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3. RESULTS

3.1.2 Current Systems, Preferences & Affordability

Amarelo

A análise de conteúdo de DVDs é distinta da análise de conteúdos televisivos devido a alguns motivos de ordem prática. O conteúdo, nesse formato, pode ser acessado quando e quantas vezes o espectador desejar, independentemente de

horários de programação televisiva.120 Além disso, não existem os cortes promovidos

pela inserção de intervalos comerciais, tampouco os ganchos de um capítulo para outro. Ainda temos o fato de que os DVDs contêm uma narrativa “mais enxuta” para caber nesse formato, havendo outra seleção de cenas, diferente do que acontece nos episódios diários. Dessa portabilidade também decorre que os conteúdos do DVD, pelo menos em parte, não se vinculam tão fortemente quanto o seriado televisivo, exibido diariamente, ao seu momento de produção, uma vez que as marcas temporais externas — comerciais, paratextos — sofrem um processo de exclusão. Nesse sentido, com vistas a uma maior atemporalidade dos conteúdos veiculados pelo DVD, por meio da seleção de cenas, também é possível que se promova certo apagamento das marcas temporais internas, no limite das possibilidades de articulação lógica do texto televisivo. Se, por um lado, a análise dos conteúdos veiculados por intermédio de DVDs oficialmente comercializados perde no quesito articulação do seriado com o seu contexto enunciativo, por outro — justamente pela seleção de episódios e das cenas — é revelador da imagem que se quer cristalizada, oficialmente, acerca do seriado. No caso específico do Sítio do Picapau Amarelo, os episódios comercializados em DVD foram exibidos na primeira temporada, ou seja, nos anos de 2001 e de 2002, e contam com títulos iguais ou próximos aos das obras-fonte: Viagem ao céu e No Reino das

Águas Claras (ambos em um mesmo DVD, no total de 252 minutos), Memórias de

Emília (98 minutos) e Caçadas de Pedrinho (110 minutos), O poço do Visconde (105 minutos) e O Saci (110 minutos). 121

Desse modo, tendo em vista que todos os episódios provêm da mesma temporada inicial da versão dos anos 2000 do Sítio, é necessário que, inicialmente, tracemos breves considerações sobre essa temporada. De acordo com o que consta no

site oficial da Rede Globo, na seção Memória Globo, a versão dos anos 2000 do seriado televisivo Sítio do Picapau Amarelo foi exibida entre 12 de outubro de 2001 e 07

120 Há que se considerar um possível impedimento na hipótese de os DVDs, futuramente, caírem em

desuso, substituídos por outra forma mais avançada tecnologicamente, como já ocorreu com as fitas VHS, por exemplo.

121 Essa temporada, como veremos a seguir, teve boa aceitação da crítica, inclusive dando conta de

incentivos de pais, educadores e até mesmo políticos para que as crianças assistissem ao programa. No entanto, com as modificações ocorridas e com o progressivo distanciamento dos enredos das obras-fonte, essa aprovação não foi mantida nas outras temporadas.

de dezembro de 2007.122 No primeiro ano, os episódios duravam 15 minutos e eram

exibidos dentro de um programa infantil matutino pré-existente, chamado Bambuluá, comandado pela apresentadora Angélica. Percebemos, a partir desse dado, que a introdução do Sítio aos olhos dos telespectadores infantis é atrelada a um programa já de sucesso. Tratava-se de uma inserção com procedimento similar ao que se dava, dentro do Bambuluá, com os desenhos animados e com uma novela também direcionada ao público infantil (intitulada Caça-talentos). As críticas da época dão conta da recepção positiva do seriado por parte dos espectadores, como registrou Ricardo Valadares, na edição de 05 de dezembro de 2001 da revista Veja, em artigo intitulado A

Cuca não pegou:123

Deu certo. Apesar do lançamento às pressas e das escolhas arriscadas, como a de entregar o complexo papel da boneca Emília a uma criança de 7 anos, a nova adaptação de Sítio do Picapau Amarelo para a televisão é um sucesso. Como diriam os netos de Dona Benta, é preciso ser ‘um grandessíssimo enjoado’ para

reclamar do programa exibido pela Globo, desde o dia 12 de outubro, nas

manhãs de segunda a sexta-feira. Os episódios mantêm-se fiéis ao espírito do

clássico infantil de Monteiro Lobato. Algumas liberdades, como a de equipar o

sítio com bugigangas modernas, não comprometem. Acima de tudo, os atores

têm rendido o necessário. Isabelle Drumond interpreta a contento a espevitada Emília e até Nicette Bruno está bem no papel de Dona Benta. Os acertos refletem-se na audiência, que aumentou no horário das 11h30 ao meio-dia. Passou de 9 para 17 pontos. Uma pesquisa da Rede Globo mostra que pais e

professores estimulam as crianças a assistir ao Sítio. (VALADARES, 2001, s/p,

grifos nossos)

As palavras de Valadares nos levam a três importantes reflexões sobre o processo de recepção dessa versão do Sítio: a de vozes silenciadas na crítica publicada em Veja, a questão da fidelidade e a do esforço de atualização do seriado às novidades tecnológicas.124 Quanto ao primeiro ponto, no trecho em que o texto afirma que “[...] é preciso ser ‘um grandessíssimo enjoado’ para reclamar do programa exibido pela Globo [...]”, a tentativa de negação não deixa de ser uma afirmação. Melhor explicando, essas palavras marcam, qualificam e, justamente por essa (des)qualificação,

122 Informações disponíveis em http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,GYN0-5273-

253941,00.html. Acesso em: 30 mai. 2012.

123 Disponível em: http://veja.abril.com.br/051201/p_159.html. Acesso em: 30 mai. 2012.

124 Além disso, também devemos registrar que um parecer positivo publicado em Veja repercute de forma

igualmente positiva junto à opinião pública, já que se trata de uma das revistas semanais mais influentes do país, formadora de opiniões.

censuram as vozes dissonantes em relação à ideia que o texto pretende defender. Essas vozes davam conta do choque entre adaptações, comparando a nova versão com a dos anos 1970/1980. Outros pontos do texto que levam essas vozes ao descrédito são os argumentos do aumento da audiência e do estímulo dado por pais e por professores para que as crianças assistam ao seriado. Além dessas autoridades na educação infantil, também vemos que o ato de assistir ao seriado é referendado por autoridades políticas, como registra notícia datada de 21 de outubro de 2011, veiculada pelo Portal de Notícias do Senado, intitulada “Simon parabeniza Rede Globo pela volta do ‘Sítio do Pica-Pau Amarelo’”:125

Ao parabenizar a Rede Globo pelo relançamento do seriado infantil Sítio do Pica- pau Amarelo , o senador Pedro Simon (PMDB-RS) afirmou que o programa é um marco na história da televisão brasileira. Ele lembrou que em algumas reuniões da subcomissão de Rádio e TV, da Comissão de Educação, muitos senadores se queixaram da retirada do Sítio do Pica-pau Amarelo da programação da emissora. Segundo Simon, em depoimento à subcomissão, o diretor da Globo Walter Avancini explicou que o Sítio do Pica-pau Amarelo foi retirado da programação da emissora por estar perdendo audiência para a concorrente, "que tinha no horário um programa de desenhos animados apresentado por uma loura bonita". Para voltar a recuperar pontos no Ibope, a Globo substituiu o Sítio pelo Xou da Xuxa, lembrou o senador. Na opinião de Simon, a Globo oferece uma demonstração de apreço e preocupação com o pensamento social ao trazer de volta à tela o Sítio do Pica-pau Amarelo. "Até então, o grande programa infantil que tínhamos era o Castelo Rá-tim-bum, exibido pela TV Cultura", comparou.

Desse modo, vemos que a exibição do seriado encontrou, em 2001, aliados entre vozes significativas na sociedade, conferindo-lhe credibilidade sempre aliada à sua vinculação com a obra literária de Monteiro Lobato e seu caráter educacional. Além disso, essa primeira temporada, por ser considerada fiel “ao espírito do clássico infantil de Monteiro Lobato” (VALADARES, 2001, s/p), como lemos no excerto de Veja, tem sua importância sublinhada. Outras vozes importantes no cenário da literatura no Brasil também vieram a público salientar essa “fidelidade”, como foi o caso de Ana Maria Machado, reconhecida autora, que, em artigo intitulado Fazer média fazer mídia, datado de 11 de novembro de 2001, publicado no site Observatório da Imprensa, afirma:126

125 Disponível em: http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2001/10/22/simon-parabeniza-rede-

globo-pela-volta-do-sitio-do-pica-pau-amarelo. Acesso em: 06 jun. 2012.

126 Disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br/news/showNews/asp14112001997.htm. Acesso

Antes de tudo, vale ressaltar: a série está muito boa e absolutamente fiel ao

original e ao espírito do autor. Parabéns a todos os envolvidos. As adaptações

existentes (como Dona Benta na internet) funcionam bem e fazem supor que Lobato aprovaria, já que sempre foi muito novidadeiro e fez questão de incluir contribuições do cinema (Shirley Temple, Tom Mix) e do desenho animado (Disney, Popeye, Gato Felix) em seu universo. Vai ser inevitável mexer em outras coisas – a consciência democrática de nosso tempo não suporta mais os elementos racistas que caracterizavam o Brasil de Lobato, ainda muito próximo da abjeção escravocrata.

Por outro lado, é uma maravilha constatar que, finalmente, o bom senso entra em cena e a Globo conseguiu dos herdeiros do escritor permissão para poder usar elementos do texto da obra – e não apenas seu contexto, como era o limite obrigatório antes. A versão anterior ficava proibida, por exemplo, de levar os personagens em viagem à Grécia Antiga como estava nos livros, tendo que trocá-la por Roma e substituir Péricles por César. Agora, não, está tudo na telinha,

até mesmo com alguns diálogos literais, em roteiro feito por quem tem amor e conhecimento do que faz – e muito mais liberdade do que seus predecessores.

No entanto, com toda essa força literária, a série não fica palavrosa. É que

aproveita muito bem a gama fecunda dos recursos especiais com que a televisão

conta hoje para criar o fundo do mar, trazer à cena estrelinhas cintilantes e

elementos gráficos e, sobretudo, para brincar com o tamanho. A dinâmica do movimento entre grande e pequeno sempre foi um dos elementos fundamentais daquilo que a Estação Primeira de Mangueira, no inesquecível 1967 em que foi campeã do carnaval carioca, chamou de ‘O Mundo Encantado de Monteiro Lobato.’ É uma delícia ter tudo isso agora em casa, ao alcance das crianças. Apenas um reparo: o horário podia ser mudado. Às 11:30, em cidades grandes, com trânsito difícil, muitos dos que estudam à tarde já estão saindo para a escola. Bom mesmo seria um pouquinho mais cedo, com reprise para os que vão à aula de manhã. (MACHADO, 2001, s/p, grifos nossos)

As palavras de Ana Maria Machado vêm ao encontro do que afirmam o senador Simon e o jornalista de Veja, Ricardo Valadares, no que diz respeito aos elogios à Rede Globo. Além disso, à semelhança do que também afirmou Valadares, a escritora refere- se à fidelidade às obras originais e “ao espírito do autor”. Outro ponto em comum com o que escreveu Valadares em Veja diz respeito às inovações tecnológicas, classificada como não comprometedoras pelo jornalista e, pela escritora, como coerente com os procedimentos de Lobato à época da enunciação da obra literária, uma vez que o próprio escritor era afeito a essas inovações e considerado por boa parte da crítica como um “visionário”. Essa coerência, aliás, é reiterada por outro estudioso de Monteiro Lobato, José Roberto Whitaker Penteado, que, em artigo datado de 14 de outubro de

2001, publicado originalmente no Jornal do Brasil, afirma estar “encantado por essa

nova e não menos reverente produção da Globo”.127

Assim, essas vozes acabam por, de certa forma, avalizar o seriado. Esses argumentos de autoridade apoiam-se em questões biográficas de Monteiro Lobato — mais especificamente, o espírito inovador e empreendedor —, ou na alusão à notoriedade e à aceitação do escritor por parte do grande público e pelo meio educacional e acadêmico. Em outras palavras, o seriado acaba, nesses discursos, sendo herdeiro das obras-fonte e das versões que o sucederam, especialmente no que tange à credibilidade e à aceitabilidade.

Qualificado dessa maneira, na esteira do sucesso junto ao público, é natural, pela lógica capitalista, que sejam lançados produtos derivados. É o caso dos DVDs cujos conteúdos passaremos a analisar em comparação às obras-fonte. Afinal, o mesmo estímulo criado para que as crianças assistissem aos episódios na televisão também autorizaria o consumo desses produtos.