Concretizaremos nossa intenção, tendo como ponto de partida o ato II, parte I, cenas 2 e 3. Há duas personagens em cena: dom Alfonso e Lucrécia Borgia. Quando lemos, na didascália, o nome “Lucrécia Borgia”, a figura histórica se faz presente e, com ela, alguns referentes de conhecimento comum imediatamente são acionados em nossa mente: “a filha do papa”, “o incesto”, “a envenenadora”, “a mulher vingativa”, “a criminosa”. Ao mesmo tempo, sabemos que essas temáticas estão ligadas ao mito de Lucrécia Borgia e não obrigatoriamente à sua figura histórica. Decidimos por “arquivar” esses referentes para que eles não intervenham na leitura do drama. É fundamental não julgar as figuras históricas, os mitos e as personagens. É a trama do drama que nos mostrará a imbricação desses três aspectos – a figura histórica, o mito e a personagem. Os caracteres da personagem, traços físicos,
psicológicos ou morais, estão ligados à ação dramática.294 Revelam-se, também, através do discurso, da fala, sejam suas ou de outras personagens.295
Voltamos nosso olhar para o texto, deparamo-nos com a prosa – e não o verso296 –,
numa longa fala de Lucrécia, e indagamo-nos tanto sobre a prolixidade da personagem quanto sobre o vigor de suas palavras. O diálogo parece mais um monólogo. O tamanho da fala revela aspectos da relação que Lucrécia mantém com dom Alfonso. Mas antes, há a rubrica: “entrando com impetuosidade”. Ora, a personagem não estava em cena e quando ela entra, com ímpeto, já revela um estado de tensão. Ela move-se com energia, impulso necessário para a ação. Perturbada, Lucrécia queixa-se ferozmente para dom Alfonso, seu marido, de “alguém do povo” que acaba de “mutilar” seu nome. Ela aponta uma direção objetiva nascida da vontade contra uma determinada ação, ou melhor, contra que a praticou. As informações são passadas através da fala acusatória que contagia o ambiente como se estivesse em uma tribuna.297
A acusação é grave: alguém caluniou o ilustre nome, gravado na fachada do palácio, juntamente com os seus “brasões de família”. A dimensão da personagem se traduz na família e nos seus brasões: os Borgia. Lucrécia não admite a injúria, a desonra feita com seu nome e responsabiliza a “plebe de Ferrara” pelo acontecido. Estamos na Itália, em Ferrara, no início do século XVI. Arrogante, Lucrécia questiona dom Alfonso, reclama uma “reparação clamorosa” e “previne”, ou melhor, exige que ele faça justiça. Um ritmo intenso se impõe no momento em que ela se direciona ao duque Alfonso, e não lhe concede espaço para resposta. A personagem revela um caráter “melodramático”, expresso nas preferências entre morrer “rapidamente com um golpe de adaga” a “mil vezes com a picada envenenada do sarcasmo e das piadas”; e manifesto no protesto de que seu nome está sendo “arrastado pela sarjeta”. Lucrécia não se conforma com a situação e repudia o tratamento de estrangeira a ela dispensado em Ferrara. Queixa-se ao marido e, ao mesmo tempo, cobra-lhe uma postura, já que não o vê comovido com os ultrajes contra sua pessoa: “Porventura, essa lama que me cobre não vos enlameia também, dom Alfonso?”. As imagens da “sarjeta”, da “lama”, localizam seu nome no “baixo material”. Ao marido furiosamente interpelado e questionado, fecham-se todas as possibilidades de defesa.
294 Ver a Poética de Aristóteles, que diz serem os caracteres subordinados à ação. 295 Uma personagem é seguidamente apresentada e revelada pelas outras.
296 Ver a Comunicação de Claude Millet, “Poética do drama em prosa”, apresentada no Grupo Hugo, em
17/03/2007.
Mudando a tática, a fim de provocar a ação de dom Alfonso, Lucrécia lhe dirige um encadeamento de perguntas: “Sois apaixonado por mim? [...] Sois ciumento?”. Não há pausa, silêncio da parte dela ou escuta, somente a força progressiva da ação. Ela se prevalece, admoesta o marido lembrando-lhe os bens trazidos consigo pelo casamento: cidades, títulos, poder. Lucrécia o acusa de deixar o povo desprezar e escarnecer seu nome. A culpa, imputada ao esposo, decorre de permitir a Ferrara mostrar a toda a Europa sua “esposa mais desprezada e mais rebaixada que a servente dos criados dos [...] palafreneiros”.
Na situação em que se encontra, no ponto mais baixo da hierarquia, como afirma, percebemos que seu discurso está em dissonância com o tom imperativo usado, por exemplo, quando declara ao senhor duque: “eu quero que o crime de hoje seja investigado e notavelmente punido”. Também, quando ameaça se queixar ao papa ou a Valentino,298 que
com seus “quinze mil homens de guerra” a salvarão da desonra. Assim, revela-se Lucrécia, filha e irmã mimada, de cujo lado estão os poderes maiores: Estado e Igreja. Filha do papa, soberba, ao finalizar sua fala, mostra-se sarcástica: “e vejamos, agora, se vale à pena levantar- vos de vossa poltrona”.
Só então, dom Alfonso pronuncia: “Senhora, o crime do qual vos queixais me é conhecido” (II,I,2,f.2). A partir dessa réplica, trava-se um dinâmico diálogo entre os dois. As frases curtas contrastam com o pseudodiálogo anterior e sinalizam um acerto entre marido e mulher. O criminoso foi descoberto e preso. Ele não escapará à punição exemplar. Dom Alfonso diz: “Primeiro, eu quis ter vossa opinião sobre o castigo” (II,I,2,f.8). Ao qual ela dá o veredicto: “É preciso um exemplo, entendeis, senhor? É um crime de lesa-majestade. Esses crimes fazem cair a cabeça de quem os concebe e a mão de quem os executa” (II,I,2,f.11). Expressada a raiva, a desmedida transforma-se “hybris”.299 Lucrécia Borgia não se encontra
sob a vontade dos deuses gregos, no entanto, usamos a nomenclatura devido ao caráter do momento. Ela está cega, o desejo de vingança sobrepuja a razão. Antes de o prisioneiro entrar, Lucrécia pede ainda uma confirmação: “senhor, antes que entre o culpado. – Seja quem for esse homem, seja ele de vossa cidade, seja ele de vossa casa, dom Alfonso, dai-me vossa palavra, de duque coroado, que ele não sairá daqui vivo” (II,I,2,f.13).
“Eu vos dou. – Eu vos dou a minha palavra, entendestes bem, senhora?” (II,I,2,f.14), assegura dom Alfonso. O prisioneiro entra na cena 3, e Lucrécia o reconhece: “Gennaro”, diz ela à parte. Dom Alfonso aproxima-se da mulher, fala baixo e com um sorriso no rosto:
298 Referente ao título do irmão Cesar Borgia, duque de Valentino. 299 “Desmedida, violência”.
“Conheceis esse homem?” (II,I,2,f.2). À parte, ela responde: “É Gennaro! – Que fatalidade, Meu Deus!” (II,I,2,f.3). O aparte dirige-se ao espectador e é uma instância do eu da personagem e do eu de cada indivíduo do público. Ao lançar o foco e a frase diretamente às testemunhas da ação, ela está trazendo à consciência de todos, inclusive à sua, o seu erro, a falha trágica. Se na tragédia grega o erro trágico concerne, somente, ao erro de juízo, aqui no drama, não conseguimos separá-lo do erro moral. A situação que Lucrécia enfrenta é trágica.
Quando Lucrécia exclama “Que fatalidade”, ela refere-se às forças que conduziram àquele momento, portanto, ao destino. Ao reconhecer Gennaro e expressar contrariedade em relação à pena imposta, sobre a qual ela foi responsável, a duquesa Lucrécia muda deatitude e tenta até o fim da cena reverter a condenação. Lucrécia intercede por Gennaro, justifica-o e, sorrateiramente, a fim de não ser percebida por Alfonso, pede a Gennaro, em voz baixa, para que negue o crime. O marido vê, mas o jovem capitão (assim designado), como Aquiles, é um homem de palavra e revela seu caráter quando sustenta:
os pescadores da Calábria que me educaram e que me mergulharam ainda criança no mar para tornar-me forte e corajoso, ensinaram-me uma máxima, com a qual se pode arriscar seguidamente a vida, nunca a honra: – faze o que dizes, dize o que fazes. – Duque Alfonso, eu sou o homem que procurais (II,I,2,f,15).
Não havia como prever que seria Gennaro quem entraria por aquela porta. Na ação reveladora da contrariedade de Lucrécia, da situação que se apresenta, notamos que Gennaro é amado por aquela mulher que o condenou à morte. Essa cena marca a mudança da fortuna, da felicidade para a infelicidade. “Que sufoco aqui! Um pouco de ar! Um pouco de ar! Eu preciso respirar um pouco!” (II,I,2,f.13), expressa Lucrécia. Consequência da exclamação, ela se desloca em cena, em direção à janela, e tenta trocar uma palavra com Gennaro. O significado desse movimento ultrapassa a necessidade de Lucrécia estabelecer um diálogo com Gennaro, significa, pois, a busca pelo ar, simbolizado pela personagem do jovem capitão. Quem é Gennaro? O que de fato aconteceu? Devemos voltar para o início da peça, da ação no drama, a fim de obter as respostas. No caminho encontraremos a justificativa para a situação presente. Damos títulos aos temas abordados: “Brasões de família”; “O ilustre nome”; “A calúnia”; “A mutilação”; “A vingança”; “A intempestividade”; “A justiça”; “A filha do papa”; “A soberba”; “A honra”; “O rebaixamento”; “Sois apaixonado por mim”; “O criminoso”; “A punição exemplar”; “A condenação do ser amado”; “A fatalidade”.