3. Teoretisk rammeverk
4.4 Valg av metode for datainnsamling
4.4.3 Intervjuguide og gjennomføring av kvalitative intervju
Como o foco principal da etnografia é compreender uma formação social, antes de qualquer explicação sobre o objeto de estudo (o poder) ou de descrições etnográficas é importante falar sobre os sujeitos observados.
A etnografia me possibilitou encontrar nos diretores suas elaborações de objetividade de mundo e de sujeito no mundo; sujeito este que derivava de uma realidade cultural, e que se fazia sujeito segundo entendimentos singulares de sua própria experiência nessa realidade; entendimentos esses que embasariam práticas cotidianas.
Tendo Ruiz (2004) como base, considero o sujeito (isto é, um conjunto de concepções e sua respectiva estrutura comportamental) como resultado de um fluxo indômito e incessante, criador de representações e sentidos. Isso significa que esse resultado é uma construção que acontece por meio de cada ocasião; portanto, ao tentar delimitar seus contornos em categorias definidas corro o risco de engessá-lo em minhas formas lógicas, que não necessariamente são coerentes ou podem inteligir as criações indômitas subjetivas. Assim como a discussão sobre o imaginário radical deste autor, pretender compreender o sujeito de forma plena implica em simplesmente sufocá-lo nos limites conceituais definidos por mim. Intentar uma explicação definitiva ou mesmo abrangente é o mesmo que anular o sujeito. Isso porque o sujeito se comporta de acordo com suas verdades de mundo, que lhe constroem saberes e conceituações teóricas sobre todas as coisas e todos os Seres. Enquanto resultado de sua mente, o sujeito acaba sendo indeterminado, pois sua mente não pode ser reduzida a alguma forma; o Ser acaba sendo indefinido, porque ela não pode ser simplesmente criada por lógicas identitárias. Isso, enfim, significa que o sujeito acaba sendo inexplicável para o logos racional.
Nossa compreensão sobre ele, ou sobre a realidade que ele constrói, será, pois, sempre fragmentada (não nos esqueçamos da incompletude cognitiva). Devemos nos furtar a estreita sistemática metafísica de situação terminal fornecida por teorias explicativas funcionais. Devemos renegar uma explicação definitiva e conclusiva da essência do sujeito para alcançarmos a existência conflitante entre o absurdo e o lógico, entre o desejo e o “obrigatório”. Abarcar um sujeito criador imaginário de sua própria realidade exige suscitar sua vigência criativa, e o convívio desta com a coerência lógica.
Para entendermos melhor os comportamentos dos sujeitos é necessário acrescentar ao estatuto ontológico deles três perspectivas comportamentais que nos ajudam a compreender que cada ação ou prática do sujeito era embasada em algum tipo de justificação teórica que lhe permitia empreendê-la, e que aquilo que os diretores diziam e faziam possuía um significado. Suas práticas eram pautadas, no final das contas, em informações prestadas pelo “auditório social”, e,
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uma vez que os sentidos são construções que dão direcionamento imagético à realidade para que ela possa ser cognoscitiva (RUIZ, 2004), estão sempre dotadas de significados. As perspectivas estão baseadas em Rogers (1977; 1983).
Temos, assim, que (1) os comportamentos dos sujeitos se agrupavam em padrões, padrões estes que podiam ser apreendidos tanto em suas narrativas quanto em suas práticas cotidianas. Considero que ainda que relativamente repetitivos para caracterizar um padrão, os comportamentos podiam se alterar por meio de insights ou autoconsciência/entendimentos.
(2) Aquilo que os sujeitos diziam e faziam possuía um significado, ainda que esse significado não fosse
acessado pela percepção consciente. Aquilo que faziam e diziam (isto é, suas ações e práticas cotidianas) eram orientadas pelo teor de verdade de conceituações teóricas que definiam a eles o que eram as coisas, o mundo e a participação das coisas neste mundo. Devemos assumir que essas conceituações eram produções do poder, isto quer dizer: o apontamento finito dos intervalos de possibilidade para a verdade diante de uma gama infinita de opções. Essas conceituações se tratavam de saberes teóricos e de conhecimentos sobre as coisas que compunham o acervo de conhecimento, e no final das contas revelavam um posicionamento subjetivo dentro do acervo de conhecimento social (KELLER, 2005). Falar em saber de nível teórico, com base em Foucault (1979; 2008), significa entender que informações sobre as coisas, informações coerentes com as miras e objetivos do poder, vão sendo acumuladas em torno das coisas de modo que o conjunto dessas informações (são selecionadas como verdade à medida que algumas informações caem em desuso como sendo mentiras) estruture saberes e, pois, erga acervos de conhecimento. No acervo de conhecimento, portanto, estão acumuladas justificações, garantias ou provas para confirmar ou refutar verdades.
Geralmente, uma definição geral (ou seja, uma teoria, que vira conhecimento/saber) só se torna uma especificação/definição de realidade se assim for considerada/compartilhada pelos membros ordinários de uma sociedade.28 E uma especificação de realidade só é compartilhada pelos membros de uma sociedade se for deles um saber (ou seja, um conhecimento).
Conforme já mencionei, a crença na verdade da realidade é diretamente proporcional ao teor de justificação e prova das hipóteses explicativas sobre o mundo e sobre nós mesmos. A crença ancora o acervo de conhecimento. Quanto mais baseados estiverem argumentos de justificação da realidade no estoque de conhecimento social, maior seria o teor de verdade de sua justificação, e, portanto, sua capacidade de objetivação. Logo: (3) as ações e práticas dos
sujeitos eram embasadas em algum tipo de justificação teórica que lhes permitia empreendê-las.
Essa justificação teórica se trata da utilização de verdades e saberes como argumento de objetivação imagética de realidade. Ao nos aproximarmos da perspectiva de poder, temos que os regimes de verdade do poder – por meio de seus consensos de materialidade produzidos, seus campos de objetos ofertados, suas formas racionalizações construídas, seus
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direcionamentos diversos transmitidos, suas formas de agir e pensar institucionalizadas etc. – é que formam o acervo de conhecimento social, e, por conseguinte, o acervo de conhecimento subjetivo.
Nesse sentido, pretendo apontar alguns enclaves substantivos da vida social dos diretores e do CEO (logo, da direção executiva) no cotidiano da organização abstrata e evocar alguns padrões de comportamentos comuns a eles, importantes para nossa análise de poder (RAMOS, 1981).
Conforme já dito anteriormente, não identificarei os sujeitos estudados. Como o sujeito é importante, acredito que tratá-lo por meio de códigos, tais como S1, S2 etc., ou E1, E2 e assim sucessivamente, seria uma forma de torná-lo mero objeto de pesquisa, posicionando-o muito aquém da devida importância que ele tinha para a realização do contexto social observado (dessa forma, eu incorreria em contradição em relação a meu posicionamento), por causa disso optei por dar nomes aos sujeitos observados. No quadro abaixo estão apresentados os perfis gerais dos sujeitos com os quais mais tive contato durante a etnografia.
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Quadro 1 – Perfil dos principais sujeitos observados
CÓDIGO Pseudônimo Cargo Gênero Estado Civil Formação Idade Tempo na empresa
Sujeito 01 Jack Keefer CEO Masculino Casado Administração 50
anos 14/15anos
Sujeito 02 Bruce29 almoxarifado Gerente de Masculino Divorciado 2° grau 40
anos 13 anos
Sujeito 03 August Walker30 Diretor de marketing Masculino Casado Administração 54
anos 15/16 anos
Sujeito 04 Manuel de Souza
Teles Diretor de finanças Masculino Casado Contabilidade
59
anos *16 anos
Sujeito 05 Manuel de Oliveira Diretor de
abastecimento Masculino Casado
Engenharia de produção
38
anos 10 anos
Sujeito 06 Alice Hunt Gerente de gestão de
pessoas Feminino Casada Sociologia
41
anos *17 anos
Sujeito 07 Fischer31 Prestador de serviços
(refeições) Masculino Casado Contabilidade
52
anos *17 anos
Sujeito 08 Noah Percy Representante legal da
propriedade Masculino Casado
Engenharia de produção
53
anos 2 anos
Fonte: elaboração do próprio autor a partir dos dados da pesquisa.
* Esses sujeitos foram transferidos da Ergos para a Dunamis. Alice Hunt, por causa disso, dizia estar na empresa há 25 anos, e Fischer há 23.
29Fischer o descreveu como “ele é o único que consegue o que quer com o Keefer”. Em uma entrevista, a gerente de gestão de pessoas disse: “se alguém aqui tem poder, esse alguém é o Bruce”. Era
considerado fiel ao CEO e reconhecido por sua habilidade em relações interpessoais.
30 Os movimentos involuntários em seu rosto denunciavam seus problemas por stress, mas isso não o impedia de estar sempre com um sorriso no rosto e transmitir serenidade. Ele era considerado pelos
diretores um parâmetro de referência, importante elemento para a coesão e cumplicidade no grupo e responsável pela solução de conflitos.
31 Fischer era reconhecido por sua habilidade em relações sociais. Por causa disso, estava sempre atualizado sobre os acontecimentos na empresa, e conseguia acesso até àqueles mais velados (em especial os
considerados: “de bastidores”). Era uma boa fonte de informações, pois, tal como era conhecido, não conseguia manter segredos. E ele gostava de tecer algumas análises “sociológicas” a respeito dos acontecimentos, sempre misturadas com “fofocas”.
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Hora ou outra, novas personagens aparecem durante as narrativas. Não as citei aqui porque minhas interpretações sobre a realidade local estiveram majoritariamente embasadas nas concepções do mundo do trabalho (imaginários) apreendidas nesses sujeitos apresentados (os sujeitos membros da diretoria executiva). Além disso, pode-se dizer que, devido às estruturas das relações de poder construídas dentro da empresa, os intervalos de possibilidades sobre o que seria a realidade daquele contexto social (ou a verdade) eram, pelo menos em sua maior parte, provenientes desses sujeitos.
Ao me relatar brevemente sua trajetória profissional, Jack Keefer a seccionou em quatro momentos: a (1) fase de pós-conclusão do curso superior em administração, em que foi gerenciar alguns negócios de seu pai; a (2) aceitação de uma “boa proposta” de trabalho, demarcada pelo abandono dos negócios da família para se tornar diretor geral de “um negócio de médio porte, quase grande”; sua (3) contratação como diretor financeiro para uma das empresas do pai de Noah Percy (Robert Percy); e a (4) fase atual, iniciada com a indicação para CEO da Dunamis. Sem fornecer muitos detalhes sobre essas fases, ele mencionou que aquele negócio de médio/grande porte por algum motivo havia encerrado suas atividades (ele contou alguma coisa sobre uma compra por uma empresa de grande porte, e, por causa disso, não sei se por decisão gerencial ou por falência financeira, as atividades daquele negócio foram encerradas por Jack Keefer), e logo após cuidar de todo o processo de término dessa organização, Robert Percy o contratou para trabalhar em uma de suas empresas. Segundo os relatos, essa última contratação acontecera por volta de 1988.
Em termos pessoais, o que ele mais destacou foram as cinco pós-graduações feitas (ele gostava de mencionar que três delas aconteceram na Fundação Getúlio Vargas). Ele manifestava, por explicitação verbal, a vontade de lecionar e seguir carreira acadêmica, se intitulava “estudioso”.32 Além de explicitar verbalmente “precisar de poder”, Keefer se dizia “avesso a riscos”. Ele utilizava essa expressão para perpassar sentidos de que tomava as decisões com cautela, e não fixava uma posição em relação a orientações e comportamentos futuros se não tivesse o que ele considerava serem pertinentes e boas informações a respeito das possibilidades de acontecimentos.
Todos na empresa o chamavam pelo último nome, acompanhado pelo artigo definido masculino singular: “o Keefer”. A principal característica destacada pelos diretores era de ele ser uma pessoa exigente em vários sentidos (comportamentos, desempenhos, resultados, objetivos, objetos etc.). Pude observar que todos os diretores, em uma ocasião ou outra, disseram “o Keefer tem um alto padrão de exigência”. Ele mesmo afirmava possuir “um alto padrão de exigência” e dizia que “gosto das coisas certinhas. Gosto das coisas perfeitas. Tudo tem que ser do bom e do melhor mesmo. Quem não gosta disso? É normal”. Lastros de suas exigências eram vistos nos seus comportamentos e práticas cotidianas: gostava de frequentar os restaurantes da cidade que eram considerados caros e chiques; Fischer, que fazia viagens pessoais com ele, dizia que “ele não aceita menos do que hotel de luxo”. Suas roupas eram destacadas pelos sujeitos, geralmente roupas de grifes masculinas (as mais observadas foram Lacoste, Zoomp, Armani e Hugo Boss).
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Keefer se intitulava “adotante imediato” para fazer inferência linguística a seu hábito de comprar lançamentos de aparelhos eletrônicos (celulares, computadores, máquinas fotográficas, relógios).
Vestígios do reconhecimento social sobre seus padrões de exigência podiam ser observados nas práticas em torno do que eles denominavam de “padrão Keefer”. Para exprimir qualquer tipo de qualificação – de pessoas e objetos a comportamentos –, foi criada uma escala de mensuração, em que no extremo considerado muito bom ou excepcional estava a designação padrão Keefer, e no outro extremo, o das caracterizações pejorativas ou ruins, estava a classificação de isso não é padrão Keefer – o termo e a expressão grifados se tratavam de padrões discursivos. Havia poucas semanas que eu estava na empresa, quando, ao observar um grupo de “peões” no horário do almoço, os vi tecerem alguns comentários sobre uma funcionária da contabilidade. Dentre algumas qualificações que não cabem aqui citar, foi utilizada a oração “essa sim é padrão Keefer” para exaltar as características da beleza física da moça. Foi a primeira vez que eu escutei essa expressão. Poucos dias depois, quando eu acompanhava um dos gerentes de abastecimento, que na ocasião inspecionava a realização de um serviço, pude observar a reincidência desse discurso: em meio ao processo, esse gerente ordenou aos executores que o interrompessem, justificando que “não tá no padrão Keefer não, pode parar”, e então fez apontamentos para correções visando a melhoria do resultado final do serviço.
O padrão discursivo dos relatos dos diretores para definir Jack Keefer assinalavam as características: egocêntrico e vaidoso. Keefer atestou a verossimilhança desse padrão: “eu sei que as pessoas aqui me acham egocêntrico e vaidoso, e eu reconheço que algumas vezes eu sou mesmo”. Significações dessas características foram expressas também em uma daquilo que eu chamo de “análises sociológicas” de Fischer: “o Keefer gosta de status social, luxo e glamour” (Alice Hunt apresentou uma versão semelhante a esta).
O que mais chamou minha atenção no tocante aos sentidos que o CEO tinha para os diretores foi que os significados sobre ele geralmente estavam estruturados por meio de duas características simetricamente opostas, que no final das contas representavam algo semelhante a amor e ódio. Alice Hunt retrata isso ao descrevê-lo como sendo “grosseiro e humano. Não pede desculpa, mas demonstra que fez errado. Melhorou demais nos últimos dois anos. Mas ainda acha que é bonito brigar”. Na versão de Fischer:
(1) O gerente me contou e eu também já vi. [Keefer] Chegava no banco e escrachava ele [o gerente]. Não aceitava pegar fila. Dava esporro. Hoje não. Hoje por causa da bagunça financeira da empresa ele tem que andar com o rabinho entre as pernas. Você já pensou o Keefer sentadinho no banco com uma senha na mão esperando ser atendido? É difícil de acreditar. Mas um dia a gente tem que aprender, né? Por bem ou por mal a gente aprende. (FISCHER. Fragmento de entrevista com o objetivo de descrever Jack Keefer).
A enunciação da gerente está estruturada pelo posicionamento de características duais colocadas lado a lado, revelando sentimentos ambíguos e até paradoxais em relação a esse sujeito. Os léxicos grosseiro e humano geralmente são qualificações opostas quando utilizadas para designar pessoas, portanto retratam a utilização de discursos em sentidos aparentemente antagônicos e que foram postos em complementaridade um em relação ao outro para produzir significados sobre alguém.
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Os sentidos de grosseiro estão demarcados nessa enunciação pelos significados da expressão acha que é bonito
brigar. O léxico brigar faz inferência linguística às práticas de Keefer de punições dos comportamentos desviantes em
relação às suas determinações, práticas essas significadas como agressivas pelos diretores. Geralmente os significados que levaram a gerente à qualificação de grosseiro eram apreendidos em sentimentos de medo, revoltas, descontentamentos e desacordos, consequentes de algumas práticas cotidianas do CEO, que no final das contas forneciam contornos tirânicos para o poder.
Já os sentidos de humano estavam relacionados com a perspectiva de que ele era o elemento central da existência de toda aquela realidade. Digo isso porque as falas dos diretores me passavam a impressão de que eles acreditavam que sem Jack Keefer o real se fragmentaria e se dispersaria, extinguindo toda a realidade: “devemos tudo ao Keefer. Ele tornou isso possível. Hoje somos alguma coisa por causa dele. Somos uma família, e foi ele quem fez isso. Não seríamos nada sem ele”, essa era a versão de Alice Hunt.
Diversos atos, comportamentos, práticas e significados dos diretores, dentre eles as referências a Keefer como “pai”, me induziram a apreensão de significações naquele grupo referentes a sensações e sentimentos de gratidão em relação ao CEO, e também a ter Jack Keefer como modelo de ideal humano, que tinha no poder seu ponto de referência.33 Essas sensações eram assinaladas grande parte das vezes nos relatos sobre uma suposta unidade de grupo, no sentido de coesão grupal (a “família Dunamis”), que teria sido construída pelo CEO,34
e em torno da qual, e também em função da coesão grupal, abdicavam de si mesmos em prol, e em função, da formação de uma unidade coesa.
Eu não escapei das incoerências dos sentidos das enunciações que posicionavam o CEO como Ser ideal paralelamente a denúncias de seu lado agressivo, ou “grosseiro”. Ao ler o diário de campo me surpreendi por utilizar essa mesma estrutura, e por não ter tido consciência dela durante as observações etnográficas. Vale citar na íntegra alguns fragmentos das descrições que fiz no diário de campo. Sobre representações de ódio:
(2) Hoje, em meio ao expediente, encontrei Jack Keefer fotografando pássaros. Tenho como habitus levar minha máquina fotográfica, pois é um argumento de que me valho (o fotografar junto com ele) para aproximar-me dele. Além disso, esses são momentos em que ele está mais descontraído, tranquilo; portanto, são boas oportunidades para conversas mais profundas. Assim que o vi fotografando, peguei a máquina e fui fazer companhia a ele. Fiquei
perplexo com sua resposta ao questioná-lo sobre o que ele mais gostava de fotografar: “tudo, menos gente. Ainda
que os prêmios de fotografia sejam sempre de pessoas, eu detesto fotografar pessoas” disse ele. Eu lhe expus meu
receio de fotografar pessoas, temendo incomodá-las por causa da exposição. Daí ele me afirmou: “não é por isso não. É porque eu não gosto mesmo”. [...] Isso seria vestígio de que Keefer não gosta de lidar com pessoas? Talvez essa resposta possa conter algum traço que explique suas grosserias e seu comportamento agressivo. Não sei dizer a associação existente, mas o fato de não se importar se está incomodando as pessoas ou simplesmente não gostar de fotografa-las, sem qualquer motivo justificado, na minha compreensão possuem algum lastro de significado com o fato de ele passar por cima de quem atravessa seu caminho. Enfim: fato é que o outro não está no rol de
preocupações dele – suas punições, que todos consideram agressivas, são provas disso. Ele não quer saber de algo
mais do que satisfazer sua própria ambição, só se preocupa com seu próprio umbigo, independentemente se isso vai
33Um dos argumentos simbólicos que conduziam à essa significação de ideal era o reconhecimento de que Keefer “tinha” poder: os diretores
manifestavam ambições de serem “poderosos”, e Keefer, na concepção deles, era alguém “poderoso”. A designação de “poderoso” era, portanto, um dos critérios de ideal de ser.
39 afetar alguém ou não. Às vezes penso até que lhe faltam escrúpulos. (Fragmentos do diário de campo datados de abril de 2011)
Sobre representações de amor:
(3) Já considero Jack Keefer um grande amigo pessoal. Às vezes temo o impacto que isso terá quando eu tiver que escrever sobre ele ou sobre que as coisas que ele faz. Minha profunda admiração por ele me deixa receoso de proceder alguns relatos que podem denegrir sua imagem, ou mesmo que possa feri-lo de alguma forma (temo que ele possa ficar com algum sentimento relativo a chateações). Não digo isso por medo de suas punições, mas por de fato gostar dele. [...] Eu o admiro. Ele é inteligente, é perspicaz. É um verdadeiro gênio em termos de poder. Não me recordo de ter observado em outra organização manipulações simbólicas tão eficientes em termos de positividade de