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10. Appendiks

10.3 Transkriberte intervjuer

10.3.1 Intervju Håkon

Frente aos dados levantados sobre a Conferência Rio-92, podemos dizer que estes são realmente muito expressivos, pois representam um momento em que o mundo civilizado parou para discutir o estado da situação ambiental e o que poderia ser feito em relação aos problemas ambientais e socioeconômicos globais existentes.

Segundo Lago (2006, p.53), a Rio-92 mostrou que vinte anos depois de Estocolmo, a questão do meio ambiente “havia se tornado suficientemente importante na agenda internacional para justificar o deslocamento de um número inédito de Chefes de Estado e de Governo para uma única reunião”. Para o autor, o fato de o encontro ser realizado no Brasil, um país em desenvolvimento, “marca uma sensível diferença com relação a 1972” e indica que “o tema não era mais considerado um ‘luxo’ de países ricos” e, sim, uma questão que exigia um engajamento coletivo da comunidade internacional.

Se por um lado via-se a questão ambiental sob uma ótica e uma importância até então nunca vistas, por outro lado, conforme aponta o autor, os interesses entre os países presentes, no que dizia respeito às questões ambientais – desenvolvimento econômico x sustentabilidade ambiental – não estavam na mesma pauta, pois, de fato, “os objetivos dos países em desenvolvimento e os dos países desenvolvidos continuavam, no entanto, sensivelmente diferentes” (LAGO, 2006, p.53).

Para Lago (2006, p.53-54), a Conferência de 1992 trouxe para o cenário mundial o clima do final dos anos de 1980 e início dos anos de 1990, marcado pelo encerramento do conflito latente entre as duas superpotências – Estados Unidos e ex-União Soviética – que até então havia influenciado negativamente as relações internacionais por quase quatro décadas, sendo a opinião do autor que, naquele momento, a humanidade recuperava o interesse pelos direitos humanos e a proteção ambiental.

Via-se naquele período, de acordo com o autor, o “enriquecimento do debate em torno da questão do meio ambiente nas duas décadas entre Estocolmo e o Rio de Janeiro”, coisa que acontecia em todos os níveis – governos, instituições, setor empresarial, acadêmico e científico (LAGO, 2006, p.54-55). O autor aponta, também, que o aumento do número de países com sistemas democráticos, que havia crescido de 24,6% para 45,4% entre 1973 e 1990

favoreceu a discussão dos chamados “novos temas” – além de meio ambiente, direitos humanos, narcotráfico e diferentes tipos de discriminação – nos níveis comunitário, regional e nacional em países em desenvolvimento. Estes temas, provenientes muitas vezes da agenda internacional, e introduzidos de maneira parcial e “de cima para baixo” na agenda interna, passaram a ser discutidos “de baixo para cima”, graças à maior participação da sociedade civil nos planos político, social e econômico. Assim, o meio ambiente conquistou, progressivamente, maior legitimidade nos países em desenvolvimento (LAGO, 2006, p.55).

Na perspectiva do autor, saíamos de um estado que privilegiava o progresso à custa do domínio da natureza pelo homem, para um estado de sustentabilidade, num entendimento de que o “equilíbrio do meio ambiente não é incompatível com o progresso”, passando a aceitar que este equilíbrio torna-se uma nova alternativa ao crescimento econômico inconsequente (LAGO, 2006, p.55).

Fundamentalmente, a Rio-92 veio a confirmar o conceito de desenvolvimento

sustentável, que busca equilibrar ou conciliar os processos de desenvolvimento econômico e desenvolvimento social empreendidos no mundo com a consequente preservação e proteção dos

ecossistemas planetários. Para Lago (2006, p.56):

a noção de que o desenvolvimento sustentável se baseia em três pilares – o econômico, o social e o ambiental – favorece, nas discussões do Rio de Janeiro, tanto as prioridades dos países desenvolvidos, quanto aquelas dos países em desenvolvimento.

Para a Organização das Nações Unidas a Conferência da Cúpula da Terra na cidade do Rio de Janeiro em 1992, foi “sem precedentes” em todos os aspectos, tanto pelo tamanho (a

participação de governos e chefes de estado, as organizações não-governamentais, a imprensa e a sociedade civil), quanto por promover aos governos um novo olhar sobre o desenvolvimento econômico global, procurando “ajudar os governos a repensarem o desenvolvimento econômico e encontrar formas de deter a destruição dos recursos naturais insubstituíveis e a poluição do planeta” (ONU, 1992, tradução livre).

A mensagem da Cúpua da Terra foi a de que “nada menos do que uma transformação de nossas atitudes e comportamentos traria as mudanças necessárias” à situação ambiental plenatária, transmitida pelos nove mil jornalistas presentes e ouvida por milhões de pessoas em todo o planeta (ONU, 1992, tradução livre). Tal mensagem

reflete a complexidade dos problemas que enfrentamos: de que a pobreza, bem como o consumo excessivo por populações abastadas, podem colocar sob estresse prejudicial o meio ambiente (ONU, 1992, tradução livre).

Diante de tal situação, os governos reconheciam

a necessidade de reorientar os planos nacionais e internacionais e suas políticas para assegurar que todas as decisões econômicas levem em conta qualquer impacto ambiental (ONU, 1992, tradução livre).

Em síntese, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e o Desenvolvimento – a Rio-92 ou ECO-92 ou Cúpula da Terra – acabaria por influenciar todas as conferências subsequentes da ONU, especialmente por tornar ítem imprescindível à qualquer discussão sobre direitos e mudanças sociais, a problemática do desenvolvimento ambientalmente sustentável.

Para além do que destaca a ONU em relação às reverberações produzidas na Conferência Rio-92, trazemos a seguir alguns autores (SIQUEIRA, 1992; CORDANI, 1992; FERREIRA & FRANÇA JR, 2008), para esboçar, a partir de óticas diversas, os “ecos” que esta conferência trouxe em diferentes âmbitos, notadamente para a discussão sobre meio ambiente. No texto “Ecos da Eco”, Siqueira (1992, p.123), discorre sobre a dimensão que o evento tomou em relação à opinião pública, aos conflitos ambientais em discussão e à tomada de consciência sobre os problemas ambientais. Para ela, no Brasil, a luta ambiental definitivamente não seria mais a mesma.

Na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Riocentro e, principalmente, no Fórum Global das Organizações Não- Governamentais – ONGs, ocorrido no Aterro do Flamengo, a consciência sobre as causas da destruição da natureza no planeta adquiriu uma clareza

estarrecedora. Se, no Riocentro, reuniram-se cerca de 160 chefes de estado, o Fórum Global recebeu diariamente 35 mil pessoas (SIQUEIRA, 1992, p.123).

Segundo Siqueira (2006), para além de a conferência ter evidenciado os conflitos econômicos e políticos relativos aos interesses entre países ricos e os países pobres (desenvolvidos, em desenvolvimento e aqueles muito distantes disto), também deixou claro ao mundo a real situação ambiental do planeta.

Em “Ecos da Eco 92”, Cordani (1992) descreve as repercussões que a Conferência Rio-92 levaram à Reunião Anual da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, ocorrida em julho do mesmo ano. Nela, por meio de um workshop, produziu-se uma avaliação dos resultados da Rio-92, no qual diversas vozes foram ouvidas sobre o que havia acontecido de fato naquele evento. Para o autor, a Rio-92 representou

uma inflexão na história da humanidade, com a redefinição do direcionamento do desenvolvimento humano. Novos caminhos, em busca de um novo equilíbrio, que envolva uma situação de desenvolvimento sustentável, em bases eqüitativas para a humanidade (CORDANI, 1992, 97).

O autor observa que os temas em evidência na Conferência Rio-92 “já eram conhecidos”, ou seja, não eram necessariamente novidades para o mundo, porém, desde que estes problemas haviam sido apontados, lento foram seus enfrentamentos, o que permitiu que eles atingissem suma importância naquele momento em que o mundo se voltava para pensar soluções aos problemas detectados (CORDANI, 1992).

Para Cordani (1992), a temática havia sido trazida para a SPBC tanto pela importância do acontecimento como pelo fato de a entidade representar um segmento da sociedade brasileira intimamente ligado às questões referentes ao meio ambiente. De modo especial, ele afirma,

os cientistas têm um papel fundamental a exercer, porque a ciência e a tecnologia têm muito a ver com ambiente e desenvolvimento e porque as esperanças de atingir um mundo melhor residem em novos avanços do conhecimento, e nas adaptações que permitirão descobrir novos caminhos para o desenvolvimento, sustentável e ambientalmente sadio (1992, p.99- 100).

Cordani (1992, p.100-101), enfatiza a ideia de que os cientistas têm papel fundamental na “observação” e no “monitoramento” dos problemas ambientais que atingem todas as formas de vida no planeta, reconhecendo que esses intelectuais devem trabalhar coletivamente para a

obtenção de respostas satisfatórias e que a Rio-92 foi fundamental para que isto passasse a ocorrer no cenário global.

No trabalho “Os ecos da ECO na mídia...”, Ferreira & França Jr. (2008), trazem um levantamento sobre a recuperssão da Eco-92 e a inserção da temática ambiental na mídia jornalística impressa antes, durante e depois da realização da conferência. Os autores destacam que a conferência representou um “marco histórico” para o jornalismo especializado pelo número de reportagens que produziu, além de ter permitido a um público leigo tomar conhecimento das discussões e dos temas abordados.

Segundo eles, o número de jornalistas credenciados para cobrir o evento (cerca de nove mil) superou as expectativas da ONU, que havia previsto algo em torno de mil e quinhentos profissionais. Grandes redes de emissoras de TV, como a brasileira Globo, a norte-americana CNN, a alemã ZDF e a japonesa NKD entre outras, montaram estruturas para cobrir o evento, possibilitando a divulgação de notícias durante todo o período de realização (FERREIRA & FRANÇA JR., 2008, s/p).

Para Ferreira & França Jr. (2008, s/p), a participação dos profissionais que cobriram a conferência foi fundamental para fomentar o aumento no volume de reportagens temáticas sobre as questões ambientais, o que rendeu uma grande diversidade de publicações alusivas ao tema. Segundo eles, à medida que os jornais ampliavam significativamente as matérias diárias sobre o assunto em todos os cadernos, via-se nesse movimento a “importância que a ECO-92 teve para os meios de comunicação”.