar, falar as coisa. (...) parece que a gente ficava (...), a vontade pra falar da gente... chorar, quando tinha vontade... tudo! (...) A gente fica muito (...) apertado (...) o coração da gente... As vez a gente não quer ficar falando os problema na casa da gente, né? (...) Quando acabava a reunião, parece que a gente tava (...) mais leve, né? (...) Tinha dia que não, a hora que acabava parece que era pior, porque (...) entrar... vê a madrinha naquela situação, né? [chora] (...) Você sabe que os problema não acabou, né, mas... é bom demais quando a gente conversa com alguém (...) falar como que é, como que tá, né? É bom!...” (Sônia)

“... eu não sabia nada, assim, de... de UTI. (...) Foi através dessas

reuniões foi que eu fui começando a entender o que que era uma UTI.” (Roberto)

“... eu achei ótimo! (...) ali você consegue (...) fazer perguntas,

sanar muitas dúvidas (...) no horário de visita é muito rápido, muita gente para os médicos explicar, às vezes você não tem uma oportunidade de questionar tudo aquilo que você tem vontade. É importante porque pode ajudar a tirar um pouco das angústias... Porque (...) a família que fica acho que é pior do que quem tá na UTI, entendeu? Porque você não tem condições de fazer, né? Nada... tá tudo nas mãos dos médicos... e de Deus.” (Isabela)

“Eu achei bão demais! (...) a gente fica perdido, né, sem rumo,

sem... sem saber o que que tá acontecendo direito, né? Quando eu fui na reunião... a primeira (...) cheguei dos mais ressabiado (...), sem jeito, né, não sabia o que que era aquilo, pra que que ia servir... como que eu tinha que fazer... Eu gostei muito!... Da primeira vez, (...) eu saí de lá tão (...) parece que mais leve, mais aliviado. (...) você sabe que não é aquilo que vai resolver seu problema, né, mas... é bão demais achar alguém pra você conversar... alguém... que você pode falar, perguntar... e ficar sabendo das coisa, né?” (Dionízio)

“... fica fácil de entender mais coisa, tem gente competente pra

passar pra gente, explicar os horários, tudo... Então, eu fiquei muito satisfeito (...) pela recepção, pelo amor que vocês mostraram pra gente, não só de mim, mas todos que participou. (...) aquela pessoa amorosa que é a sua colega! Excelente, viu? (...) nós embarcamos junto aqui (...) até dentro do ônibus de viagem ela me tratou bem, me conheceu como se fosse lá no trabalho, viu?” (Marcos)

Houve apenas uma entrevistada que, embora tenha finalizado seu relato afirmando ter gostado de participar do GRAF, referiu alguma decepção por

achar que as pessoas do grupo não haviam se colocado por inteiro em suas participações, deixando a desejar:

“... eu não sei se é porque eu participei de uma só, mas eu achei

que ficou muito a desejar (...) Várias pessoas estavam ali, né, inclusive eu, eu sei que ficou assim... não a desejar (...) do conteúdo... A desejar das pessoas mesmo que estavam participando. Acho que (...) poderia ter acontecido mais... as pessoas se abrir mais. (...) Acho que poderia ter aberto mais, né? (...) Então, foi essa a impressão que eu tinha, mas pra mim, eu achei bom, achei gratificante.” (Mariana)

No estudo de Halm (1990), os familiares também perceberam os benefícios da participação em sessões de grupo de suporte, incluindo o compartilhamento com outras pessoas em situação parecida, aumento da esperança, redução da ansiedade e aprendizagem de novas formas de enfrentamento da crise vivida. Sabo et al. (1989) afirmam que os grupos de apoio podem ajudar os familiares a explorar estratégias alternativas para enfrentar a situação e promover uma melhor compreensão da doença crítica e emoções relacionadas bem como facilitar o desenvolvimento de redes sociais de apoio.

De acordo com van Horn, Fleury e Moore (2002), o funcionamento familiar é complexo e pode requerer intervenções mais intensivas e duradouras. Para serem mais efetivas, os autores sugerem promoção de intervenções em todos os estágios da doença, específicas às necessidades do indivíduo e família. Por isso, eles sustentam que os programas para oferecer suporte aos familiares têm maiores chances de obter e manter o sucesso na redução dos níveis de ansiedade, quando há mais que uma intervenção. Assim, recomenda-se que, ao instituir grupos de suporte para atendimento de familiares de pacientes, os profissionais realizem sessões com regularidade, de forma que, sempre que

sentirem necessidade, os familiares saibam que o serviço está disponível.

Grupos de suporte podem ser uma estratégia valiosa para que pacientes e familiares aprendam sobre seus problemas, conheçam experiências semelhantes às suas e observem como outras famílias lidam com elas (VAN HORN, FLEURY e MOORE, 2002). No estudo realizado por Oliveira et al. (2003), a técnica do grupo de apoio foi muito útil no atendimento a familiares de transplantados de medula óssea, fazendo com que eles se sentissem acolhidos. Isso aumentava sua sensibilidade às necessidades emocionais dos pacientes.

Os grupos de suporte têm sido empregados para ajudar pacientes e familiares no enfrentamento de doenças, especialmente aquelas que envolvem riscos de perdas e ou mudanças no funcionamento pessoal e familiar. Nessa situação, o trabalho com grupos de familiares não é fácil, mas pode revelar-se uma boa oportunidade para desconstruir mitos e preconceitos e para a elaboração dos afetos mobilizados pelo processo de adoecer (OLIVEIRA et al., 2003). Compartilhar experiências pode ajudar pacientes e familiares fornecendo informações, trabalhando incertezas decorrentes da redefinição de papéis e padrões de relacionamentos e diminuindo ansiedades (CHAVES e FABER, 1987; SABO et al., 1989; HALM, 1990).

O GRAF como estratégia para o cuidado de enfermagem à família do paciente e sua importância para os familiares

Todos os entrevistados afirmaram sentir que o grupo era uma boa forma de assistência de enfermagem aos familiares, confirmando que esta pode

ser uma estratégia valiosa para o enfermeiro intensivista aproximar-se da família dos pacientes, dispensar atenção às suas necessidades e humanizar esse relacionamento. Quando perguntados se sua participação no GRAF fez com eles se sentissem atendidos pela enfermagem, eles responderam:

“... sim, porque a gente quase não conversa com as enfermeira na

hora da visita, né, elas nem fica por lá. (...) No dia que tinha reunião antes, na hora que a gente entrava (...) ficava mais... tranqüila, né, pra ver minha irmã... mais fácil... Sabe, nessas hora, parece que a gente tem tanta coisa pra perguntar... tanta coisa que você quer saber, mas... E ao mesmo tempo, a gente parece que não sabe nem perguntar. (...) Depois que sai daqui é que a gente lembra. (...) E a reunião... na hora lá, aparece muitos assunto que interessa pra gente, né, mesmo... as vez a gente não tá nem lembrando, mas quando alguém fala, você... ‘Puxa, isso é importante! Ainda bem que ela perguntou...’” (Sônia)

“Eu acho que sim (...) De qualquer jeito é bom... né? Escutar

aquelas coisas que as pessoas tava falando... Não era notícia da minha irmã, mas aliviou um pouco o aperto no peito, né? Ajudou a passar aquele resto de tempo que tinha até poder conversar com os médico dela (...) E tinha meu pai também, né, que eu tinha que ajudar, porque ele tava desesperado... Aí, nós vim na reunião ajudou ele também a enfrentar... aquela dor que a gente tava sentindo...” (Eugênia)

“Ah, fez sim! (...) Porque lá na reunião, a gente (...) sabe que tem

com quem conversar, alguém pra perguntar o que a gente não sabe, pra escutar o que a gente quer falar, né? As pessoa que tá lá, tá porque quer, porque tá no mesmo barco que a gente, né? Então, fica mais fácil de... por pra fora as agonia da gente... você sabe que as pessoa de lá quase tudo tá sentindo a mesma coisa que você... E as enfermeira... no caso, vocês duas, tava com a gente... a gente via que podia confiar, que vocês... vocês tava sentindo com a gente também, tava... tava ali, pro que der e vier... É bão saber que pode confiar, que não precisa de ter vergonha... de poder chorar se tiver vontade...” (Dionízio)

“Senti que sim. (...) a gente fica tão fragilizado quando tem um

parente como estava a minha irmã que quando você recebe alguma atenção, seja de quem for, fica mais aliviado, com esperança.” (Vanda)

“Sim, é uma forma muito boa de... que fizeram de dar assistência

pra família...” (Roberto)

Mesmo que não haja um grupo formalmente constituído e coordenado por profissional de saúde, os familiares de pacientes da UTI freqüentemente citam

a camaradagem empática que surge naturalmente entre os visitantes, tanto na sala de espera como em outras dependências do hospital, enquanto eles aguardam por notícias ou para entrar na UTI. Como eles compartilham suas experiências, acabam formando um grupo de suporte espontâneo para trocar informações úteis a todos e dar suporte mútuo (ABBOTT et al., 2001). Esta constatação confirma a utilidade e validade da estratégia grupal na provisão dos cuidados de suporte e orientações a esse grupo de clientes, valendo-se da tendência natural de agrupamento das pessoas que passam por experiências semelhantes, para introduzir o cuidado profissional necessário.

Quanto ao significado dessa intervenção para os familiares dos pacientes internados em UTI, todos os entrevistados concordaram que era importante, havendo mesmo recomendação para que o grupo não acabasse:

“... pra mim, isso é super importante! Porque (...) dá uma força pra

gente na hora que a gente tá mais fraco... dá uma luz, você começa a entender um pouco o que que tá acontecendo, como que tá... até pra dar força pra gente escutar as notícia do parente da gente...” (Eugênia)

“... pelo menos pra mim, isso foi importante demais! No fim, eu já

tava achando ruim o dia que não tinha reunião ou que não dava pra mim chegar aqui a tempo de participar. (...) quando você acha um lugar onde (...) a gente sente bem (...) aí, é bão, né?”

(Dionízio)

“Sim, é muito importante! Eu espero que... vocês... continue é...

fazendo essas... é... reuniões, porque... é... é uma ajuda pra família pegar e... agüentar, assim, certas coisa que acontece. (...) aconteceu comigo (...) eu não acreditava que eu ia perder meu pai, mas perdi, e foi uma ajuda assim... bastante pra mim. Eu sofri, tô sofrendo, mas foi uma ajuda assim, que... não diminui [o

sofrimento], mas ajuda bastante a gente passar por ele” (Roberto) “Considero importante e admiro muito (...) no momento aliviava

pela atenção que vocês prestavam à gente... procurava animar (...) porque eu acho que o aflito precisa é dessa parte, viu, porque o aflito encontrar outro aflito, como é que fica, né?” (Marcos)

“Eu acho sim (...) Se não tiver ninguém pra conversar, eu acho

“É importante porque pode ajudar a tirar um pouco das

angústias... Porque, para (...) a família (...) acho que é pior do que quem tá na UTI (...) Porque você não tem condições de fazer nada, né? Nada...” (Isabela)

Percebe-se em suas falas, que, em decorrência do sofrimento, desespero, impotência frente à situação do doente, medo, ansiedade e angústia pelo futuro incerto, os familiares ficam muito carentes de atenção e valorizam e apreciam qualquer tentativa de dar-lhes tranqüilidade e conforto (ABBOTT et al., 2001). Assim, qualquer que seja a estratégia escolhida pelos profissionais, o mais importante para estas pessoas é receber algum tipo de atendimento para suas necessidades. O GRAF foi a estratégia adotada neste estudo para oferecer uma assistência de enfermagem a estes familiares que os fizesse sentir que tinha alguém que se preocupava com eles e se dispunha a falar com eles, ouvi-los, dar- lhes a atenção desejada. Assim como outras estratégias possíveis, a tecnologia de grupo mostrou-se uma boa forma de intervenção, muito bem-vinda pela família dos pacientes porque lhes proporcionou o acolhimento esperado.