I. THEORETICAL ASPECTS OF FINANCIAL CONNECTEDNESS IN INTERNATIONAL
1.4 International equity investment network and its structure
Em 1939 os jornais sergipanos já informavam a respeito das tensões políticas e militares que se desenrolavam no continente europeu. E a partir de setembro desse mesmo ano, as manchetes dos periódicos que circulavam diariamente em Aracaju passaram a destacar a movimentação das tropas e o envolvimento de um número cada vez maior de nações no enfrentamento bélico57.
De uma forma geral, os países se envolveram com o conflito quando foram atacados, ou estavam ameaçados. Mesmo diante dos apelos do Primeiro Ministro britânico Winston Churchill, os Estados Unidos só declararam guerra ao Eixo quando foram agredidos pelos japoneses. Depois disso, Franklin Delano Roosevelt buscou reforços na América Latina58 e nesse caso o Brasil se tornava imprescindível. Mesmo sem querer se posicionar definitivamente, as relações internacionais do Brasil tenderam pelo lado estadunidense.
A III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas, sediada no Rio de Janeiro59 entre 15 e 28 de janeiro de 1942, pode ser considerada como o momento em que se deu o primeiro passo em direção contrária à neutralidade brasileira. Em 12 de janeiro chegaram várias delegações. Nesse mesmo dia à tarde Getúlio Vargas recebeu o Subsecretário do Estado norte-americano Sumner
57 Na Europa, o crescimento de poder na Alemanha passava pela expansão do Reich (comercial e espacial) e a recuperação da moral alemã. O país não estava conformado com as reparações impostas após o fim da Primeira Guerra Mundial. Um líder carismático prometia retornar a glória da Alemanha. Hitler ofereceu aos alemães uma chance irresistível de estabilidade, vitalidade e solidariedade. Sustentado num violento antissemitismo e um discurso racial, Hitler se colocava como um paladino do verdadeiro espírito alemão. Foi justamente em nome dessa posição que ele ordenou a invasão do território polonês. Robert Paxton afirma que os alemães nunca deram ao partido nazista a maioria dos votos. O desempenho eleitoral do Partido Nazista na Alemanha e do Partido Fascista na Itália era fraco, no entanto Hitler e Mussolini não deram um golpe de estado. Eles foram convidados por chefes de governo a assumir o poder em momentos de crises. Paxton pontua que “O fato de Hitler e Mussolini terem chegado ao poder em aliança com as poderosas elites tradicionais não pode ser visto como uma peculiaridade da história alemã ou italiana. É difícil acreditar que os partidos fascistas pudessem ter subido ao poder de alguma outra forma”. Cf. PAXTON, Robert. O. A Anatomia do Fascismo. Trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres. São Paulo: Paz e Terra, 2007, p. 193.
58 Seguindo orientações políticas divergentes, regimes autoritários e democráticos disputavam o poder no século XX. Letícia Pinheiro lembra que no período entre as guerras mundiais a América Latina foi alvo de disputa entre de um lado o “autoritarismo anti-parlamentar nacionalista e protecionista alemão; de outro, a liberal-democracia e o internacionalismo livre cambista norte-americano”. Cf. PINHEIRO, Letícia. A Entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Revista USP. São Paulo, n. 26, Junho-Agosto, 1995, p. 111.
59 Em janeiro de 1942 a revista A Cena Muda publicou uma entrevista que o representante da Fox-Filmes concedeu à Rádio Cruzeiro do Sul. Na oportunidade o representante da Fox-Filmes declarou que foi a escolha do Rio de Janeiro como sede foi natural, pois ela era a segunda cidade mais importante do continente. Cf. A CENA MUDA. Rio de Janeiro. Jan. 1942, p. 24-27.
Welles60, que chefiava a delegação do seu país e trazia uma carta do presidente Roosevelt.
O líder do Estado Novo brasileiro registrou sua apreensão diante da disposição americana em envolver o país no conflito militar61. Enquanto o ministro das relações exteriores Osvaldo Aranha se colocava como o mais importante aliado dos norte- americanos, os Ministros das Relações Exteriores Enrique Ruiz Guiñazú, da Argentina, e Juan Bautista Rossetti, do Chile, pediam cautela a Vargas. No Brasil os altos oficiais eram contrários ao envolvimento direto na Guerra. Eles justificavam que em virtude do despreparo das tropas e da falta de armamento, cujo suprimento estava sendo negociado com os Estados Unidos, a neutralidade brasileira deveria ser mantida.
Vargas estava ciente da contradição em cortar relações com o Eixo, em função da natureza do regime sob o qual governava o Brasil62, mas em 27 de janeiro de 1942,
60 Sumner Welles era o Subsecretário do Estado norte-americano. Depois do presidente Franklin Delano Roosevelt e do Secretário de Estado Cordel Hull, era a autoridade política mais importante dos Estados Unidos. Cf. ELIBIO JUNIOR, Antônio M. Rumo ao conflito? Brasil e Argentina no contexto da II Guerra Mundial. 3° Encontro Nacional ABRI, 2011, São Paulo [online]. 2011. Available from: <http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=MSC0000000122011000100025&l ng=en&nrm=iso> .
61 Cf. VARGAS, Getúlio. Diário: Volume II (1937-1942). Apres. Celina Vargas do Amaral Peixoto; edição de Leda Soares. São Paulo: Siciliano; Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1995. p. 451. 62 Não acredito que o Brasil tenha vivido uma experiência genuinamente fascista nos anos 1930 e 1940, mas concordo com os autores que consideram que o Estado Novo brasileiro foi inspirado nos regimes fascistas europeus. Em “Multidões em cena”, Maria Helena Rolim Capelato compara a utilização da propaganda política no Brasil e na Argentina, apontando que os políticos latino-americanos observaram atentamente os mecanismos de controle dos regimes fascista (italiano) e nazista (alemão). Cf. CAPELATO, Maria Helena R. Multidões em cena: Propaganda política no varguismo e no peronismo. Campinas, Papirus, 1998. Já num balanço historiográfico sobre Estado Novo, publicado no livro “Historiografia Brasileira em Perspectiva”, Capelato aponta que os estudos publicados a partir dos anos 1980 assumem o caráter ditadorial do regime político brasileiro como um dado. Ao mencionar os estudos dos historiadores José Luiz Werneck, Roberto Romano, Francisco Falcon e Alcir Lenharo, Capelato afirma que a discussão acerca do tema do totalitarismo é um ponto que tem caminhado para um consenso. A própria Capelato concorda com a ideia dos autores de que não se pode afirmar que houve totalitarismo no Brasil. Os autores convidam a pensar as particularidades do Estado Novo e a evitar as generalizações. Nesse texto, Capelato reafirma a existência de uma relação entre a política brasileira e as experiências europeias do período, sem reduzir um caso ao outro. Cf. CAPELATO, Maria Helena Rolin. Estado Novo: novas histórias. In: FREITAS, Marco Cezar (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 1998. O fim da década de 1930 marca a ascensão dos fascismos no mundo, que é apontado por Robert Paxton como “a grande inovação política do século XX, e também a origem de boa parte de seus sofrimentos”. Cf. PAXTON, Robert. O. A Anatomia do Fascismo. Trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres. São Paulo: Paz e Terra, 2007. p. 13. O fascismo não esteve circunscrito apenas à Itália e Alemanha. Francisco Carlos Teixeira da Silva chama a atenção dos pesquisadores para uma definição mais larga de fascismo(s) como “o conjunto de movimentos e regimes de extrema direita que dominou um grande número de países europeus desde o início dos anos 20 até 1945”. Cf. SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Fascismos. In: FILHO, Daniel Aarão Reis, FERRIRA, Jorge, ZENHA, Celeste (orgs.). O século XX. 3 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 112. Esse também foi o período do crescimento do número de políticos profissionais, líderes carismáticos (como Benito Mussolini, Adolf Hitler, Franklin Delano Roosevelt e Getúlio Vargas) que sabiam seduzir as massas, utilizando os meios de comunicação mais modernos, de maior alcance como o rádio e o cinema. Verdadeiras encenações foram montadas para convencer e comover grandes contingentes populacionais.
autorizou Osvaldo Aranha a suspender os acordos diplomáticos com o Eixo. Ao aderir no plano internacional pela defesa da liberal-democracia, ele se mostrou insatisfeito e desabafou:
devo confessar que me invade uma certa tristeza. Grande parte desses elementos que aplaudem essa atitude, alguns poucos que até me caluniam, são os adversários do regime que fundei, e chego a duvidar que possa consolidá-lo para passar tranquilamente o governo ao meu substituto63.
Durante o encerramento do evento, em 28 de janeiro, Osvaldo Aranha comunicou a decisão brasileira. Os representantes do Chile e da Argentina não concordaram em se juntar ao Brasil, mas os Estados Unidos receberam a notícia como uma confirmação de que estavam corretos em estreitar laços com o maior país da América do Sul. Em troca os Estados Unidos se comprometiam a fornecer armas e ajudar a guardar o território brasileiro.
À noite Vargas ouviu pelo rádio o encerramento da Conferência. Ele criticou o tom dos discursos que “tiveram, no geral, o mesmo da retórica liberalóide, obsoleta e palavrosa”. Mas registrou que teve a impressão de que acertou na decisão, pois “os oradores foram muito aplaudidos”64. Ainda que o presidente tenha anotado em seu diário que não nutria grande admiração por regimes liberais-democrata, o governo brasileiro se posicionou a favor dos Estados Unidos, acirrando os ânimos com a Alemanha e Itália.
As consequências da decisão brasileira não demoraram a aparecer. Em Sergipe os estrangeiros foram convocados a comparecerem ao Departamento de Segurança Pública. Seguindo uma ordem do Interventor Federal, o Chefe de Polícia estava “convidando” a “todos os súditos alemães, italianos e japoneses a comparecerem dentro do prazo de quinze dias, a contar de ontem, quando se efetuou a publicação do Edital para declararem as suas residências”65.
Mas as implicações do redirecionamento da política externa brasileira foram mais profundas. Vários navios foram torpedeados ainda durante o primeiro semestre de 1942. O rompimento das relações diplomáticas com o Eixo e os ataques às embarcações
Os chefes de várias nações apelaram para os sentimentos das massas, prometendo resolver as crises econômicas, sociais e políticas das décadas de 1920 e início da década seguinte.
63 VARGAS, Getúlio. Diário: Volume II (1937-1942). Apres. Celina Vargas do Amaral Peixoto; edição de Leda Soares. São Paulo: Siciliano; Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1995. p. 457.
64Idem. Ibidem. p. 458.
brasileiras ligou definitivamente o Brasil, e de modo particular Aracaju, à Segunda Guerra Mundial. A rigor, em 22 de março de 1941 o cargueiro Taubaté foi a primeira embarcação brasileira a sofrer um ataque aéreo quando estava no Mar Mediterrâneo, no Egito. A responsabilidade foi creditada à Alemanha.
A partir de fevereiro de 1942 as investidas contra os navios mercantes brasileiros tornaram-se mais frequentes. Na costa norte-americana foram atacados os cargueiros Buarque (15 de fevereiro), Olinda (18 de fevereiro), Arabutã (7 de março) e Cairu (8 de março). No Atlântico Norte-central foi torpedeado o Cabedelo (25 de fevereiro), o Paraíba (1º de maio) e o Comandante Lira (18 de maio). No mar do Caribe foram atacados o Gonçalves Dias (24 de maio), o Alegrete (1º de junho) e o Paracuri (5 de junho). Além dos que foram atingidos no Oceano Atlântico como o Pedrinhas (26 de junho) e o Tamandaré (26 de julho), o Barbacena e o Piave (ambos em 28 de julho).
Depois da III Conferência de Chanceleres, o Brasil continuava a se declarar neutro diante da Guerra, apesar de ter cortado relações diplomáticas com a Alemanha, Itália e Japão em nome dos ideais Pan-Americanos. Os navios mercantes brasileiros transportavam matérias primas e produtos que mantinham o comércio com os Estados Unidos. Como um dos objetivos do Eixo passou a ser justamente atrapalhar as transações comerciais e o abastecimento dos países Aliados, as embarcações brasileiras rapidamente se tornaram alvos. A Alemanha dizia oferecer um tratamento especial aos navios dos países neutros e identificados como tais, o que não os impediu de atacar em fevereiro de 1942 o Cabedelo, o Buarque e o Olinda, que navegavam com as luzes de bordo de navegação acesas e com as bandeiras do costado e da popa bem iluminadas.
Os alemães e italianos não se retrataram com o Brasil66, mas a situação foi diferente quando os alemães atingiram o vapor argentino “Rio Terceyro”. No dia 7 de julho 1942 a Agência Nacional Brasileira (ANB) informou que o governo alemão havia assumido a responsabilidade pelo torpedeamento da embarcação, e também se declarou pronto a indenizar a Argentina. A postura adotada pela Alemanha em relação à embarcação argentina refletia a cordialidade entre os dois países67.
66 Enquanto os navios continuavam a ser atacados, O Brasil negociava o reaparelhamento de suas Forças Armadas com os Estados Unidos. Em abril de 1942 Vargas colocou todos os portos e bases aéreas à disposição dos norte-americanos. E em maio do mesmo ano os dois países oficializaram a aliança militar. Cf. MUNHOZ, Sidnei J.; SILVA, Francisco Carlos Teixeira da (orgs.). Relações Brasil-Estados Unidos: séculos XX e XXI. Maringá: Eduem, 2011.
67 A Argentina se manteve neutra até 1945. Cf. SILVA, Francisco Carlos Teixeira da; SCHURSTER, Karl; LAPSKY, Igor; CABRAL, Ricardo; FERRER, Jorge (Orgs.). O Brasil e a Segunda Guerra
No fim de maio de 1942 o Ministro da Aeronáutica declarou que um avião brasileiro havia atacado um submarino do Eixo e que continuaria tal prática. O Almirante Karl Doenitz, responsável pela Marinha Alemã, acreditou que a Alemanha estava num “estado de guerra com o Brasil, e a 4 de julho os U-Boote receberam permissão dos nossos líderes políticos de atacarem todos os navios brasileiros”68. O ápice do desgaste na relação entre o Brasil e a Alemanha estava para ocorrer nos meses seguintes. Os ataques às embarcações brasileiras passariam a ocorrer dentro do território nacional.