Apesar da análise dos elementos que constituem a banda desenhada não representar um dos objetivos deste estudo, julgamos essencial a apresentação sumária dos seus principais constituintes, de forma a permitir uma melhor
compreensão desta temática. Neste sentido, tendo em consideração o carácter híbrido da banda desenhada, na qual se combinam a linguagem verbal e a linguagem visual, devemos referir, em primeiro lugar, a designação de prancha10, termo pelo qual se designa a página utilizada como base para dispor os restantes elementos da banda desenhada, nomeadamente as vinhetas que, por sua vez, constituem as tiras. Zink (1999) considera, no plano gráfico, a prancha como a macrounidade da banda desenhada, a qual pode encerrar em si toda uma história, designada como autoconclusiva, ou, por outro lado, necessitar de uma continuidade de pranchas para a conclusão da história que é narrada (Zink, 1999, citado por Gomes, 2010). Em seguida é importante explanar o conceito de tira11, o qual representa um conjunto de vinhetas com uma sequência narrativa dispostas, geralmente, na horizontal (Sá, 2010). Tal como acontece com a prancha, também a tira pode representar em si própria uma história, sendo também ela autoconclusiva, ou pelo contrário necessitar de um número sucessivo de tiras, de forma dar continuidade à história representada.
No universo da banda desenhada, a vinheta12 apresenta-se como a “unidade estrutural das histórias por imagens” (Sá, 2010, p. 197). Para autores como Zink (1999) a vinheta constitui a unidade mínima da narração, na qual através de imagens se representa o espaço e o tempo da ação, funcionando como a moldura de um momento da ação que nos é narrada (Zink, 1999, citado por Gomes, 2010). A vinheta retrata apenas uma cena em concreto dessa mesma história e a sua sequência permite ao leitor inferir o próprio ritmo da ação. No entanto, cada vinheta, apesar de corresponder a um momento particular que foi destacado pelo autor, obriga a uma leitura própria num tempo próprio por parte do leitor, de forma a realizar a reconstrução pessoal da história que é narrada.
Um outro elemento visual característico da banda desenhada são os signos cinéticos13. Estes signos são linhas e traços que permitem representar o movimento das figuras de forma a criar a ilusão de animação. São convenções gráficas que
10 Ver anexo 3. 11 Ver anexo 3. 12 Ver anexo 3. 13 Ver anexo 4.
“permitem colmatar a natureza estática das imagens fixas oferecendo uma realidade dinâmica” (Vieira, 2012, p. 25).
Da mesma maneira que os signos cinéticos são convenções gráficas que permitem representar o movimento de uma imagem, também as metáforas visuais14 correspondem a convenções visuais, no entanto estas pretendem transmitir sentimentos, estados de alma ou pensamentos das personagens. De uma maneira geral, são representados por sinais icónicos que substituem as palavras. Podemos referir como exemplos clássicos de metáforas visuais a utilização de estrelas para representar a dor, ou a imagem de uma lâmpada para representar uma ideia brilhante (Vieira, 2012).
Outro importante elemento da banda desenhada diz respeito à cor e ao tamanho da letra utilizada. A cor utilizada pode servir para transmitir um determinado estado de espírito, caracterizar um determinado ambiente, ou mesmo chamar a atenção do leitor para um elemento em particular. Segundo Aparici (1992) a utilização de um determinado jogo de cores pode ter o objetivo de cumprir funções de carácter estético, figurativo, psicológico e significante15. A função estética está diretamente ligada ao autor e ao seu estilo pessoal, serve como uma marca do próprio criador da obra. A função figurativa diz respeito ao nível da preocupação do autor com a representação do real através da imagem. Por outro lado, a função psicológica serve para realçar sentimentos ou estados de espírito das personagens. Por fim, a cor pode ser uma representação da própria mensagem que se pretende transmitir, desempenhando neste caso uma função significante (Aparici, 1992, citado por Gomes, 2010).
No que diz respeito ao corpo da letra, as suas dimensões, bem como o seu próprio formato servem também para transmitir uma mensagem ou um característica própria de uma situação ou personagem. Neste sentido, o aumento ou a diminuição significativa do tamanho da letra correspondem, por sua vez, a um aumento ou diminuição do tom de voz da personagem (Gomes, 2010). Por fim, segundo
14 Ver anexo 4.
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Fernandez (2003), a utilização de um determinado tipo de letra representa uma característica particular de uma determinada personagem. Neste sentido, o autor apresenta como exemplos a utilização de letra gótica, a qual representa um carácter conservador, ou uma letra em caracteres cursivos que significa a elegância pessoal, ou ainda letra desenhada que indica o carácter infantil de um personagem (Fernadez, 2003, citado por Gomes, 2010).
3.2.2. Os componentes verbais
Tal como referimos anteriormente, apesar da componente verbal não ser essencial para a transmissão da história que se pretende narrar, esta representa um importante complemento da narrativa. É através desta componente verbal que se transmitem as falas das personagens, os seus pensamentos, assim como as intervenções do narrador, quer através da utilização de legendas inseridas na própria vinheta, quer através de cartuchos isolados entre as vinhetas. Em ambos os casos, quer na legenda, quer no cartucho, o narrador faculta informações que complementam a imagem, permitindo ao leitor aperceber-se de elementos que não são percetíveis apenas com as figuras presentes nas vinhetas. Estes textos permitem, não só localizar a ação no tempo e no espaço, relembrando momentos passados ou avançando a ação, mas também possibilitam ao narrador transmitir as suas próprias opiniões, dando assim um cunho subjetivo ao próprio texto (Sá, 1995, citado por Gomes, 2010). O cartucho pode ser definido como uma coluna de texto compacto que surge entre duas vinhetas de uma banda desenhada (Sá, 2010), no qual o narrador comunica ao leitor elementos que são essenciais para a compreensão da história que é narrada, quer para introduzir um novo cenário, quer para realizar a transposição para a representação de uma nova. O cartucho, apesar de ser um elemento essencial para a compreensão da história, não integra a imagem. Por seu lado, a legenda16 surge no interior da vinheta e é um elemento que acompanha a imagem, muitas vezes funciona como “didascálica, ou seja, uma legenda explicativa” (Sá, 2010, p.125).
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Por sua vez, numa história em banda desenhada, as personagens ganham voz através da representação gráfica de balões. Sá (2010) define balão como o espaço que surge destacado no interior da vinheta, no qual se situam habitualmente as falas das personagens em discurso direto, os seus pensamentos ou sinais e ícones quando se pretende transmitir um sentimento, uma emoção ou uma ideia (Sá, 2010). De uma forma geral, os balões apresentam “um bico apontado para o emissor” de forma a permitir a sua identificação por parte do leitor (Sá, 2010, p. 19). No entanto, apesar da sua função ser permitir a intervenção de uma personagem na história através da utilização da linguagem verbal, a sua representação gráfica varia consoante o carácter dessa mesma intervenção. O seu traço varia se o balão representar uma fala em voz baixa, num tom de voz normal, ou se representar um tom exaltado ou longínquo17. Se o autor pretende transmitir um pensamento ou um sonho dessa mesma personagem, também a representação gráfica do balão assume outras formas.
Tal como os signos cinéticos pretendem colmatar a natureza estática da banda desenhada imprimindo-lhe movimento e dinamismo, o autor socorre-se de onomatopeias18 para representar sons e ruídos e dessa forma aumentar a vivacidade das imagens. Segundo Sá (2010) a onomatopeia corresponde à “transcrição fonética de ruídos reais ou imaginários. Constituem a banda sonora da banda desenhada, mas são visuais e não audíveis” (Sá, 2010, p. 149).