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2. SUBJECTS AND METHODS

2.4 Intervention

Nosso objetivo principal nesta pesquisa foi o de enriquecer o conhecimento acerca do pathos familiar com a internação involuntária de um membro de sua família usuário abusivo de SPA, e conhecer o que leva à internação involuntária como tratamento. Percebemos que o fenômeno do abuso de SPA não se reduz a uma relação linear de causa e efeito, muito menos às relações familiares, ambas se inserem numa perspectiva complexa, que envolve diversas interações de variáveis e articulações. Este estudo buscou compreender os fenômenos em sua amplitude e complexidade, trazendo à tona os processos sociais, mas também os processos subjetivos, que são conscientes e inconscientes. Nesse sentido, a psicanálise se constituiu uma importante aliada para a investigação destes conteúdos.

Para além da simples apresentação destes processos, esta pesquisa buscou pensar e problematizar as formas como são feitos os chamamentos sociais à família para a atenção e cuidado aos seus familiares usuários de SPA. Chamamentos estes que colocam a família no lugar central de cuidado, isentando as diversas instâncias sociais na constituição e implicação com esta questão. Cremos que este estudo nos fornece pistas de como isso acontece, a nível do sujeito familiar. Mostra a dimensão páthica da subjetividade, dos afetos e efeitos que surgem como desdobramento da culpabilização destas pessoas pelos desvios e atos contraventores de seus familiares.

Refletimos sobre a repercussão subjetiva do confundir o objeto de desejo com objeto de necessidade, e a relação de dependência que isto provoca no sujeito e, então, o surgimento do vínculo patológico. Nossa leitura sobre a pathologia inerente ao fato do sujeito depender do seu objeto, certamente, não encerra a discussão sobre o tema, mas realça a importância de se prestar atenção nos tipos de vínculos, talvez semelhante ao tipo de SPA escolhido e ao padrão de uso.

Isso nos leva a expor a necessária problematização sobre como são formuladas e implementadas as políticas públicas, que em muitos casos desconsideram a multiplicidade

das relações humanas e a composição heterogênea dos seus atores que são mobilizados inconsciente e subjetivamente. Especificamente na questão das políticas públicas, que em seu seio preconizam a internação involuntária, podemos contribuir para percebermos a “afetividade” e os valores que perpassam o Estado (jurídico/legislativo/executivo) que se baseiam em conhecimentos não científicos e monodisciplinares, impregnados pelo ideal do medo e do proibicionismo.

Escutar e entrar em contato Rita nos revelou como acontecem esses agenciamentos do pathos. O coração materno apresentado como a qualidade que a faz não desistir do filho, assim como seus aspectos libidinais de ser A mãe, resposta dada por ela ao enigma do ser feminino, aponta-nos os processos sutis de gozo e culpa, vontade de punir e expiação, operando nas relações familiares e de cuidado, sobretudo, na decisão pela internação involuntária como método de tratamento. Estes aspectos possibilitam, ainda, compreender como uma mãe, diante do cenário caótico da saúde pública, que a deixa desamparada, encontra na internação uma maneira de ecoar seus afetos, em diversos momentos como supressão aos afetos de seu ente familiar, demonstrando a forma como se constitui este vínculo.

Este trabalho possibilita uma abertura à discussão sobre como se dão estes vínculos entre família e seu membro usuário de SPA. Longe da compreensão idealizada de família como aquela que deve funcionar harmonicamente, desejo tão exacerbado e propagado pela cultura, esta pesquisa se abre psicanaliticamente para a entender como se configura a família, nestes tempos de novos laços sociais, perpassada pelo mal estar de viver em um mundo, que privilegia os excessos em que o corpo e as SPA acabam sendo expressões privilegiadas de se tentar extinguir este desconforto.

O caso apresentado colocou em evidência estas forças que se entrecruzam na escolha pela internação involuntária. Ao constatar e analisar os conflitos e a presença de afetos como raiva e tristeza, próprios das relações humanas, e que, logicamente, também estão presentes nas relações familiares, elencamos importantes elementos para vermos o entre e o entorno desta ação.

Percebemos que a internação não se configura somente como uma ação de cuidado, nem por parte da mãe, nem das instituições sociais, mas, sim, como uma sanção ao usuário de SPA que não se moldou às expectativas sociais e familiares. A vontade de punir vai se configurando como uma marca forte da contemporaneidade, que não se preocupa em julgar coerentemente, não possibilita defesa, e nem analisa integralmente os fatos, visto que os vereditos são dados intransigentemente e devem ser cumpridos, em especial, o “crime moral” de usar SPA.

Acreditamos que muitas vezes as ciências e os saberes confundem explicação com simplificação. Por se configurar como um estudo exploratório a pesquisa proposta possibilita que outras pesquisas acerca do tema investigado possam ser vislumbradas. Sendo assim, a partir do que foi discutido no decorrer deste trabalho muitos outros pontos relativos ao tema foram se mostrando importantes

Com esta pesquisa ressaltamos a necessidade de evitarmos posturas reducionistas ou ainda moralistas, que muito pouco contribuem para o enfrentamento necessário que o tema exige, e a importância de conferir visibilidade às famílias de usuários de SPA, visto que estudos como este são escassos em nosso País, o que cremos releva as contribuições desta pesquisa, uma vez que é importante se pensar novas formas de intervenção junto a esta população.

Cremos que esse trabalho contribui na tentativa de repensar a proteção, a qualidade de vida e a culpabilização dessas pessoas, sendo usados como fonte de material para ações na área do uso e abuso de SPA que necessitam de novas pesquisas e intervenções. Esperamos que o presente estudo forneça algumas pistas e indicações sobres estas questões e que esta construção possa servir para outras construções, tão necessárias neste campo, que estejam por vir, e que elas venham, para que possamos avançar nesta discussão.