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Internasjonalt samarbeid

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2. Utviklingstrekk

2.5 Internasjonalt samarbeid

Ao revisitar a noção de autoridade na e pela história percebemos que esta tem contornos próprios de acordo com o tempo e espaço analisado. Mesmo reconhecendo a grande diversidade de configurações que a autoridade adquire, podemos inferir, de modo geral, a sua estreita relação com a ordem social vigente. Na Idade Média, a ideia preconizada pela Igreja à sociedade era dividida, em grau de relevância, entre os indivíduos que oram (sacerdotes), os guerreiros e os trabalhadores, principalmente compostos por agricultores.

Mas Eco (1986) nos interroga sobre qual Idade Média estamos a abordar. Para o autor, no período de dez séculos que a compõem, há diversas mundividências, nem sempre contraditórias, mas distintas entre si, como a época romana rural, aquela em que segue o predomínio romano, mas com a reconstrução das cidades ou ainda quando desperta a laicidade

.

O autor também ressalta a importância de estudar este tempo histórico, pois, segundo ele, é possível fazer paralelos culturais entre a medievalidade e a contemporaneidade, visto que há

perfeitas correspondências entre os dois períodos que, por diversos caminhos mas, com utopias educacionais idênticas e com iguais camuflagens ideológicas das suas ajudas paternalísticas para controlar formas de pensar, tentaram uma ponte entre uma cultura letrada e uma cultura popular através da comunicação visual. (ECO, 1986, p. 81)

A preocupação em revisar a Idade Média e enfatizar a diversidade de períodos que a compõem também é seguida por Coser (2010). Para este, referindo- se aos importantes medievalistas Jacques Le Goff (2007) e Duby e Ariès (1990), a inclusão de segmentos sociais urbanos, como comerciantes e aqueles que realizam ofícios, tem a finalidade de superar a ideia errônea de que o fenômeno das cidades só veio com o advento do capitalismo e reconhecer o seu crescimento a partir do século XI, juntamente com o surgimento das universidades e o desenvolvimento da escolástica, mostrando a riqueza desta época histórica e retirando dela a designação de ‘idade das trevas’.

Ainda de acordo com os autores acima citados, entre os ofícios que surgiram com o desenvolvimento urbano está o intelectual que exercia a atividade profissional de professor e erudito, escrevendo e ensinando, função amplamente difundida com a chegada da escolástica. Para Hamilton,

o escolasticismo é o nome que se deu ao movimento medieval, que floresceu entre 1200 e 1500, o qual enfatizava a validação racional das crenças religiosas e influenciou as universidades do século XIII por meio de seu maior representante, Tomás de Aquino. (HAMILTON, 2001, p. 62)

Para São Tomás de Aquino, a autoridade tinha origem divina, e seus escolhidos eram revestidos de uma autoridade transcendente, fazendo com que a autoridade humana se assentasse na autoridade divina primordial. O exercício da autoridade era, portanto, investimento divino, e a Deus devia-se prestar conta da

autoridade depositada. Deus criador delegou aos homens a sua autoridade revestindo o pai para que este educasse os filhos, o papa guiasse a religião e a igreja orientasse as condutas e comportamentos da sociedade juntamente com o principado.

São Tomás de Aquino colocava em Deus toda responsabilidade em transferir sua autoridade aos homens. Deus daria aos pais o poder biológico de educar seus filhos; ao Papa, o poder de guiar a religião; e à igreja, o direito de ditar as leis da sociedade repartindo o poder com as autoridades eclesiásticas, os príncipes e os governantes. A autoridade surgia de um desígnio divino. Os escolhidos por Deus estariam assim investidos de uma autoridade transcendente. (TORRES; CASTRO, 2009, p. 93)

A Igreja Católica utilizou o mito de fundação dos romanos e o transferiu para a religião ao afirmar Deus como a origem de todas as coisas. Do mesmo modo, os apóstolos podem ser considerados os ‘pais fundadores do cristianismo’, já que testemunharam a vida, morte e ressurreição de Cristo, e graças aos quais os ensinamentos cristãos puderam ser transmitidos para as gerações futuras, primeiro por eles e posteriormente pelos evangelistas e sacerdotes, garantindo a institucionalização da igreja e a tradição de crenças e valores religiosos que estariam de posse da autoridade eclesiástica por muitos séculos. O vigor da origem comum recuperado pela Igreja uniria as várias gerações agora intermediadas por laços religiosos.

A base da Igreja como uma comunidade de crentes e uma instituição pública não era mais agora a fé cristã na ressurreição (embora essa fé permanecesse como seu conteúdo), ou a obediência hebraica nos mandamentos de Deus, mas sim o testemunho da vida, do nascimento, morte e ressurreição de Cristo como um acontecimento historicamente registrado. (ARENDT, 2000, p. 168)

A ressignificação da origem romana pela Igreja trouxe consigo os elementos autoridade e tradição, permitindo que a tríade romana persistisse, mesmo que em outras bases, com o fim do império romano e ao longo de toda a era cristã. A sua presença pode ser verificada quando a Igreja no século V passa a se dedicar aos

assuntos mundanos, além dos religiosos, e reclama para si a autoridade antes atribuída ao senado, designando ao rei o poder que fora do povo e distinguindo estes dois aspectos: autoridade e poder.

Neste momento, devemos ressaltar a importância de não se confundir autoridade e poder. A autoridade está baseada no reconhecimento de uma pessoa portadora de sabedoria e competências socialmente valorativas que se impõem como uma referência a ser considerada, não necessitando apelar ao uso da força, da violência ou da persuasão para ser respeitada. Sua potência se relaciona com o contexto social, estando além das características individuais e das relações de poder, mas fundamentada na ordem social na qual está inserida. A autoridade e o poder estão assentados em fontes distintas, sendo a primeira pertencente à esfera da política e da moral, estabelecendo uma relação com o julgamento dos homens e com as ações destes, portanto, somente a autoridade, e não o poder, é capaz de invocar a razão e a responsabilidade social dos agentes (MORGADO, 2010, p. 51- 56).

A ordem ou o comando emitido pela autoridade também difere da ordem ou do comando do poder. Em certo sentido, já que a autoridade não fala com a voz da ameaça, depende do reconhecimento e da renúncia consciente e voluntária dos agentes, a afirmação de uma pretensão de autoridade pode ser vista como um pedido: um pedido de disponibilidade, de boa vontade e de boa-fé a quem a ela se vai sujeitar. A obediência à autoridade, para além de não ser uma obediência irreflectida, tão-pouco é a obediência do medo. Assenta outrossim numa disponibilidade para obedecer que junta portador e sujeito da autoridade. (Ibidem, p. 56)

Quanto à relação entre a autoridade eclesiástica e o poder do rei, convém destacar que a fronteira entre estes era difusa e móvel, sofrendo mudanças ao longo do tempo, resultando em relações ora complementares, ora de hierarquia e submissão. Novamente, Morgado (2010) pode nos ajudar a compreender melhor este universo. Seu texto, embora longo, explica a complexidade deste contexto:

[...] Papa Gelásio, quando anunciou, num dos momentos mais determinantes da história da civilização européia, que o mundo era regido, por um lado, pela “autoridade (auctoritas) sagrada dos pontífices”, e, por outro lado, pelo “poder (potestas) régio”, ambos

provenientes de Deus. Numa primeira leitura, a formulação de Gelásio determinava a separação de jurisdições numa mesma ordem global, ou a Igreja não podia intrometer-se nos assuntos políticos, nem vice-versa. [...] Papa e imperador seriam, assim, pessoas complementares na ordem da Cristandade. Gelásio retirou a conclusão que se impunha quanto ao presumível empate entre os dois princípios de regência do mundo. A autoridade eclesiástica tinha mais ‘peso’ do que o poder público, já que diante do tribunal do juízo final os pontífices teriam de responder inclusive pela conduta dos reis. [...] Através deste enunciado, a autoridade (espiritual) tinha mais peso do que o poder (temporal). (Ibidem, p. 42-43)

Não é, pois, surpreendente que a autoridade dos sacerdotes não fosse questionada, enquanto o mesmo não ocorria com os governantes os quais tinham suas ações sujeitas às desconfianças. Não era possível ter uma submissão cega ao governo, pois este era formado por homens que tinham autonomia e jurisdição limitadas perante Deus. Todavia, o homem era considerado como imagem e semelhança do Criador e, portanto, como um ser livre. A submissão ao governante diz respeito ao consentimento de um homem livre que julga e permite ser comandado por outro para seu próprio sucesso.

O cristianismo, embora tivesse que manter relações com os poderes seculares, possuía uma autoridade superior àquela dada ao plano terrestre. A obediência a Deus, esta sim era inquestionável. Segundo Morgado (2010, p. 38), na tradição judaico-cristã, Deus é consagrado como possuidor de um amor infinito a sua criatura, dotado de uma sabedoria absoluta, além de ser onipotente e onisciente. Deste modo, o homem lhe deve graças pelo amor recebido, obediência àquele que sabe mais e que tudo pode e com quem sempre está em dívida, pois lhe deve a própria existência.

Mas também podemos compreender a obediência a Deus graças ao aproveitamento do pensamento dos gregos, especificamente de Platão, e devido à separação entre as dimensões da vida concreta e o mundo das ideias, explicando os assuntos mundanos por fontes transcendentais e introduzindo a concepção de inferno de Platão.

Após a morte de Sócrates, Platão deixou de acreditar na persuasão como meio suficiente para assegurar que os homens agissem com justiça, e começou a buscar outras formas para garanti-la. No final da República, Platão criou o mito do

Inferno, no qual apresentava um mundo de recompensas e de punições futuras, motivando, assim, o povo a agir de acordo com as orientações do governante, numa ação claramente política (OLIVEIRA, D., 2006).

O cristianismo, após filtrar e adaptar o pensamento de Platão, adotou o inferno por ele criado e relacionou-o a Deus como o detentor da verdade e da perfeição que poderia proporcionar um mundo futuro de dádivas, mas também de castigos, derivando na obediência à autoridade de Deus.

A Igreja Católica adotou a concepção de ruptura entre o mundo humano e transcendente da Grécia antiga. Platão criou a figura de inferno acreditando essa ser uma forma de moldar o comportamento do povo. Esta coerção baseada no medo foi amplamente utilizada pela igreja como forma de manter-se no poder, pois castigos e punições futuras alimentava a fé e tornava intocável a autoridade da igreja, sendo esta considerada um desígnio de Deus. (TORRES; CASTRO, 2009, p. 93)

A crença na existência do inferno foi amplamente difundida por Agostinho, principalmente quando contrapõe a Cidade de Deus e a Cidade dos homens, sendo que, na primeira, reinava a lei eterna e a justiça divina, e, na segunda, predominava a heresia, o pecado e o desvio dos valores cristãos. A existência do pecado e da desordem intrínseca ao mundo dos homens justificaria a necessidade da autoridade de um Deus omnipresente, omnisciente e, sobretudo, omnipotente. Como questionar algo tão influente?

E Deus aparece simultaneamente como actor (palavra derivada do verbo agere ou agir) e como autor (ou aumentador). Deus era actor, ou agente, enquanto criador do Universo a partir do nada. Era autor, ou literalmente aumentador, enquanto meu criador, atendendo a que a criação da minha vida e da minha pessoa aumentou e acrescentou ao mundo a minha vida e a minha pessoa. (MORGADO, 2010, p. 63)

A resignação à autoridade, a contemplação e a interiorização da conduta cristã seria o caminho possível para a conquista da Cidade de Deus. O medo foi utilizado como elemento religioso e político que conduzia ou impedia as ações, objetivando o controle e o domínio humano, inclusive por meio do uso da violência. No entanto, esta articulação político-religiosa corrompe a concepção original de

autoridade da História Ocidental, pois aproxima a autoridade religiosa do poder secular, esferas consideradas distintas pelos gregos e romanos.

Para Arendt,

na medida em que a Igreja Católica incorporou a filosofia grega à estrutura de suas doutrinas e crenças dogmáticas, ela amalgamou o conceito político romano de autoridade, que era inevitavelmente baseado em um início, à noção grega de medidas e regras transcendentes. (ARENDT, 2000, p. 170-171)

Contudo, ao relacionar padrões gerais de comportamento com orientações transcendentais em um determinado contexto de ordem política, a era cristã acaba por cristalizar a tríade romana de tal modo que Religião, Tradição e Autoridade passam a ser elementos distintos, mas indissolúveis, sendo que a ameaça a um deles traz como consequência a crise nos demais.

As consequências da doutrina cristã na educação são diretas. “Agostinho é considerado o filósofo que revisitou os ensinamentos de Platão e vinculou a filosofia grega aos dogmas cristãos. Podemos dizer que Agostinho foi o amálgama filosófico entre a Antiguidade e a religião católica da Idade Média” (TORRES; CASTRO, 2009, p. 93). A sua proposta para a educação era coerente com o objetivo de alcançar a salvação da alma, derivando na valorização da consciência moral e do aprimoramento espiritual que levaria ao reconhecimento da força divina, suprema autoridade e à qual o homem deveria se resignar.

No início da era cristã, tratava-se de uma educação sem escolas, na qual a Igreja era reconhecida como elemento central para a orientação educacional e a família era apontada como a comunidade educativa primária que fornecia a base moral religiosa, garantindo que a autoridade estivesse assentada na transcendência divina. Aos poucos, os padres da igreja constituíram a denominada patrística, na qual Agostinho foi destaque, pregando uma formação humanística.

Todo o seu interesse se centra nos problemas de Deus e da alma que serão os mais importantes para a solução integral do problema da vida, defendendo a existência espiritual que vem de Deus, e é como que uma luz indispensável ao conhecimento intelectual. (RODRIGUES, 2007, p. 29)

A educação pregada por ele baseava-se na renúncia e na humildade diante do desconhecido, pois somente por meio da obediência e disciplina a educação moral e espiritual seriam alcançadas. O temor a Deus e o desejo da salvação passam a exigir a vigília de si mesmo, pautada não na inteligência, mas na consciência do comportamento ético que iluminaria e levaria ao reconhecimento da lei eterna e da autoridade divina.

Ao educador cabia mostrar ao educando o caminho para se chegar ao poder divino e os valores morais inatos, que estavam adormecidos no interior de sua alma e que o educador auxiliaria a enaltecer. Assim, o controle sobre o corpo, os desejos e as emoções pretendido pela Igreja era alcançado pela educação predominantemente disciplinar, a fim de garantir os valores da ordem moral.

Com o surgimento das primeiras escolas cristãs a cargo dos sacerdotes desenvolveu-se a instrução catequista para a formação de eclesiásticos e, com isso, um novo perfil de educadores foi formado, os quais além de se preocuparem com a alma, estavam voltados às necessidades da vida mundana. Os mosteiros tornaram- se os lugares privilegiados, produtores da educação e da cultura, a partir dos quais os membros da igreja influenciavam as formas de comportamento e o modo de pensar de toda a sociedade medieval.

Embora o cristianismo considerasse todos os indivíduos como iguais, não diferenciando o povo da aristocracia, pois todos eram igualmente filhos de Deus e portadores da mesma natureza moral, concebendo a ideia de universalidade humana, esta não era uma prática no campo educacional, visto que uma pequena parcela da população era privilegiada, pois a ela era destinada à formação eclesiástica, enquanto ao povo era oferecida a educação catequética e dogmática.

Quanto às mulheres, e concordando com Duby e Ariès (1990), a historiografia da Idade Média mostra que estas tinham suas vidas submetidas ao domínio masculino, seja sob a tutela do marido, do pai ou do irmão, os quais acabavam por definir os espaços que estas deviam ocupar na sociedade medieval.

O dever primeiro do chefe da casa era vigiar, corrigir, matar se preciso, sua mulher, suas irmãs, suas filhas, as viúvas e as filhas órfãs de seus irmãos, de seus primos e seus vassalos. O poder patriarcal sobre a feminilidade via-se reforçado, porque a feminilidade representava o perigo. Tentava-se conjurar esse perigo

ambíguo encerrando as mulheres no local mais fechado do espaço doméstico, o quarto [...]. (Ibidem, p. 88)

Mas a Igreja também tinha o poder de influenciar na definição dos papéis que as mulheres e os homens deveriam ter na sociedade. Em meados do século XII, com a sacralização do casamento, a Igreja demarca de forma absoluta e impositiva a divisão sexual, cabendo às mulheres seguir as funções historicamente estabelecidas de esposas, mães e filhas, em um espaço quase que santificado, ou então, e em oposição a este, um lugar social marginalizado, excluído, no qual as mulheres eram vistas como perigosas ou misteriosas, pois possuidoras de forças mágicas que deveriam ser combatidas já que representavam a desagregação dos valores morais sobre os quais a Igreja procurava manter o controle.

Esta historiografia mostra a demarcação do espaço e do corpo das mulheres dada pelo homem. No entanto, Duby e Ariès (1990) observam que elas também se ocupavam de outros papéis sociais e salientam a importância de resgatar estes lugares marginais como preciosos indícios da complexidade da sociedade desta época, mesmo que reconhecendo a dificuldade deste garimpo, pois

em um tempo em que a Igreja conservava ainda quase inteiramente o monopólio da escrita e pelo qual quase exclusivamente o pensamento dos eclesiásticos é acessível ao historiador, as mulheres educadoras e monjas aparecem quase que como uma exceção. (Ibidem, p. 90-91)

Assim, mesmo sob o julgamento da Igreja que lhes aproximava ora de Maria, ora de Eva9, as mulheres inseridas em uma sociedade claramente androcêntrica, apresentavam-se tanto como reprodutoras dos valores vigentes, quanto transformadoras das normas da sociedade medieval. As tarefas domésticas ou as obrigações religiosas eram ao mesmo tempo impostas pela sociedade, mas também eram lacunas das falhas falocêntricas que permitiam às mulheres frequentar os espaços públicos e favoreciam o encontro com o outro (Ibidem).

9 Macedo (2002) apresenta quatro tipos de representações e modelos femininos concebidos pelo

ideário masculino dominante e que foram incutidos na imagem da mulher medieval, mas que perpassaram esta época, chegando aos nossos dias. São elas: Eva, Maria, Dama e Mulher ardilosa. Para detalhes, ver o capítulo quarto do livro A mulher na idade Média.

Dentro deste contexto de reconstrução da história, Macedo (2002, p. 37) preocupa-se em desmistificar o papel da mulher na Idade Média ocidental, mostrando a diversidade que compunha este grupo social, pois elas atuavam como artesãs, negociantes, domésticas, mas principalmente camponesas, podendo exercer autoridade sobre outras mulheres quando “precisavam demonstrar autoridade suficiente para evitar a rebeldia dos vassalos e impedir ataques de vizinhos ambiciosos”, provando que as mulheres não eram tão passivas quanto os homens e a Igreja desejavam que fossem e nem como a História tradicional as divulgou.

A era cristã, como qualquer outro momento da história, sofreu mudanças ao longo do tempo e do lugar em que se encontrava. A partir do final do século XII, o pensamento cristão sofreu profundas modificações e uma das maiores expressões dessas transformações foi a introdução de um novo modo de pensar proporcionado por Tomás de Aquino.

A doutrina de Tomás de Aquino foi influenciada pelo pensamento da Grécia Antiga, no entanto, ao contrário de Agostinho, que se aproximava das ideias de Platão, Aquino preferia o realismo racional de Aristóteles e procurou adaptá-lo à doutrina cristã, visando conciliar fé e razão. A inauguração da racionalização religiosa possibilitou o deslocamento da doutrina que se fundamentava no princípio ‘eu entendo o mundo porque creio’, tal como defendido por Agostinho, para um sistema em que ‘eu creio porque entendo o mundo’ proposto por Aquino, invertendo a lógica do pensamento medieval.

O contexto social em que Aquino vivenciava era composto por uma sociedade em franca transformação. A transição de uma sociedade predominantemente agrária para um novo modo de produção mais condizente com o crescimento das cidades e do comércio, os avanços tecnológicos e a emergência de corporações que influenciaram o mundo do trabalho, o surgimento das universidades e a criação de um sistema de escolarização possibilitaram a ampliação do acesso à educação. Todos estes acontecimentos do final da Idade Média enredavam para a crise do monopólio político e cultural da Igreja e o nascimento da realeza, exigindo novas configurações filosóficas que levassem em conta a valorização da matéria.

Ao refletir sobre as novas demandas da vida citadina, Aquino reconhece a necessidade de ensinar e transmitir a caridade. O valor moral da caridade pregada

pela Igreja é compreendido pelo autor como sendo a capacidade do indivíduo de agir para o bem. No entanto, o indivíduo não é ‘naturalmente’ caridoso, não se trata de uma característica inata, mas sim que precisa ser ensinada aos sujeitos para que estes possam exercitar o convívio em sociedade, isto é, faz-se necessário conduzi- los para o bem comum.

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