CONCURRING OPINION OF JUDGE PINTO DE ALBUQUERQUE, JOINED BY JUDGE TSOTSORIA
B. The international obligation to criminalise and prosecute trafficking in human beings (§§ 44-52)
Na metade do século 20, uma das mais populares buscas dos lingüistas aplicados foi o estudo de duas línguas em contraste. A partir deste empenho surgiu a Hipótese de Análise Contrastiva, tal hipótese teve sua origem nas abordagens behaviorista e estruturalista da época. Afirmava que a principal barreira para a aquisição da L2 é a interferência do sistema da língua nativa no sistema da língua alvo e, que, uma análise estrutural e científica das duas línguas em questão poderia produzir uma taxonomia de contrastes lingüísticos entre elas; deste modo o lingüista poderia prever as dificuldades que o aprendiz encontraria.
Do behaviorismo também veio a noção de que o comportamento é a soma de suas pequenas parte e componentes, e que a aprendizagem de uma língua poderia ser descrita como a aquisição de todas estas unidades. A aprendizagem de L2 envolveria basicamente a superação das diferenças entre dois sistemas lingüísticos - a língua nativa e a língua-alvo (Brown, 1993).
Segundo Ellis (1994), as noções centrais de ‘diferença’ e ‘dificuldade’ advindas da Análise Contrastiva (doravante AC) ainda estão muito vivas a pesar do surgimento de novos pontos de vista teóricos. A AC foi formulada por Lado (1957), quem afirmava que, os elementos que o estudante achava similar à sua L1 seriam simples para ele, porém, os elementos que eram diferentes seriam difíceis. As análises eram baseadas em descrições lingüísticas de duas línguas e seguiam os seguintes passos: a) descrição, b) seleção de certas áreas ou itens das línguas em questão para uma comparação detalhada, c) comparação- identificação das áreas com diferenças e similitudes, e por último d) a previsão de áreas que são mais possíveis de causar erros.
As principais afirmações da AC são que: 1) o nível de dificuldade experimentado pelo aprendiz estará diretamente relacionado ao grau de diferença lingüística entre a L1 e a L2/LE e 2) a dificuldade se manifestará nos erros. À maior dificuldade, maior freqüência de erros. Para Fernández (1997) dos estudos realizados sobre as produções dos aprendizes surgiu uma
crítica clara à equação contrastiva de que quanto maior fosse a diferença entre as línguas, maior seria a dificuldade, e por tanto, maior seria o número de erros por interferência ou transferência negativa. A autora afirma também que, o conceito ‘diferença’ é lingüístico e o de ‘dificuldade’ é psicológico, “se demonstrou que a interferência se produz com mais freqüência entre aquelas línguas e entre aquelas estruturas lingüísticas que o aprendiz sente como mais próximas e não ao contrário”.(Fernández, 1997:16). Este ponto de vista de Fernandez (1997) está de acordo com o que Kellerman (apud Ellis 1994) chama de psicotipologia para conceituar o conjunto de percepções dos aprendizes sobre a distância lingüística. Para Kellerman é a psicotipologia que provoca ou impede a transferência, e não a distância lingüística real.
Em sua forma mais forte, a AC afirma que “todos os erros poderiam ser previstos identificando-se as diferenças entre a língua nativa e a língua alvo” (Ellis, 1994:307). Neste trabalho o objetivo é tentar explicar as possíveis causas dos erros de um subsistema específico (o uso dos pronomes pessoais) e não prever os erros a ele relacionados.
A AC teve seu auge nos anos 60, porém foi gradualmente substituída. A versão forte, que se apoiava na convicção de que todos os erros poderiam ser prognosticados com a identificação das diferenças entre a língua materna do aprendiz e a língua-alvo, foi perdendo terreno, pois mostrava que muitos erros não eram causados por transferência e que muitos dos erros previstos pela AC não ocorriam realmente, os métodos de ensino que se apoiavam nesta hipótese não conseguiam evitar os erros e por fim, as considerações das novas correntes da Lingüística, Psicolingüística e Sociolingüística lançavam fortes críticas aos princípios básicos da AC (Fernández, 1997). A autora postula ainda que, tanto a Lingüística como a Sociolingüística e a Pragmática criticavam o fato de que o método da AC se limitava à comparação das características formais de pares oracionais, sem levar em consideração a sua função comunicativa, os contextos e os registros em que as mesmas aconteciam. Paradoxalmente são estas objeções que, em parte, promoveram o ressurgimento da AC. Nesta nova elaboração a AC tenta comparar como ocorrem determinadas funções comunicativas nas diversas línguas, levando em conta as categorias universais (pertencentes a todas as línguas) e também de acordo com o ponto de vista da Pragmática.
A pesar de a AC não ter prosperado e ter cedido lugar à Análise de Erros, a transferência continuou sendo de interesse dos pesquisadores. Ellis (op. cit) afirma que a AC é muito simplista e restritiva, e que, a solução não é o seu abandono, mas sim, uma cuidadosa revisão e extensão. Segundo o autor os pesquisadores continuam fazendo AC, mas somente como uma ferramenta para identificar áreas de potencial dificuldade.
A investigação empírica dos anos 60 e 70 levou a duas posições diferentes com relação ao papel da L1. Em uma delas, a transferência foi tratada como um dos vários processos envolvidos na aquisição da L2 (cf. Selinker, 1972; Nenser 1971). Para Selinker (1972) a transferência lingüística era um dos cinco processos responsáveis pela fossilização. Nenser (1971) afirmou que a fala do aprendiz era ‘organizada estruturalmente’, no sentido de que constituía um sistema em seu próprio direito, e que a língua nativa do aprendiz funcionava como um dos maiores determinantes destes ‘sistemas aproximativos’.
A Abordagem Minimalista era a outra posição para considerar a influência da L1. Ela se empenhou em minimizar o papel da L1 e em enfatizar a contribuição dos processos universais de aprendizagem de línguas. Newmark (1966) reconhece a existência da transferência, mas a vê como algo de pouca importância, simplesmente o reflexo da ignorância, o que ele denominou de Ignorance Hypotesis. Krashen (1983) tem uma posição parecida, vê a transferência como uma “queda” no velho conhecimento quando o novo conhecimento está faltando. Esses autores consideram a transferência da L1 como um tipo de estratégia comunicativa. Ellis (op. cit) diz que tal rejeição foi causada pela íntima conexão entre as idéias da transferência e o behaviorismo, que foi desacreditado. Há uma tentativa de reposicionar a transferência em uma estrutura cognitiva e identificar as condições precisas que levam a ela.