É fato que todo o percurso histórico e todo o construto cultural dos países que compõem a América Latina têm repercussões significativas no modo como os sujeitos latinoamericanos concebem a sua imagem e a imagem que formam do seu mundo no tocante as suas representações. E a imagem que se tem da latinidade se constitui ao certo em torno à identidade cultural, vista como elementar na constituição da reflexão latinoamericana em torno de seu próprio ser, fazendo nascer, no discurso de latinos da América, um Ethos específico de pertencimento àquela nação.
Falar de “nação latinoamericana” é, no contexto da contemporaneidade, falar de uma nação que se impõe no cenário da modernidade de modo muito altivo. Quando nos reportamos à identidade latinoamericana em se tratando de um traço que se constrói por vias culturais, estamos falando de um processo ainda em desenvolvimento e marcado pela construção de um modo específico de ser latino desde o ponto de vista cultural, histórico político, ou seja, desde um ponto de vista social.
Dada a pluralidade histórica e social latinoamericana, hoje o que podemos perceber é uma nação tão ampla e tão marcadamente plural que, em proporções continentais, em sua mentalidade, a noção de sujeito na concepção tradicional, de indivíduo particularizado, perde esta acepção primeira, saindo de uma esfera centralizada no “eu”, desestabilizando o sentimento de identidade e existência próprias, em direção a um ato de identificação que se dá através da assimilação de traços de grupo, o que se constata na formação de essências identitárias de grupos mediadas por questões culturais e inevitavelmente ideológicas.
Desta dinâmica da constituição do sujeito resulta a problemática de reconhecimento do outro, resultado da força das ideologias de grupo em direção à constituição de uma identidade no contexto da modernidade, uma identidade ao que tudo indica de caráter coletivo. Esta problemática se constitui no âmbito da alteridade na medida em que os sujeitos, ao se constituírem como tal, atravessam um processo de compreensão de si e do outro, na dialética das relações sociais constituídas via interação linguística.
Logo, as relações sujeito - sujeito, sujeito – sujeitos/grupos, sujeitos/grupos - sujeitos se alicerçam no que se compreende como “outro”, como a condição de “ser o outro”
dentro de dado ponto de referência, seja ela discursiva ou política. Em se tratando da mentalidade latinoamericana de modo específico, o que se constitui ao longo da história são sujeitos e grupos modernos, crivados por sua história e por sua cultura, inevitavelmente inseridos na história de um território construído em torno de uma visão ampla de cultura e sociedade, sociedade essa marcada por valores seus, essencialmente importante na configuração identitária que lhe confere ares de moderna, de contemporânea.
Nesta dinâmica de compreender a si mediante seu mundo e o mundo do outro, e mediante o próprio “outro”, a mentalidade latinoamericana se vale de polarizações ideológicas centradas na ideia de grupos (“nós” versus “eles”) manifestas no discurso para aclarar a bifurcação de uma consciência de que pelos outros e na visão de mundo que deles temos nos constituímos como sujeitos. Além do mais, sabe-se que é essencialmente nas relações que mantemos com os outros que nos fazemos sujeitos crivados por nossa história e por nossas ideologias.
Deste modo, a condição de ser latino se constrói diretamente na dialética através da qual se tenta compreender o outro com quem interagimos, em ideias ou expressões. Em se tratando da constituição dos sujeitos latinoamericanos em específico, pensar-se como tal significa certamente optar por ser autêntico, uno, diferente até mesmo dos que, de uma maneira ou de outra, fizeram parte de sua constituição histórica. Trata-se de se constituir como na difusão de culturas múltiplas, de culturas híbridas.
Pensar-se latino, deste modo, significa constituir-se, a sua maneira, como um sujeito caracterizado pela heterogeneidade étnica e cultural, muitas vezes marcando-se pela mudança da relação identitária como sujeito e passando a se constituir como sujeito de grupo, evidenciando um novo modo de se ver como ser no mundo, na dinâmica da constituição de novas subjetividades.
Se há de se falar em um princípio que modele a cultura latinoamericana e a identidade que por ela se constrói, podemos pensar em um duplo paradigma (GUIRIN, 2007), no qual os fatores extrínsecos se recombinam com o fim de reconstruir um novo modelo de civilização. Deste modo, a carência de sentido de uma identidade própria que marca os sujeitos modernos, a inexistência de um sujeito que se reconheça como tal e a falta de referência de um ponto anterior são aspectos característicos da construção identitária e cultural latinoamericana.
Deste modo, sabe-se que muito do que compreendemos por “ser latinoamericano” está relacionado ao modo que o sujeito em si se vê neste mundo plural que é a América Latina, circunscrita na dinâmica da constituição de grupos ideológicos. Assim, muito do que os sujeitos tomam como base para a sua representação no mundo está relacionado ao modo que este complexo de culturas interrelacionadas, constituídas no bojo de uma Interculturalidade, se sobrepõem à vida de sujeitos e ao funcionamento de grupos. O que significa, então, viver essa Interculturalidade?
2.1.2. Interculturalidade e Hibridação Cultural na América Latina