1. Innledning
1.5 Om kildene
1.5.3 Intervju
A repressão sexual assumiu para Foucault112 a forma de uma proliferação dos discursos sobre a sexualidade, por meio de todas as incitações às práticas através dos dispositivos da aliança e da sexualidade. Ao defender que a repressão se fez muito mais na incitação à palavra do que na proibição propriamente dita – “nunca se falou tanto de sexualidade” –, em uma entrevista posterior113 ele reconhece o uso de uma estratégia discursiva que o eximia da pecha de historiador melancólico produtor de histórias bipolares como a loucura e o enclausuramento ou a delinqüência e seu aprisionamento. O que lhe interessava, tal como a Lacan, a Bourdieu e a tantos outros, cada um à sua maneira e de acordo com a verdade de suas diferentes visões de mundo, era questionar essa verdade, fazer estremecer os discursos “verdadeiros” da ciência, tal como eram produzidos na psiquiatria e na medicina, e encontrar em outro lugar a verdade sobre o saber e sobre a loucura.
Além disso, a argumentação foucaultiana tentava responder a uma interpretação marxista que tendia a simplificar um processo complexo e organizado de repressão como incitação aos discursos por meio de uma rede infinita de controles – os dispositivos da aliança e da sexualidade – em uma forma univocamente linear de repressão sexual direta, pela acumulação capitalista, cuja força de trabalho sofreria as conseqüências de seu efeito repressor, desviada do prazer para as funções da reprodução.
O que Foucault identificou foi exatamente o funcionamento de uma forma sutil de repressão que visou a família, naquilo que chamou de técnicas polimorfas de poder, presentes diuturnamente no fato discursivo global que não apenas colocava o sexo em discurso mas dispunha como deveria funcionar o regime de poder-saber-prazer. Não se tratava de dizer sim ou não ao sexo, interditá-lo ou proibi-lo, situá-lo numa problemática do valor, mas compreender quais os efeitos do que sobre ele se fala, a partir de que lugar e de que fonte, quais instituições estão autorizadas a fazê-lo, para ao mesmo tempo concentrar e difundir esse fato discursivo global de que o sexo é objeto. O prazer cotidiano via-se então codificado pelo poder na forma da negação e da desqualificação do sexo, e simultaneamente por sua incitação através da multiplicidade dos discursos que o controlavam.
112 M. FOUCAULT. A História da Sexualidade, v. 1, 2001.
A colocação do sexo em discurso, para além das recusas e proibições, é uma contraparte das técnicas de poder e da vontade de saber que a partir do século XVI não cessou de se fazer ouvir, de forma codificada é certo, por alusões e metáforas, mas de modo obstinado, em todas as instâncias de poder, que se ocupavam do sexo enquanto discurso, controlando o que e como dele poderia ser falado, matizando as tintas de sua retórica.
O policiamento do sexo se tornava necessário no momento que a população surgia como problema econômico e político. Mas também, senão precisamente, moral. Fala-se o tempo todo de sexo, nos manuais de pedagogia dos séculos XVII e XVIII, nos manuais de comportamento do século XIX. Fala-se de outra maneira, discreta e indiretamente, mas de forma alguma o sexo é encerrado no mutismo. Todo o jogo de disposições arquitetônicas e espaciais mantêm a vigilância em alerta: os espaços de trabalho, de recreação e de estudos, os compartimentos e os dormitórios eram arranjados de tal modo que o sexo dos rapazes nos colégios e nos internatos passasse a ser um problema público, submetido à vigilância de médicos, professores, pedagogos, num primeiro momento. Os livros médico-edificantes começavam a cumprir seu papel de vigilante da sexualidade, com suas exortações e incitações à moral. A transferência dessa vigilância para a família não se fez sem sustos, que se acomodaram com a interpelação aos saberes da psicanálise.
Foucault não se detém particularmente nos diferentes modos como a repressão se exerce e produz seus efeitos sobre homens e mulheres, moças e rapazes. A reconstituição da história das mulheres se faz quase que totalmente a partir da negação: sua ausência dos arquivos públicos, sua inexistência no sistema de aprendizagem formal, sua distância dos espaços externos. A memória das mulheres é do privado, do familiar e do íntimo. Tem-se que buscar a vida no claustro, a vida nos sobrados fechados, a circulação sozinha pelos espaços da rua restrita às escravas, a aprendizagem no espaço da casa, o aprisionamento e a vigilância dos pais, a influência religiosa se exercendo por meio dos diretores de consciência, os médicos substituindo pouco a pouco os confessores, os psicólogos substituindo os médicos, pela popularização dos conhecimentos freudianos que através dos meios de difusão da psicanálise substituíram os manuais pedagógicos instituía modelos de comportamento. É verdade que por uma via progressivamente mais reflexiva, transitando de um ideal moral-religioso para o estético, conforme assinala Santos.114
O silêncio das mulheres e sobre as mulheres pertence à mesma ordem paradoxal que Foucault atribui à sexualidade, sobre a qual se produziram tantos discursos. Da mesma forma, nunca se falou tanto das mulheres – os discursos patrístico, filosófico, medieval, iluminista, positivista, estruturalista, o discurso desconstrucionista, todo ele produzido em sua essência por homens. De certo modo, inexplicavelmente todos esses discursos a colocaram em uma situação de enigma. Mas o enigma que começou a assediar as mulheres que começaram a ouvir o que sobre elas se dizia e a produzir seus próprios discursos sobre si mesmas era o do seu próprio sexo, o do saber sobre o seu sexo, e do saber sobre o saber. É, enfim o enigma de ter estado por tanto tempo alienada do dispositivo que Foucault chamou de poder-saber-prazer.
Para Foucault, os dispositivos da sexualidade e os de aliança (Figura 13) reforçam-se reciprocamente. O investimento da sexualidade na família, a qual dirigiu às instituições médicas e pedagógicas seu pedido de ajuda em forma de uma ordenação e uma regulação, também demandou a intervenção de uma ciência como a psicanálise, tendo em vista a mútua implicação entre a lei e o desejo. Das profundezas do inconsciente, a ciência freudiana instaurou o desejo, metonímico em relação ao desejo primordial. Na direção oposta, a interdição mesma desse desejo se deu pela força da Lei do pai, através da proibição do incesto. Foi nesse quadro de influências recíprocas e que poderíamos chamar de equilíbrio instável que o processo de histerização das mulheres encontrou lugar.