4.5 Datainnsamling
4.5.1 Intervju
Em Wittgenstein, os jogos de linguagem, nas Investigações, segunda fase de sua obra, ocupam lugar central que desloca as suas primeiras especulações sobre uma essência por trás do funcionamento da linguagem para um patamar menos abstrato e mais próximo da realidade da vivência lingüística das pessoas. Nesta fase, ele demonstra algo que aparentemente seria bastante elementar e que não exigiria maiores esforços para que se construa uma empresa filosófica. Mas, como sabemos, o óbvio só é óbvio a posteriori. Isso fica claro quando ele abandona seu projeto de purificação logicista da linguagem, atentando para outras dimensões da linguagem negligenciadas anteriormente: suas aplicações práticas. Para sabemos o que estaria na essência da linguagem, não precisamos de teorias sobre entidades que organizam, às escondidas de nossas vistas, alguma substância etérea que faria nossas idéias terem sentido, mas se observarmos as pessoas, absortas no dia-a-dia, elas nos ensinariam mais do que filósofos envoltos em especulações bizantinas. O contra-feitiço de Wittgenstein é simples:
127 abandonemos as idéias perfeitas e nos voltemos para o uso. Essa recomendação simples é a linha-mestra, que modestamente faria uma revolução na filosofia, é apenas a indicação de que devemos nos reportar ao funcionamento real, corriqueiro, de como a linguagem é aplicada pelas pessoas que não são filósofas. Essa descoberta quase singela é o que redirecionará a filosofia do séc. XX e que trará outras implicações para áreas do conhecimento.
Partindo do uso, os aforismos das Investigações revelam também que a linguagem não é usada de forma aleatória. Ela possui um ponto mínimo de coerência, de organização, que fará dos seus usos uma forma tão diversificada quanto são diversos os interesses que ela reflete ao anunciar as intenções de seus usuários. Embora não tenhamos mais em foco a idéia de uma lógica que estabeleça a ligação entre linguagem e mundo físico, há outras formas de nos atermos a sua funcionalidade que prescindam de quaisquer apriorismos inerentes à estrutura do mundo. O uso da linguagem, quando conduzido da forma comum, sem traços de “estranheza”, é normalmente marcado por aplicações bem precisas, que indicam que as pessoas têm uma apreensão ordinária que as fazem competentes para as suas intenções. Isso só pode se dar porque há uma outra realidade que transforma o uso num recurso visivelmente acionável às circunstâncias que lhe é necessitada.
Para Wittgenstein, o ponto-chave de sua filosofia são os jogos de linguagem; é o que encontramos como sendo a maneira como o uso está regulamentado; como o uso que comporta limites e graus variados de aplicação e aceitação. Nos aforismos wittgenstenianos, o termo “jogo”, que funciona na sua filosofia como uma idéia-raiz para pensarmos a linguagem e qualquer experimento com a mesma, significa igualmente as dinâmicas em envolvem a criação e transferência de sentidos. As pessoas recorrem às palavras não aleatoriamente, ou como se seguissem usos ideais ditados por um Logos, mas com um contorno bem específico de cada caso, como se só naquele caso fosse possível usar a linguagem de tal ou qual maneira que soaria “natural”. Apesar de se poder formular uma idéia de formas diversas, há uma porção de praticidade que, quando não é respeitada, causa desconforto ao ouvinte. O jogo de linguagem é o lugar onde as pessoas produzem e reproduzem suas falas. É o ponto elementar a partir do qual as palavras ganham coerência e sentido, saindo do abismo da indeterminação e da sua condição de letra-morta, de ambigüidades que palavras soltas no ar, sem um falante preciso, podem se tornar alvos abertos à especulação. Na prática da linguagem, não se recorre um nível de perfeição gramatical similar às prescrições escolares, mas, em cada caso, temos uma sedimentação histórica que nos avisa sobre o que é o mais aceitável em cada situação, que nos liga ao costume que se faz reconhecer pelos falantes.
Para que uma prática lingüística se constitua numa realidade que faça convergir seus usuários, faz-se necessária uma repetição sistemática que molde tanto os pensamentos
128 privados quanto a enunciação pública. O entrelaçamento da linguagem não é apenas o conhecimento do vocabulário de um idioma, mas o que deste repertório armazenado serve aos seus usuários. A parte mais perceptível da linguagem é aquela da qual não se pode escapar sem que haja um descompasso entre fala e expectativa. Nos casos normais, as palavras essenciais se fixam como um acervo básico e mínimo de comunicação. Quer dizer que, para a comunicação ter a oportunidade de estabelecer uma linha de transmissão entre as pessoas, ela deve ter a capacidade de criar uma atmosfera que liga essas pessoas por algo em comum; isto é, há algo que amenize as distâncias ao nível da linguagem. O que Wittgenstein descobre é que o que conecta a linguagem às pessoas não é a forma lógica, mas a forma de vida. As pessoas têm a agilidade de entendimento e resposta em ambientes cotidianos porque estão de acordo quanto à convencionalidade dos usos da linguagem. Estes, no entanto, podem ser fragmentados em milhares de operações que são os jogos de linguagem. O uso, então, ocorre dentro de jogos de linguagem, que guardam as maneiras correntemente consagradas que marcam a dimensão prática; por ser recorrente e passível de reconhecimento por todos (ou uma parte dela) numa comunidade.
Aí teremos ainda a conexão isomórfica da linguagem e o mundo, em que cada fase corresponde a algo que se concretiza no jogo. Mas e se de repente eu apelidar as peças e igualmente o “xeque” e “xeque-mate” de nomes diversos? (posso trocar os nomes das peças por nomes de personalidades políticas, por exemplo). Haveria inicialmente a idéia de que a linguagem está falando de coisa bem diversa. Mas o que está ocorrendo na prática é um recondicionamento lingüístico que, por meio de uma brincadeira, transgride o jogo de linguagem consagrado pela tradição do jogo de xadrez. A linguagem perdeu o seu sentido? Não. O que acontece nesses casos, que são mais comuns do que se imagina, é a criação de sentidos ligados à prática por meio de deslocamentos de sentido17. O importante é que os jogadores saibam, pela sua intimidade com o uso, que mesmo os usos pouco convencionais que se possa inventar, os lances feitos no jogo, os lances lingüísticos e sua conexão prática com a dinâmica do jogo, recuperam os sentidos das palavras, remetendo-as aos lances dentro do jogo. É isso que Wittgenstein quer dizer quando ele diz que é o contexto de uso o que dá
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Claramente se vê que uma parte dos usos comuns da linguagem está impregnada das intenções e pantomimas da prática que não se reduzem à correção dos usos convencionais: “Um heterossexual remeteria a frase ‘Paula atendeu um cliente no escritório’ a uma situação comum num ambiente de negócios ou empresarial. Para o homossexual, há uma deslocação de sentido e a sentença passa a representar uma relação sexual mantida por um prostituto masculino com um cliente eventual num banheiro público ou de algum estabelecimento comercial. Em momentos assim, apenas o riso denunciará o uso de uma gíria”. (Língua Especial: Sexo & Linguagem, Editora Segmento, Ano I junho de 2006). Nesse exemplo, a criptografia da linguagem assume um dos patamares máximos do que o caráter prático do intercâmbio lingüístico. O que poderia soar como uma mera curiosidade quanto às gírias e usos de grupos, pode mesmo revelar a elasticidade que as intenções práticas podem fazer com os usos e entendimentos mais “denotativos”.
129 sentido às palavras, e não as essências eternas. O significante lingüístico não encontra seu sentido em si mesmo, mas nas relações criadas em torno de um contexto.
Vê-se que as palavras em si mesmas dizem muito pouco do que delas, a partir delas, pode ser feito. Os usos da linguagem embebidos de sua contextualidade possuem uma carga semântica que foge de sua literalidade. As expressões idiomáticas e usos disfarçados são exemplares sobre isso. Imaginemos um caso no qual uma pessoa teve um lapso e não consegue se lembrar de uma palavra e, para se fazer entender, mesmo precariamente, chama o objeto de “treco”18. Para os propósitos e indicações práticas do jogo, a palavra pode ser perfeitamente cabível, como um “coringa” que dentro da rede de relações dota o discurso de inteligibilidade. O contexto de uso não é só saber que “manga” é uma fruta num jogo de linguagem, mas que pode ser uma parte da minha camisa noutro. Poderíamos ser levados a dizer que, numa situação extrema, as palavras usadas pouco importam, mas sim a dinâmica criada e engendrada em torno delas. Seu caráter intersubjetivo garante que há outros meios auxiliares para lhes conferir sentido. “De Simplicissimus: enigmas da tecnologia (Cena: dois professores frente a uma ponte em construção,) Voz vindo do alto: “Deixa ‘tar, pá deixa ‘tar, ‘tou-te a dizer – depois damos-lhe um volta”. – “É na verdade bastante incompreensível, meu caro colega, como é possível executar um trabalho tão complicado e preciso, com uma tal linguagem” (WITTGENSTEIN, p.31: sem data)
Mesmo no caso quando só os radicais das palavras são preservados, como acima, podemos falar em código entre amigos como um artifício para driblar uma presença indesejada. Portanto, o sentido não está no “significante”, mas na concatenação prática entre palavras, contexto e intenção, facilmente identificável para aqueles que compartilhem experiências em comum.
“Mas a expressão dos nossos pensamentos pode sempre faltar à verdade, visto que podemos dizer uma coisa querendo significar outra”. Imaginem as várias coisas diferentes que acontecem quando dizemos uma coisa e queremos referir-nos a outra! – Façam a seguinte experiência: digam a frase “está calor neste quarto”, querendo dizer “está frio”. Observem atentamente o que fazem. (WITTGENSTEIN, p.81: sem data ‘b’).
Até os usos descolados de sua posição normal têm um certo limite, principalmente porque a linguagem tem que guardar alguma relação com usos costumeiros e com a comunicação empreendida. Os equívocos e as falhas de comunicação são ameaças que rondam os usos, que subvertem os padrões sem um aviso prévio.
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Igualmente exemplar é o uso de “coisa” para dar conta de vários vazios lingüísticos que possam acometer às pessoas que não pode ser apenas uma deficiência vocabular, mas no português existem modalidades variadas dos usos de “coisa”, como atesta a matéria da revista Língua Portuguesa n.12, Editora Segmento.
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Essa observação nos leva a outro aspecto da filosofia de Wittgenstein, que versa sobre uma das dimensões do uso prático da linguagem, os modos de vida. Se é o contexto de uso que dá o significado às expressões lingüísticas, é ele também que determina a experiência lingüística do indivíduo, apontando o seu grau de envolvimento e familiaridade com a matéria. “§ 241 “Assim, pois, você diz que o acordo entre os homens decide o que é correto e o que é falso?” – Correto e falso é o que os homens dizem; e na linguagem os homens estão de acordo. Não é um acordo sobre as opiniões, mas sobre o modo de vida” (WITTGENSTEIN, 1979).
A vida que recobre os jogos de linguagem teria um poder de predominância sobre a linguagem e os seus atributos lógicos. Os critérios de validade dos homens são baseados numa implicação fundamental que se liga à prática. A forma de vida, esta noção que mostra a necessidade de colocarmos um acento sobre a pontualidade dos usos, explicita o fato de que as nossas pretensões de recorrer a instrumentos que formalize a linguagem, para todas as situações, se tornam insustentável. Wittgenstein salienta sempre que não há nada de errado com o que as pessoas falam. Os problemas que por ventura possam daí decorrer, portanto, dizem respeito à discordância entre o que os homens dizem, e seu modo de vida regular. Os atritos entre os envolvidos que daí surjam mostram que os desacordos têm seu estopim quando a fala pronunciada no presente se choca com a história desse modo de vida. A recursividade dos jogos, que está inscrita na história individual e objetiva destes, cria práticas e juízos que têm um poder de acionar as pretensões de validade que um dado modo de vida pode suportar.
A assimilação de contextos seria o mesmo da fórmula marxiana que diz que o ser
social produz a consciência. No caso em questão, não estamos tratando exatamente de
“consciência” no sentido da filosofia da consciência, mas da relação prática com a linguagem e o mundo social. De qualquer maneira, a linguagem é a expressão de usos particularizados que formam a individualidade. Estamos nos jogos; expressamos nossos modos de vida.
Então, entender o “jogo de linguagem” da psicanálise ou qualquer outra organização sistemática de pensamento, por exemplo, é não apenas entender o uso de palavras, mas os conceitos de ordenações mais amplas que não se restringem às palavras e verbos. Os conceitos e as relações entre eles indicam que os profanos podem distinguir as palavras, mas o entendimento do que significam seus usos e as conclusões lógicas (e epistemológicas) que se podem extrair delas ficam muito difíceis. A incorporação de um jogo de linguagem é paulatina.
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A precisão “matemática” também não é algo que defina o que seja, para Wittgenstein, os jogos de linguagem. As demandas próprias e pontuais de cada situação são o que tiram as palavras de sua suposta imprecisão e as firmam para além das definições mais delineadas exigidas por professores de gramática. As pessoas não estão o tempo todo exigindo uma exatidão nos usos. Muitas vezes o que se precisa é uma simples alusão ao que se quer fazer ou referir. A recepção que poderia ser percebida como parcial e grosseria é esquecida em prol da praticidade que predomina nesses usos. “São muitas as palavras que não têm um significado preciso. Mas isto não é um defeito. Pensar o contrário seria como afirmar que a luz do meu candeeiro não é uma luz verdadeira porque não tem um limite bem definido”. (WITTGENSTEIN, p.61: sem data ‘b’).
Isso não se limita às palavras dentro dos jogos, mas também a própria noção de jogo. Nem as palavras nem os jogos, através dos quais as palavras ganham sentido, têm em Wittgenstein, uma delimitação precisa. A noção mesma de jogo poderia suscitar que a unidade básica da investigação do filósofo deveria ter pelo menos uma delimitação de por onde começá-la. Mas o que Wittgenstein quer não é um conceito científico fechado e exato, mas, se lhe for imputável alguma idéia sobre essa noção, é a generalidade dos jogos e, conseqüentemente, a indefinição que daí decorre.
§ 70 “Mas seu conceito ‘jogo’ é deste modo não delimitado, então você não sabe propriamente o que você quer dizer com ‘jogo’.” – Se eu der a descrição: “O solo estava inteiramente coberto de plantas”, - você dirá que eu não sei do que falo enquanto eu não puder dar uma definição de planta?
Uma explicação daquilo que eu quero dizer seria um desenho e as palavras “O solo tinha mais ou menos esta aparência”. Eu diria talvez: “Ele tinha exatamente esta aparência”. Pois bem, estavam lá exatamente esta grama e estas folhas, nesta posição? Não, não é assim. E Neste sentido eu não identificaria nenhuma imagem como sendo a exata. (WITTGENSTEIN, 1979)
§ 71 Pode-se dizer o conceito ‘jogo’ é um conceito com contornos imprecisos. – “Mas, um conceito impreciso é realmente um conceito?” – Uma fotografia pouco nítida é realmente a imagem de uma pessoa? Sim, pode-se substituir com vantagem uma imagem pouco nítida por uma nítida? Não é a imagem pouco nítida justamente aquela de que com freqüência precisamos? (ibidem)
A vagueza dos usos práticos é reconhecida por Wittgenstein sendo uma característica comunicativa analisada pela pragmática lingüística. Wittgenstein insiste que não quer precisar
132 o que diz com o termo jogo. E como postura que ele julga ser a filosofia possível, não acha digno nem possível encontrar “o” jogo de linguagem. Não há uma essência extramundana para os jogos. A conformação prática, que são as formas que esses jogos são encontrados, é o único critério para identificarmos sua validez social. A ocorrência de jogos, que não precisam ser exatos, como bem nota Wittgenstein, mostra que, no uso da linguagem, se está mais preocupado em atender as reivindicações urgentes do uso regular e cotidiano do que a evocação transcendental de entidades que sustentem idealmente o que se quer comunicar. A preocupação contra a vagueza e imprecisão da linguagem, na primeira fase de sua obra, é aqui claramente substituída pela observância do uso efetivo que está ancorado pelas demandas ordinárias da comunicação. Assim, para o filósofo, o que ele considera “jogo” equivale ao
locus de aplicação da linguagem, da assimilação e exercício lingüístico, que pode prescindir
da presença física de alguém, mas que supõe a presença de um interlocutor, mesmo que virtual (conversar consigo mesmo, por exemplo); a coordenação entre falantes ocasionais ou usuais que convergem suas intenções um ao outro gerando um jogo coletivo.
A cada palavra corresponde um uso socialmente marcado. Podemos mesmo visualizar uma palavra como um núcleo do qual se distribui para a sua periferia vários raios que indicam usos que não coincidem à sua aplicação contextual unitária. A “gramática social” de palavra é que lhe confere um potencial não imediatamente discernível que se tem de experimentar em cada caso. Isso não quer dizer que haja formas obrigatórias, mas que algumas marcas de construção lingüística devem ser respeitadas. É um uso no jogo de linguagem conhecido que elimina de antemão as milhares de variantes que uma palavra qualquer teria e os usos que ela se prestaria.
Se examinarmos a gramática, por exemplo, das palavras “desejo”, “pensamento”, “compreensão”, “significação”, não ficaremos descontentes quando tivermos descrito vários casos de desejo, pensamento, etc. Se alguém nos disser “não é só a isto, com toda a certeza, que chamamos ‘desejo’”, responderemos “de fato não, mas pode, se quiser, construir casos mais complicados”. E, no fim das contas, não existe uma categoria definida de características que seja aplicável a todos os casos de desejo (pelo menos no sentido em que a palavra é habitualmente utilizada). Se, por outro lado, pretendem dar uma definição de desejo, isto é, estabelecer um limite nítido, para o uso da palavra então são livres de o fazerem como quiserem; mas este limite nunca será inteiramente coincidente com o uso real, visto que este uso não tem um limite nítido. (WITTGENSTEIN, p.50: sem data ‘b’).
Há usos regulares prescritos pela tradição; mas há também o contexto de uso, que dá, às palavras, sentido; e que mesmo a noção de jogo não tem uma precisão unívoca, já que todo jogo de organiza diferentemente, então a linguagem e suas relações, nesse sentido prático, não
133 são passíveis de críticas quanto ao seu aspecto pragmático de uso. Porém, o caráter público da linguagem deve ser respeitado para que haja entendimento. Os equívocos acontecem quando a intenção subjetiva não coincide com a representação pública que a palavra possui.
Outro aspecto é que os jogos de linguagem são irredutíveis; que não podemos condenar as práticas dos povos e pessoas porque não participamos dos seus jogos e, por isso, não podemos entender as suas razões. Esse argumento, que pode ser encontrado nas visões ultra-relativistas, partem dessas idéias de Wittgenstein sobre a linguagem. Mas é o mesmo Wittgenstein que diz que a linguagem não é uma paragem fixa. Os jogos, apesar de não terem um prazo de validade definido, se transformam com o tempo, já que neles está contida a dimensão da historicidade, e não uma linguagem que surgiu desde o primeiro momento acabada e pronta para o uso. Ou seja, os jogos de linguagem têm sua dinâmica.
Tal como a vida, os jogos de linguagem nascem e morrem. Novos jogos surgem com novas formas de vida. Veja o exemplo dos novos termos criados para a informática. A necessidade nasce de maneira mais explícita nos usos especializados. O dinamismo da vida também aperfeiçoa usos antigos, remodelando-os. Não é necessário enumerar as transformações das expressões de modo de vida no decurso da história. Basta sabermos que a linguagem só muda porque a vida muda. As duas, diria-se, correm paralelamente e se encontram.
Considerar que a linguagem existe por meio desses milhares de jogos é ter em perspectiva que a parcela dela que está em nós é o resultado dos nossos encontros com as