Entre os diferentes modos de argumentar encontrados no conjunto de discursos antonistas, um dos mais recorrentes é o emprego do nome do infante D. Luís (1506- 1555). A primeira vista não é algo que desperte maiores atenções, afinal D. Antônio foi denominado como o filho do infante D. Luís porque era a condição necessária para defender a sua pretensão a coroa. Porém, uma observação mais detalhada revela-nos que o emprego do nome de D. Luís ia além dos direitos à coroa.
Nas elites municipais, nas quais o antonismo recebeu grande apoio, podemos perceber que um dos motivos para terem reconhecido a aclamação de D. Antônio residiu no respeito e no que representava a figura do infante D. Luís:
estes reinos inspirados da Graça divina o elegeram e alevantaram por Rei. E vendo nós como o dito Senhor, por ser filho do Infante D.Luiz, e neto d´El-Rei D.Manuel, de gloriosa memoria, e suas muitas virtudes tinha amor e obrigação a conservação e defensão destes reinos approvamos a dita deliberação, e o elegemos de novo por rei delles (...) pois parece que Deus nosso Senhor guardou este principe, e o livrou de tantos perigos para nosso remedio (...) em que Deus nosso Senhor quer mostrar muitos merecimentos do Infante D.Luiz, e usar comnosco de misericordia, de elegermos um tal principe para remedio das grandes necessidades em que estamos postos, em cuja ajuda e favor esperamos conservar a nobreza de Portugal111.
O emprego do nome do infante tinha uma autoridade capaz de superar o conjunto de leis do reino. Durante o julgamento sobre a legitimidade de D. Antônio, D. Francisco Pereira, procurador do prior do Crato, dirigiu-se ao rei nos seguintes termos:
Que elle não pertendia desculpar ao Senhor D. Antonio, mas que só lhe lembrava, que era filho do Infante D. Luiz seu irmão; e que (...) as virtudes do Infante D. Luiz tinhão sido tão heróicas, que só a sua memória era bastante para por Ella ElRey perdoar os erros de seu filho, ainda que tão mal aconselhado(...)112.
110 O título deste capítulo nasceu da seguinte passagem de uma obra oitocenista de DENIS, Fernando M.
Portugal pittoresco ou descripção historica d'este reino: ou descripção historica d'este reino. Vol.II
Lisboa: Typographia L.C. da Cunha, 1846. “Os portuguezes não poderão por muito tempo esquecer que D.Antônio representava o infante D.Luiz em que outrora se havião fundado tantas esperanças”, p. 315.
111 Carta da Câmara de Lisboa, para a da Vila da Praia sôbre a aclamação de D. Antônio. In: Livros dos
acórdãos da câmara da Vila da Praia – nos anais da Ilha Terceira, de Ferreira Drummond, Angra, 1850
apud. BAPTISTA, A.Virginio. Açores e o governo do rei D. Antonio, prior do Crato 1580-1583. Portucalense, 1932.
112 SOUSA, D. Antônio Caetano, História Genealógica da Casa Real Portuqueza. Tomo III. Coimbra:
58 Relembrar o infante era algo frequente nos discursos dos antonistas, o seu emprego dava a este grupo uma autoridade simbólica que certamente colocava seus adversários em uma posição delicada, pois ir contra D. Antônio era ir contra o infante D. Luís. Foi desta hábil maneira que o prior do Crato procurou responder aos editos de perseguição que o cardeal-rei D. Henrique lançou contra ele:
Sobrinho como sou e filho do Infante dom luis meu sõr a quem Vossa Alteza e este Reino tanto devem o que Creyo q não esquessera a Vossa Alteza por mais culpado que eu fora e creyo também verdadeiramente que se o Infante meu sõr alevantansse a cabeça da sepultura forçadamente o Vossa Alteza Reverensearia polo grande amor que teve a Vossa Alteza e serviços que lhe fez (...)[pois] eu desseio mais que todos acressentando nem contra a quietação e bem destes Reinos que mais do que todos desejo que se não extinga Como parece que vai encaminhado e sou obrigado ao Infante meu senhor e
aos Reis de que venho que o ganharão e defenderão ateagora pelo que
Vossa Alteza agora he Rey e sõr delle(...)113 [grifo nosso].
A correta compreensão deste documento não é possível sem o esclarecimento do emprego do nome do infante D. Luís. Afinal, que serviços a coroa devia ao infante D. Luís? Por que ele se envergonharia das atitudes do cardeal-rei? E, mais importante, por que D. Antônio assumiu a luta pela coroa portuguesa como uma questão de sobrevivência do reino e como algo obrigado pela memória de seu pai e dos reis passados?
Até aqui podemos inferir que existiu um uso para além da legitimidade e cuja autoridade era suficiente para ser utilizada contra o próprio rei. Mas não era apenas na corte que tal argumento foi empregado.
Ao descrever a caçada de muitos aventureiros e nobres portugueses a D. Antônio, após a sua derrota em Alcântara, Pero Roiz Soares os relembrava da perda da honra caso obtivessem sucesso, pois ter entregado à morte alguém que além de ter sido criado junto com eles era “filho de tal pai como foi o Infante dom Luis que só isto bastava para se doerem dele”114. Roiz também registrou que um dos fatores que explica a bem sucedida fuga de D. Antônio, por quase um ano, por Portugal, deveu-se ao fato de ser filho do ilustre príncipe, o que fez com que muitos, em especial religiosos, o
113 Carta de D. Antônio ao cardeal-rei D. Henrique (Dezembro de 1579) apud. SOARES, Pero Roiz.
Memorial – Actas da Universitatis Conimbrigensis (1ª edição integral do manuscrito encontrado na
Universidade de Lisboa). Leitura e revisão M. Lopes de Almeida. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, p. 127-130.
59 abrigassem em seus conventos e mosteiros, mesmo sob o risco de serem mortos como traidores.
Portanto, partindo destas premissas reveladas pelo uso deste argumento, a existência de uma ligação para além do laço sanguíneo entre o infante D. Luís e D. Antônio e sua efetiva capacidade de influenciar o comportamento dos agentes, podemos estabelecer como hipótese central deste capítulo que o desencadeamento da resistência contra Castela tenha se configurado na forma do antonismo por justamente ter existido uma continuidade, seja simbólica ou mesmo objetiva entre o infante D. Luís e D. Antônio no que se refere à união dinástica115.
115 Portanto, aqui não será realizada – infelizmente – a “desejada biografia deste príncipe de contornos
ainda mal definidos” como diz SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal. Vol. 3 Lisboa: Verbo, 2003, p. 56-57, mas esperamos, na medida do possível, dar algumas contribuições para um futuro estudo mais aprofundado.
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2.2. O infante D. Luís
Explicar o porquê desta referência ao infante D. Luís passa necessariamente por tentar recuperar os valores associados ao seu nome. Mas tal tarefa não é tão simples, pois como observa Deswarte-Rosa: “D. Luís est de toute la famille royale portugaise la personnalité la plus riche en potentiel et la plus emplie de passion. D´un point de vue politique, c´este l‟une des figures portugaises les plus complexes de son époque”116.
Infelizmente, existem poucos estudos sobre o infante D. Luís que poderiam fornecer-nos uma base mais segura para começarmos nossas investigações. As fontes são igualmente problemáticas, já que a crise dinástica levou a procura e a destruição dos documentos referentes ao infante, tanto é assim que boa parte do que resta de suas correspondências se encontra no Archivo General de Simancas 117.
Dos trabalhos disponíveis, o mais importante é o artigo da historiadora Sylvie Deswarte–Rosa, Espoirs et désespoir de l’Infant D. Luís, que procurou reconstituir o ambiente em que se deram as viagens do infante D. Luís para a Espanha, valendo-se de uma documentação até então inédita, composta de correspondências entre o príncipe português e membros da corte de Carlos V. A sua principal conclusão é de que as representações sobre o infante D. Luís, elaboradas pelos cronistas, que o descrevem como um homem humilde e obediente à Coroa, quando confrontadas com a sua correspondência, na verdade, revela o oposto: um homem ambicioso, desobediente ao irmão e capaz de qualquer coisa para obter um reino para si.
Contudo, a questão não se esgota neste ponto, pois o que é preciso saber é exatamente o porquê de estes autores o representarem desta forma e não outra. Assim, antes de avançarmos neste ponto específico, devemos voltar à complexidade já mencionada a respeito deste indivíduo e fornecer um breve resumo dos principais acontecimentos de sua vida.
O infante D. Luís nasceu em Abrantes em 3 de março de 1506, sendo o quarto filho do segundo casamento de D. Manuel I. No ano da morte deste rei, em 1521, foi nomeado Condestável do Reino. Na cerimônia de aclamação de D. João III foi o primeiro dos nobres a jurar obediência, sentando ao lado direito do irmão e
116 DESWARTE-ROSA, Sylvie. “Espoirs et désespoir de l‟Infant D. Luís” In: Mare Liberum. N. 3
Dezembro, 1991, p. 245.
117 Os principais estudos são: RICARD, Robert. Pour une monographie de l´infant D.Luis de Portugal.
in. Charles Quint et son temps. Centre National de la Recherch Scientifique, 1959 e DESWARTE-ROSA, Sylvie, op. cit., 1991, p. 243-298.
61 empunhando o estoque na mão, símbolo de seu cargo. Em 1528, recebeu o título de prior do Crato e por volta de 1530, conheceu dona Violante Gomes, a pelicana, com quem teve seu único filho D. Antônio; em seguida, começou a tomar aulas com o Doutor Pedro Nunes.
Seu ano glorioso foi, sem dúvida, 1535 quando Carlos V pediu auxílio a D. João III para reconquistar Túnis que tinha sido tomada por Heredin Barba-Roxa. O rei mandou mais de vinte caravelas, duas naus e um galeão para a empresa, mas não permitiu que seu irmão comandasse a operação. Contrariando o rei, D. Luís foi secretamente a Barcelona se juntar a Carlos V, sendo recebido com grande cortesia e curiosidade pela corte imperial. A força reunida atravessou o mediterrâneo e tomou primeiramente o porto de La Golleta que protegia a bacia de Túnis. Após a conquista da fortaleza, os líderes da expedição se reuniram em um conselho para decidir se deveriam ou não invadir a cidade de Túnis. Os conselheiros foram unânimes em votar contra a tomada da cidadela, menos o infante D. Luís que defendeu a marcha sobre a cidade. Carlos V concordou com o príncipe português e tomou a cidade, sendo o fato celebrado por toda cristandade. Neste momento, o infante D. Luís caiu nas graças do imperador que não hesitou em mandar uma carta elogiando-o para seu irmão D. João III118. Foi esta fama que permitiu se destacar nas cortes europeias, sendo considerado como um mediador entre o rei D. João III e outras cortes, assim como, um cobiçado pretendente para algumas das mais ilustres princesas europeias119.
Sua corte formou um círculo seletíssimo dos maiores pensadores e artistas de Portugal, responsável pela penetração do humanismo no reino. D. Luís sempre teve interesse pelos conhecimentos teóricos, especialmente pela matemática, astronomia e saberes em geral, tendo tido como grande amigo D. João de Castro. Este lembrava que mesmo na África, em plena guerra contra os mouros, a tenda do infante D. Luís continuava a ser um espaço para as mais ásperas discussões teóricas em que se debatia a validade das conclusões de Ptolomeu:
Lembra-me que nos campos africanos da grande e miservel Cartago jamais os ardentes rayos do sol, nem as ásperas e continuas corridas podiam ser ocasiam que aparecendo eu em sua Real tenda, inda com
118 Carta notável da mão do emperador despois da jornada de Tunes. Cabo Çafran, 17 de agosto de 1535.
In: SOUSA, Luiz de frei. Anais de D. João III. Vol. I e II Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1938, p. 251-252.
119 As princesas foram: Renée de France, filha de Luis XII; Jadwiga Jagiellon da Polônia; Maria Stuart,
rainha da Escócia; Maria I da Inglaterra (a famosa Bloody Mary); e a sobrinha da futura duquesa de Parma.
62 muita parte de suas virtuosas armas vestidas, me nam praticasse qualquer proposito de Cosmografia120.
Nas artes e na cultura também teve um papel importante. Camões, Sá de Miranda, Gil Vicente e Lourenço de Cáceres estavam ligados à corte do infante – suspeita-se que ele escreveu algumas peças de teatro publicadas com o nome de Gil Vicente e poemas que depois foram atribuídos a Camões. Dentro do mecenato artístico ainda cabe destacar que Filipe de Vries executou, em 1551, sob patrocínio do infante D. Luís, o Cristo Crucificado para o Coro Alto do Mosteiro de Santa Maria de Belém.
Possivelmente, é no mecenato arquitetônico que podemos ver a sua maior intervenção. No plano teórico, foi graças à sua iniciativa que entre 1534-1536 o Doutor Pedro Nunes realizou a primeira tradução De Architectura fora de Itália. Suas construções mais significativas foram a loggia dos Açougues, que possui influências italianas; o Palácio do grão-prior, construído por volta de 1530-1540 provavelmente pelo arquiteto Miguel Arruda (hoje só sobrou a varanda de uma janela); em 1541, o Mosteiro de S. João da Penitência das Religiosas Maltesas, na vila de Estremoz, para ser habitado por fidalgas pobres; e o convento de Jericó. A sua principal obra talvez tenha sido o desvio no rio Tejo, entre 1543 e 1544, afastando o curso do rio em mais de um 1 km a norte em que trabalharam de 20 a 30 mil homens, evidenciado todo o poder e capacidade técnica que a sua corte possuiu121.
Apesar de toda glória alcançada o final de sua vida não deixa de continuar a espantar. Após ver todos os seus projetos de casamento fracassar e ficar desiludido pela trágica sequência de mortes de sua família, o infante D. Luís começou a desapegar-se das coisas terrenas, voltando-se cada vez mais para a fé, a ponto de viver em plena pobreza na sua opulenta corte. Nesse momento, a mensagem da Companhia de Jesus tocou-o profundamente, mantendo uma correspondência com Francisco de Borja e o
120 D. João de Castro. Roteiro de Goa a Dio. Ao sereníssimo e Invictissimo Dom Lois apud SANCEAU,
Elaine. D. João de Castro. Porto: Livraria Civilização, 1946, p. 55. De acordo D. João de Portugal, “profundo conhecedor em todo o gênero de erudições por testemunho, ou oráculo dos mesmos que lhes ensinarão, Pedro Nunes, e Lourenço de Cáceres; [...] Tinha uma biblioteca escolhida, e numero; sendo o mayor fautor de todos os sábios [...] Na Matematicas passando logo de disciplo a professor, compoz eruditamente hum livro de modos, proporçõens, e medidas, e hum tratado sobre a Quadratura do circulo. Escreveo o excellente Auto de D.Duardos, que se estampou em nome de Gil Vicente, a quem elle o havia dado para represnetar. Deixou muitos outros escritos, que se não conservão, e que fazendo grande falta para a nossa instrução, nenhuma já para sua memória. Soube perfeitamente a suavissima arte de Musica.
Vida…”, p. 141. Ver também algumas sugestões em VALENTIM, Carlos Baptista. O Infante D.Luís
(1506-1555) e a investigação do mar no renascimento. Dados para uma biografia “completa”. Lisboa: Academia da Marinha, 2006.
121 DIAS, João José Alves. Uma grande obra de engenharia em meados do século XVI: a mudança do
63 próprio Inácio de Loyola, que tiveram até mesmo que o impedir de se tornar um jesuíta, um dos seus últimos desejos. Faleceu em 1555, deixando ao seu único filho apenas o priorado do Crato.
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