A presença das tecnologias em sala de aula ainda é insipiente em muitos casos. Isso decorre de muitos fatores, dentre os quais: a) a prioridade dada ao investimento na infraestrutura das escolas, se comparado ao investimento em tecnologias; b) a dificuldade de consenso entre escola e pais de alunos a respeito da necessidade do uso de tecnologias como ferramenta em potencial para o ensino-aprendizagem; c) a resistência dos docentes em lançar mão dos novos recursos tecnológicos em sua prática escolar, postura que surge como reflexo de sua formação inicial e ausência de formação continuada.
Por outro lado, é notável o reconhecimento das tecnologias como caminho para ampliar o universo da educação. Como discute Franco (1997) em seu livro:
A computação enraizou-se profundamente nas ciências, de modo que a informação digital passou a ser uma peça chave para as novas pesquisas e para a ampliação do conceito científico. Há poucos anos, os editores de textos dos microcomputadores tornaram obsoletas as máquinas de escrever. Hoje, as facilidades da Internet tornam obsoletos os acessos tradicionais às informações, como por exemplo recorrer aos fichários de bibliotecas. De casa é possível
consultar bibliotecas e bancos de dados espalhados por todo o mundo. As atividades de pesquisa que acessam, armazenam e processam informações quantitativas sofrem transformações (FRANCO, 1997, p.92).
Outro viés da informática está na criação de imagens visuais em três dimensões, como é abordado por Levy (1998, p.21). Segundo esse autor, urbanistas, arquitetos, químicos, entre outros profissionais, podem tomar decisões a partir da visualização de imagens criadas pelos computadores. Desse modo, sendo a informática ponto de apoio para as diversas profissões, por que não explorá-la no ensino? Garantir o efetivo ganho no processo de ensino-aprendizagem através da informática exige um refinamento do pensamento humano no sentido de perceber, frente às necessidades inerentes aos processos educativos, como aproveitar essa ferramenta. Para a geometria, por exemplo, há que se pensar no potencial de visualização, como acentua Gravina (2001):
Nos recursos tecnológicos informáticos está latente o desenvolvimento de formas de representação sintonizadas com o pensar por imagens mentais, cada vez mais referido na literatura como pensamentos de natureza visual (visual thinking). São pensamentos que utilizam imagens - desenhos e diagramas – e trabalham com representação mental econômica (GRAVINA, 2001, p.38-39).
Gravina e Santarosa ainda pontuam que a informática pode reduzir os obstáculos inerentes ao processo de aprendizagem, quando mudam os limites entre o concreto e o formal.
O computador permite criar um novo tipo de objeto – os objetos “concretos abstratos”. Concretos porque existem na tela do computador e podem ser manipulados; abstratos por se tratarem de realizações feitas a partir de construções feitas a partir de construções mentais (GRAVINA; SANTAROSA, 1998, p.8).
Nesse momento, há uma discussão que pode constituir o cerne da questão do uso da informática nas aulas de matemática. A passagem do concreto para o abstrato representa um divisor de águas no aprendizado dessa disciplina. O aluno tem facilidade de enxergar o concreto, mas se sua percepção restringe-se a esse estágio, o aprendizado em matemática também será limitado. Algo que possa favorecer essa transposição, criando um subestágio, pode ser o elo necessário na construção do conhecimento. Gravina (2001) ainda reforça:
Na pesquisa matemática atual, objetos e processos abstratos até então restritos aos “olhos da mente” são agora externalizados através de precisas, objetivas e dinâmicas visualizações na tela de um computador, implicando novos insights na
abordagem da complexidade e do precário entendimento de muitos destes objetos e processos (GRAVINA, 2001, p.40).
Entretanto, a simples chegada das tecnologias não garante inovação no sistema de ensino-aprendizagem nas salas de aula e muito menos um avanço considerável em direção à garantia da aprendizagem. É fundamental que haja alterações nesse sistema e uma nova postura do profissional. Segundo Ponte, Oliveira e Varandas (2002), o papel do professor não pode continuar sendo o de fornecer a informação, controlar o discurso e o desenvolvimento da aula, procurando o alcance de seus objetivos. Esses autores relatam:
No quadro de um ensino inovador, esse papel será cada vez mais marcado pela preocupação em criar situações de aprendizagem estimulantes, desafiando os alunos a pensar e apoiando-os no seu trabalho, favorecendo a divergência e a diversificação dos percursos da aprendizagem (PONTE; OLIVEIRA; VARANDAS, 2003, p.162).
É notável que muitos professores que hoje estão lecionando carecem de uma visão mais clara do papel das tecnologias no ensino. Isso ocorre, entre outros aspectos, como consequência de uma formação inicial que não pôde garantir esse subsídio, bem como de uma formação continuada falha.
Se o profissional ainda mantém uma postura controladora, ficará perplexo quando seu aluno, lidando com o computador, apresentar desenvoltura equivalente ou melhor que a sua. Ou se sentirá perdido quando tudo estiver preparado para uma aula sua no laboratório e, de repente, tudo passar a não funcionar. São muitas as situações nas quais apostamos que o que planejamos funcionará perfeitamente, mas nem sempre isso acontece.
Ficará também perdido quando vivenciar os diversos estágios em que se encontra cada aluno frente às tecnologias, já que numa mesma turma pode haver alunos nos mais diversos níveis de habilidade no manejo dos computadores. Uns dominam-no totalmente, enquanto outros estão apenas iniciando sua alfabetização tecnológica. E, apesar de parecer um grande desafio, é justamente essa diversidade de níveis que pode trazer frutos num trabalho em que alunos e professor se tornem parceiros no exercício da aprendizagem.
Por fim, referencia-se novamente às bases estruturais do ensino brasileiro através dos Parâmetros Curriculares Nacionais. Quando se oferece ao aluno um suporte em informática para que este desenvolva seu aprendizado em Matemática, faz-se jus à proposta nacional para o ensino, pois assim se está favorecendo sua inserção numa sociedade cada dia mais tecnológica. Portanto, aproveitar o talento dos alunos que já detêm conhecimento em informática e ampliar o universo tecnológico daqueles que ainda não
alcançaram esse patamar parece ser, no mínimo, um ponto de partida. É o momento em que a leitura sensível é necessária: na presença de grande defasagem ou diferenciação no nível de conhecimento dos alunos sobre as tecnologias ou, mais especificamente, sobre informática, é maior a responsabilidade da escola na condução de atividades que exijam bases tecnológicas. O computador dará sua verdadeira contribuição ao processo de ensino- aprendizagem quando conquistar a sala de aula sem ser temido por educadores e educandos.