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In document Rockheim : prosjektkultur (sider 45-57)

O’Gorman (1992) postula como falácia e refuta a ideia que explica o aparecimento da AL como resultado do seu descobrimento. Muito do que se pensou sobre a história do aparecimento e da estrutura do “Novo Mundo” perpassa mitos e fatos verídicos em torno à figura histórica, além de simbólica, de Colombo em seu projeto de desbravamento de terras na expansão marítima pelo mundo em que empreendeu.

Versões postas e reformuladas sobre o aparecimento e a constituição deste Novo Mundo como ser de sua própria história compuseram um rico quadro de relatos que visitam e revisitam a cada visão muito do passado cultural dos povos de cultura latina. De todo, um misto de fantasia e veracidade marcou esse momento da história, a começar pelo relato popular que dava conta de que um piloto anônimo, cuja embarcação havia sido lançada ao litoral das novas terras por tempestades, havia fornecido informações a Colombo sobre o achado, o que o havia motivado a pensar em explorar tais terras, ainda desconhecidas. Este

relato parte de Bartolomeu de las Casas, testemunha mais próxima do fato (O’GORMAN, 1992).

Deste modo, questionou-se sobre quem de fato teria sido o primeiro a estar nas novas terras, se Colombo ou se o suposto piloto anônimo, perpassando ainda a ideia de que a América havia sido descoberta por desígnios divinos, argumento sustentado por muitos durante anos, até que uma então segunda hipótese, a que se conhece como verídica até nossos dias, foi postulada.

Tal hipótese dá conta de que a chegada de Colombo à América, por denominação de Índias, na verdade se deu por um motivo “imprevisível”, haja vista que, diante das condições de exploração de novas terras àquela época, em se tratando de questões geográficas e de patrocínio das grandes viagens por autoridades europeias, é quase improvável que alguém, como o suposto piloto anônimo, tenha chegado às novas terras como afirma a lenda. Mais provável seja que Colombo, com espírito desbravador e audaz, tenha tido ciência das novas terras por leituras que fez de possíveis relatos deste Novo Mundo em registros documentais diversos.

Em termos gerais, é nessa teoria que se apoia Antonio de Herrera y Tordesillas, conhecido na historiografia portuguesa como Antonio de Herrera, importante cronista e biógrafo espanhol, autor de Historia General de los Hechos de los Castellanos en las Islas y

Tierra Firme del Mar Océano (O’ GORMAN, 1992), obra inúmeras vezes editada e traduzida para várias línguas que se manteve até finais do século XIX como uma das fontes principais da história da conquista castelhana das Américas. Nesta obra, Herrera afirma que, sem ao certo explicar como nem por que, Colombo se convenceu de que haveria, em sua viagem, de chegar a uma Nova Terra, sem certeza de que terra seria essa, certamente levado pelo espírito de desbravador que possuía.

Em um segundo momento, historiadores como Martín Fernández Navarrete, escritor e historiador espanhol, passaram a postular que a grandeza do projeto de Colombo consistiu não nas ideias que a inspiraram, o que tira de foco as discussões em torno de como Colombo chegou ao Novo Mundo (O’ GORMAN, 1992), mas sim na ousadia de buscar o caminho para as Índias pelo rumo do Ocidente. Navarrete afirma que, até sua morte, Colombo acreditava que as terras por ele encontradas pertenciam à Ásia. O estudioso afirma ainda ser

Colombo o descobridor da América na medida em que foi ele quem deu a conhecer, através de sua exploração, o Novo Mundo.

A problemática do descobrimento do “ser” da América ultrapassa os limites históricos e chega a se constituir como um elemento do traço identitário deste território, que, na tese de O’Gorman (1992), não teria sido “descoberto” nos limites semânticos que o termo propõe, mas sim “inventado”, dado seu caráter híbrido de constituição. Falar de Invenção neste sentido significa olhar para a história de um continente inteiro como a América de uma maneira dinâmica e, mais uma vez, pluridimensional. Este modo de abordar a América em seu construto histórico revela um horizonte cultural que apresenta muito do que hoje concebemos por certo como América Latina.

Levando em conta que a primeira visão de mundo, antes de Colombo, era essencialmente teocêntrica, tendo como referência a ideia de Mundo como criação de um Deus onipotente, o “centro de tudo”, muitas das questões em torno ao formato da Terra, por exemplo, ganharam dimensões folclóricas, fantásticas até, o que acabou por muitas vezes intervindo no processo de desbravamento e descobertas dos territórios não só das Américas, e da América Latina em particular, dada sua múltipla posição geográfica.

Nessa direção, muitos foram os mitos sobre o que haveria para além-mar, se a Terra seria redonda ou quadrada, referente às investigações de Nicolau Copérnico e Galileu Galilei sobre o formato do planeta, e muitos deles se reportavam à antiga imagem insular do globo terrestre, acreditando na hipótese do mundo visto como uma ilha durante muito tempo tida como verdadeira entre religiosos da época, por exemplo.

Não obstante, sabe-se que a visão que o sujeito tem de seu mundo depende, diretamente, da ideia que ele tem de si mesmo, o que pode concebê-lo a sua imagem e semelhança, o que nos leva a afirmar que o homem latino contemporâneo tende a formar para si muito das múltiplas imagens que tem de sua terra em dimensões históricas e sociais. Seria, desde modo, o americano, em sua identidade, um reflexo da essência da América, e o latinoamericano o resultado de uma América Latina que se define em essência pela sua constituição histórica e pelas mais diversas facetas culturais que adquiriu ao longo de sua formação étnica.

Avançados os estudos historiográficos, sabe-se que o projeto apresentado por Colombo aos reis da Espanha não se refere à América de hoje, mas de um construto que se fez mediante as suas descobertas. Logo, somente no final do século XV o sentido das terras achadas por Colombo passa por uma prova com a expedição de Américo Vespúcio.

No entanto, para fins de comprovação, as duas expedições, tanto a de Colombo como a de Vespúcio, foram quase idênticas, destacando-se a diferença de que Vespúcio solidificou em seu discurso a ideia de Novo Mundo para as porções de terras descobertas, tendo depois abandonado esta concepção.

A quarta parte do Mundo, pensada por Vespúcio (as outras três seriam Europa, Ásia e África), haveria então de ser denominada Terra de Américo ou, melhor, América, por questões de paralelismo, já que Europa, Ásia e África eram nomes femininos, sendo esta, segundo O’Gorman (1992), a sistematização do processo pelo qual se deu a Invenção da América, sendo referido continente um ser “não certamente visto como o resultado da súbita revelação de um descobrimento que tivesse exibido, de um golpe, um suposto ser misteriosamente abrigado, desde sempre e para sempre, nas terras que Colombo achou” (p. 178).

Nesta conjuntura histórica, fica claro de modo muito forte na constituição de uma representação identitária das terras americanas que não foi por acaso que a América surgiu na história como o território do futuro e da liberdade, como muitas a veem hoje, dando ao continente a ideia de pluralidade cultural como fenômeno formador de sua essência, extrapolando os limites geográficos, o que faz da América um construto, um ser “inventado” sob a ideia de “continente” e de “Novo Mundo”.

E hoje, o que se vê como desdobramento de tais questões é uma multiplicação deste continente, com o surgimento de Américas, a latina e a anglo-saxônica. Mas é da América Latina que nasce o homem latino da Nova América, berço de cosmovisões e culturas autênticas e diversas, desde sua base indígena até a formação de grupos étnicos os mais distintos, fazendo do homem latino, do homem latinoamericano um ser não desejoso de pertencer tão somente à “relegada” quarta parte do mundo contemporâneo, um tanto quanto à exclusa, ou mesmo de pertencer a um mundo novo. Trata-se de um sujeito em busca de identidade em seu sentido mais amplo, o de sentir-se parte de algo, ser idêntico, identificar-se.

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