6 Proposal for future work - NI-CR follow-up
7.2 International policy relevance and strengthening networks
Na terceira categoria, destacamos o papel do outro no ensino em termos da mediação pedagógica, que esteve presente em todos os episódios, mas, em alguns, ganhou destaque maior. Falaremos, especificamente, do 3º, 4º e 5º episódios.
No 3º episódio, finalizou-se a sequência didática do “Camilão” e, nesse momento, o objetivo principal da atividade era o conceito de adição que foi feito por meio de um jogo em que os alunos tiveram que fazer o registro de suas jogadas e somar os resultados para verificar as duplas que obtiveram mais pontos. Neste episódio, os impasses começaram a se manifestar já no momento do registro das jogadas. A compreensão acerca da necessidade de adicionar os resultados parciais só ocorreu no momento da mediação da professora em que ela utilizou a palavra “tudão” para significar para aos alunos que deveriam somar esses registros. No âmbito discursivo, a utilização desta palavra pela professora, no processo de interlocução com os alunos, remete-nos à Volochínov (2013a), quando se refere à constituição da enunciação em termos de conteúdo e significado, destaca que a seleção das palavras ocupa um lugar primordial nesse processo. Foi isto que a professora fez, selecionou uma palavra que, em seu conteúdo, trouxe significados para os alunos acerca do conceito proposto, envolvendo o aspecto da compreensão ativa e responsiva, destacada pelo autor, sobre o efeito da interação entre quem fala e o processo de compreensão de quem ouve. Era perceptível que, neste momento do processo interativo, já se instalava, por parte dos alunos, certa dificuldade de compreensão do que se desejava e uma “aflição” com o fazer-se entender pela professora. Neste cenário, instalava-se, de um lado, o desejo de decifrar “o que ela quer” e, de outro, “como eu digo o que precisa ser feito”. Ao que parece, o uso da palavra “tudão” possibilitou “resolver” a tensão daquele momento.
Fontana e Cruz (1997), pautadas nesta perspectiva teórica, destacam que a palavra nos constitui e nos transforma, medeia todo o processo de elaboração com o mundo e conosco mesmos, direcionando a atividade mental dos sujeitos, sendo concebida, portanto, como um ato de pensamento fundamental para a formação de conceitos. Sob este aspecto, a palavra “tudão” possibilitou aos
alunos o encaminhamento da solicitação no sentido de poderem “juntar” os resultados. Entretanto não foi feita uma reflexão de que esta maneira de fazer, considerada a situação específica, podia ser significada com o que se entende por “adicionar” as quantidades.
No 4º e 5º episódios, em que o foco se voltou para a resolução de situações problemas, devido ao treinamento para a avaliação do SARESP, era nítida a preocupação dos alunos sobre qual continha fazer, todavia o próprio enunciado da situação problema não foi passível de compreensão para os alunos, por estar muito distante dos seus conhecimentos cotidianos. No entanto, quando a mediação da professora se tornava significativa para alguns alunos, eles passavam a elaborar suas próprias estratégias para a resolução dos problemas e, assim, o foco deixava de ser a descoberta do tipo de conta a ser feita. Nesses momentos, por meio de registros pictóricos, alguns alunos elaboravam as estratégias necessárias que os levariam ao resultado esperado. Outros, entretanto, ficavam excluídos do processo e pegavam o atalho, copiando as respostas da lousa ou de um colega próximo, atitude que nos revela que, na matemática, ainda existe uma preocupação principal com os resultados, esquecendo-se da elaboração mental utilizada pela criança que, para ela, é significativa. Portanto, no que se refere à resolução de situações problemas, existem vários fatores para serem levados em consideração, desde a formulação do enunciado e suas possibilidades de interpretação, até a resposta pretendida. De acordo com Moretti e Souza (2015, p. 36)
[...] as causas das dificuldades das crianças em compreenderem as possibilidades de ações a serem desenvolvidas diante de enunciados de problemas, visando a sua resolução, incluem desde a atenção voluntária que a criança desenvolve nessa atividade até a especificidade do texto e o sentido que esse tem para a criança.
Desta forma, a criança desenvolve a atenção nas relações de ensino escolar em tarefas que se mostram desafiadoras e que têm sentido e significado para ela, além da apropriação desse gênero textual que é enunciado e que é de fundamental importância para a sua interpretação.
Nesses episódios, evidenciamos que a mediação pedagógica acompanhada de gestos e palavras foi fundamental para que os alunos resolvessem os exercícios propostos. Isto porque:
O mero contato da criança com ou mesmo a sua imersão em ambientes informadores e estimuladores não garante a aprendizagem e nem promove necessariamente o desenvolvimento, uma vez que ela não tem como indivíduo, instrumental para criar ou recriar sozinha, o processo cultural (OLIVEIRA, 1995, apud, FONTANA; CRUZ, 1997, p. 65).
Sob este aspecto, destacamos a importância do papel do outro, neste caso do professor, uma vez que o conhecimento é apropriado pelo aluno. Além disso, seus níveis de elaboração se tornarão cada vez mais elevados, enfatizando que as interações escolarizadas são permeadas ações intencionais com vistas à aquisição de conhecimentos sistematizados. Por outro lado, esta não é uma tarefa que o professor realiza sozinho, “ela é mediada pela produção científica e pelos dizeres das crianças” (FONTANA; CRUZ, 1997, p. 115), que vão direcionar o trabalho do professor no sentido de compreender as significações que os alunos estão fazendo do que lhes está sendo proposto, para que encaminhe e/ou redirecione a sua prática pedagógica.
Em suma, nas relações entre professor e aluno mediadas pela linguagem, destacadas nesse subitem, como o papel do outro, é de extrema importância possibilitar condições e elementos para que o professor direcione o seu trabalho de maneira significativa para os alunos, enfatizando e refletindo conjuntamente sobre o feito e o como feito.