4 Findings
4.2 Interviews and additional material
Para cumprir sua missão e alcançar os seus objetivos didáticos, as Ops da CAC utilizam uma metodologia de caráter transdisciplinar. A transdiciplinaridade é uma forma de conceber o conhecimento no qual o enfoque tem características pluralistas. Isto é, uma compreensão de construção do saber que leva em conta a articulação entre os diversos pontos de vista de mundo e da realidade.
Sabemos que a utilização da expressão transdisciplinaridade, bem como a sua assimilação com o âmbito pedagógico, tornou-se comum há pouco tempo. Apesar disso, a atitude transdisciplinar está presente no cotidiano humano, desde os seus primórdios. O termo foi utilizado primeiramente pelo educador Jean Piaget, durante o I seminário Internacional sobre Pluri e Interdisciplinaridade. Esse seminário aconteceu em 1970, na Universidade de Nice, e nele originalmente foi proposta uma reflexão sistematizada sobre o tema da transdisciplinariedade. A partir desta ocasião, uma série de pesquisas foram desenvolvidas em torno da utilização do termo, do seu significado e de sua relação com os processos educacionais.
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O I Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, marca também significativamente a evolução da compreensão de transdisciplinaridade. Esse congresso aconteceu na cidade de Arrábida em Portugal, no ano de 1994. O principal fruto deste congresso, foi a elaboração da Carta da transdisciplinaridade (Anexo 3), a qual:
Indica como reducionistas as tentativas de compreender o ser humano, a partir de meras definições ou por meio de sistemas formais.
Propõe um olhar aberto sobre as noções de definição e objetividade de forma a evitar a exclusão do sujeito e, por conseguinte, o empobrecimento do seu valor.
Valoriza a ética do diálogo e a prática da discussão, além de reconhecer como papel da educação transdisciplinar, a promoção da redescoberta da intuição, da sensibilidade, da imaginação e do respeito às diferenças.
O termo transdisciplinaridade tornou-se bastante popular, a partir da abordagem do filósofo, sociólogo e epistemólogo Edgar Morin. Em suas principais obras, Morin vai propor o diálogo entre as diversas ciências e disciplinas. Desta forma, transdiciplinaridade significa, em sua compreensão, a busca da construção de uma relação salutar entre os tipos de pensamento e modos de visão do mundo. Ela busca a unidade do conhecimento, além de estimular uma nova compreensão da realidade relacionando elementos dentro daquilo que o autor chama de complexidade.
Segundo Morin (2007), o pensamento simples, ou seja, aquele pensamento que se caracteriza pela segmentação não é necessariamente verdadeiro. O autor justifica essa compreensão a partir do processo de simplificação e pela tentativa de apropriação da realidade. Em contrapartida, o pensamento complexo é aquele que se identifica por ser profundo, amplo, interligado e, por conseguinte, mais próximo da realidade, pois tem seu fundamento na ordem, na clareza e na multiplicidade de possibilidades do conhecimento. Para Morin, as coisas existem isoladamente no cosmos, mas só é possível entendê-las em relação a alguma outra realidade, ou seja, sua compreensão só pode se dar por meio da sua contextualização.
Dessa forma, Morin convida a uma compreensão do homem que valorize a sua condição, enquanto pertencente a uma espécie (homo sapiens); a sua condição social
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(cidadão) e sua condição de indivíduo (sujeito). A complexidade é libertadora, pois estimula a criatividade, as artes, a visão política, a dimensão educacional e os aspectos éticos. No pensamento complexo as contradições são acolhidas, o preconceito é posto à prova, e o sujeito descobre o valor do diálogo entre pessoas, conhecimentos e realidades.
Uma educação transdisciplinar nasce da necessidade de investigar os novos paradigmas, desafios, transformações sociais, quebras de padrões, modelos reducionistas e fragmentações bastante comuns no século XIX, influenciado pelo pensamento Cartesiano29.
As OPs da CAC dispõem do apoio de uma equipe transdisciplinar composta pelos seguintes profissionais: oficineiro, psicólogo, assistente social, pedagogo e capelão30. Esses profissionais acompanham as OPs desde a construção de seu projeto pedagógico, passando pela execução da proposta até a avaliação dos resultados. O trabalho em conjunto desses profissionais31 dá o suporte necessário aos participantes, uma vez que esses são vistos como sujeitos distintos e com múltiplas necessidades. O esquema a seguir (Figura 6), ilustra a equipe transdisciplinar que compõe as oficinas.
29 A visão racionalista de Descartes defende a possibilidade de se encontrar uma verdade que seja absoluta e incontestável, porém no Sec. XX, principalmente no campo das ciências humanas, esta visão de conhecimento foi posta em xeque.
30 Como a CAC é uma instituição de inspiração religiosa (protestante) as unidade da CAC possuem um Pastor Capelão. Seu papel é o de acolher e dar assistência espiritual.
31 Ressalta-se aqui que a Capelânia é um serviço destinado ao atendimento espiritual às pessoas, seja em hospitais, em penitenciárias, em escolas, em casas de recuperação ou outras instituições de inspiração religiosa. Não se trata de nenhuma proposta de conversão, doutrinação ou catequese em favor de alguma religião em particular, mas do serviço voltado para o amparo fraterno, espiritual e humanitário. Desta forma, a assistência do capelão constitui-se uma exceção, pois não se enquadra em uma atividade profissional, mas sim religiosa.
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Figura 6. Equipe Transdisciplinar
Fonte: Elaboração própria
3.5 A Oficina de Panificação da Casa de Apoio: aspectos históricos, econômicos e sociais que motivaram sua construção.
Acreditamos que a elucidação dos aspectos históricos, econômicos e sociais que motivaram a construção da Oficina de Panificação (OP) pode servir de instrumento para também compreendermos a grande extensão desse projeto da CAC. Ressaltamos que através dessa oficina, já foram beneficiados mais de 400 jovens32, muitos desses, também foram inseridos no mercado de trabalho e por meio da formação humana, despertaram-se para o seu papel na transformação social como cidadãos.
Tais motivações possuem sua origem intrínseca e extrínseca à CAC. Do ponto de vista intrínseco, podemos apontar o desejo da CAC de desenvolver um projeto voltado para os jovens em condição de vulnerabilidade social, isto é, envolvidos com o tráfico, com o consumo de drogas, com gangues, com redes de prostituição infanto- juvenil e com ocorrências de roubo e violência. Dessa forma, a CAC se empenhou na
32 Fonte: site da CAC: www.casadeapoio.org.br
Participantes da oficina Oficineiro Voluntários Psicólogo Família Assistente Social Capelão Pedagogo
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busca de parceiros que pudessem ajudar financeiramente a concretização desse projeto e no estudo de estratégias sociais eficientes para atingir especificamente a população jovem33.
De acordo com a Vara da Infância e Adolescência de Belo Horizonte, 33% dos casos atendidos pelas unidades de educação de jovens em conflito com a lei em Minas Gerais são de adolescentes de Contagem. Desses, 70% são da região de Nova Contagem. Esses dados que apontam Nova Contagem como um local de risco para a vida dos jovens constitui o segundo ponto, considerado fator extrínseco e motivador para a implantação da Oficina de Panificação em Nova Contagem.