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Internaliseringsprosessen

2 Teori

2.4 Internaliseringsprosessen

Ainda na vertente catingueira, verificamos a paratopia na cenografia da canção “O peão na amarração” 45, na qual o enunciador é caracterizado como o empregado rural. O peão, em um momento de descanso, entoa para si um canto de amarração46, no qual reflete sobre a condição em que se encontra. Segue o texto:

Inconto a sulina amansa / Ricostado aqui no chão / Na sombra dos imbuzêro / Vomo intrano in descursão / É o tempo qui os pé discança / E isfria os calo das mĩa mão / Vô poĩano nessa trança / A vida in descursão / Na sombra dos imbuzêro / No canto de amarração // Tomo falano da vida fela vida do pĩão / Inconto a sulina amansa / E isfria os calo da mão / U'a vontade é a qui me dá / Tali cuma u'a tentação / Dum dia arresolvê / Infiá os pé pelas mão / Pocá arrôcho pocá cia / Jogá a cargano chão / I rinchá nas ventania / Quebrada dos chapadão / Nunca mais vim nun currá / Nunca mais vê rancharia / É a ceguêrade dexá um dia de sê pĩão / Num dançá mais amarrado / Pru pescoço cum cordão / De não sê mais impregado / E tomém num sê patrão // U'a vontade é a qui me dá / Dum dia arresolvê / Jogá a carga no chão // Cumo a cigarra e a furmiga / Vô levano meu vivê / Trabaiano pra barriga / E cantano inté morrê / Venceno a má fé e a intriga / Do Tinhoso as tentação / Cortano foias pra amiga / Parano ponta c'as mão / Cumo a cigarra e a furmiga / Cantano e gaiano o pão / Vô cantano inconto posso / Apois sonhá num posso não / No tempo qui acenta o almoço / Eu soĩn qui num sô mais pĩão / U'a vontade aqui mi dá / Dum dia arresolvê / Quebrá a cerca da manga / E dexá de sê boi-manso / Dexá carro dexá canga / De trabaiá sem discanso / Me alevantá nos carrasco / Lá nos derradêro sertão / Vazá as ponta afiá os casco / Boi turuna e barbatão / É aceguera de dexá / Um dia de ser pĩão / De nun comprá nem vendê / Robá isso tomém não / De num sê mais impregado / I tomém num sê patrão / U'a vontade qui me dá / Dum dia arresolvê / Boi turuna e barbatão // Toda veiz qui vô cantá / O canto de amarração / Me dá um

45 “Enquanto o sol quente amansa / Recostados aqui no chão / Nas sombras dos umbuzeiros / Vamos entrando em discussão // É o tempo em que os pés descansam / E esfriam os calos das minhas mãos / Vou pondo nessa trança / A vida em discussão / Nas sombras dos umbuzeiros / No canto de amarração // Estamos falando da vida / Amarga vida do peão / Enquanto o sol quente amansa / E esfriam os calos das mãos // Uma vontade é a que me dá / Tal como uma tentação / De um dia resolver / Enfiar os pés pelas mãos / arrebentar o arrocho e a cilha / Jogar a carga no chão // E relinchar na ventania / Nos ermos dos chapadões // Nunca mais vir em um curral / Nunca mais ver rancharias // É o desejo de deixar um dia de ser peão / Não dançar mais amarrado / pelo pescoço com cordão / De não ser mais empregado / E também não ser patrão // Uma vontade é a que me dá / De um dia resolver / Jogar a carga no chão // Como a cigarra e a formiga / Vou levando meu viver / Trabalhando para a barriga / E cantando até morrer / Vencendo a má fé e a intriga / Do Tinhoso as tentações / Cortando folhas para a amiga / Aparando as pontas com as mãos / Como a cigarra e a formiga / Cantando e ganhando o pão // Vou cantando enquanto posso / pois sonhar não posso não / No tempo que assenta o almoço / Eu sonho que não sou mais peão // Uma vontade que me dá / De um dia resolver / Quebrar a cerca da manga / E deixar de ser boi- manso / Deixar carro deixar canga / De trabalhar sem descanso // Me levantar nos carrascais / Lá nos extremos do sertão / Ajustar as pontas afiar os cascos / Boi forte e bravio // É o desejo de deixar / Um dia de ser peão // De não comprar nem vender / Roubar isso também não / De não ser mais empregado / E também não ser patrão // Uma vontade que me dá / de um dia resolver / Boi forte e bravio // Toda vez que vou cantar / O canto de amarração / Me dá um aperto na goela / E um nó no coração / Mas a canga no pescoço / Deus pôs por causa de Adão / Dessa Lei nunca me esqueço / Com suor comer o pão // Mesmo Jesus quando moço / Na Terra também foi peão // E toda viz que for cantar / Para me livrar da tentação / Para essa vontade passar / Não canto mais amarração.” Transdialetação nossa, com o auxílio da transdialetação feita por Costa (2012, p. 195-196). 46 No glossário apresentado por Schouten (2005), o gênero amarração é descrito como “modalidade raríssima de cantoria, gênero hoje quase extinto [...]. É de pós-canto de trabalho”.

pirtucho na güela / E um nóno coração / Mais a canga no pescoço / Deus ponhô pru modi Adão / Dessa Lei nunca mi isqueço / Cum suó cumê o pão / Mermo Jesus cuano moço / Na Terra tomém foi pĩão // E toda veiz qui fô cantá / Pra mim livrá da tentação / Pr'essa cocêra cabá / Num canto mais amarração (MELLO, Elomar Figueira. O peão na amarração. Intérprete: Elomar. In: MELLO, Elomar Figueira.

Cartas catingueiras. Vitória da Conquista: Gravadora e Editora Rio do Gavião,

1983, CD 1, faixa 7).

Observamos a embreagem paratópica no investimento ético através da apresentação do enunciador, o peão, na constituição de um ethos que percorre determinadas “posições” de uma paratopia social. A começar pela posição mínima da hierarquia social na qual está inserido, como observamos no trecho (“Tomo falano da vida / Fela vida do pĩão”). A função de peão, no âmbito do trabalho rural, é ofertada àqueles menos graduados, que estejam predispostos a executar serviços braçais, que requerem grande esforço físico e sempre serão subordinados aos supreriores.

Guerreiro (2007), em trabalho sobre a obra de Elomar, caracteriza o peão nessa canção, indicando um caráter sociopolítico sugerido no texto, em que,

O personagem da canção é um tipo de empregado rural, cuja função é a de auxiliar de boiadeiro, condutor de tropas, amansador de animais ou, ainda, lavrador. Ele denuncia seu lugar desprivilegiado na organização social hierárquica, em que está subjulgado aos mandos do patrão, o dono da terra. (GUERREIRO, 2007, p. 95).

O enunciador, em reflexão acerca de sua função, toma consciência da posição inferior que ocupa ao comparar o seu trabalho ao trabalho animal, como aquele exercido pelos bois de serviço (“boi manso”), utilizado para puxar cargas muito pesadas.

Há uma tendência zoomórfica presente em toda a enunciação, através da constante relação entre o trabalho do peão e o trabalho dos animais de carga ou tração, bois, burros, jumentos etc. Consciente de sua condição quase animalesca, o enunciador manifesta a sua insatisfação, trazendo à tona uma rebeldia quimérica (“U'a vontade é a qui me dá / Tali cuma u'a tentação / Dum dia arresolvê / Infiá os pé pelas mão”). No entanto, esse incoformismo e a atitude insurgente são pretenções utópicas, realizadas apenas no momento lúdico do canto de amarração (“Vô poĩano nessa trança / A vida in descursão”). A liberdade idealizada pelo enunciador é apresentada na comparação do peão com boi bravio, no trecho (“Pocá arrôcho pocá cia / Jogá a carga no chão / I rinchá nas ventania / Quebrada dos chapadão / Nunca mais

vim nun currá / Nunca mais vê rancharia”). Ao expressar sua vontade de ser como um boi selvagem, o peão sai da sua posição inferior, obediente, para uma condição de superioridade, mesmo que essa ascensão só seja possível no único momento em que pode refletir e expressar sua ideologia, o momento do canto.

Nesse sentido, o próprio canto de amarração configura-se como um ato transgressor no contexto em que o enunciador está inserido. Através do canto, o peão atinge a condição paratópica máxima, “a partir de uma atitude rebelde, anárquica e contestadora da ordem vigente” (GUERREIRO, 2007, p. 94), equiparando-se aos bois bravios, selvagens, boi turuna e boi barbatão, criados livres nas matas (“Dexá carro dexá canga / De trabaiá sem discanso / Me alevantá nos carrasco / Lá nos derradêro sertão / Vazá as ponta afiá os casco / Boi turuna e barbatão”).

A embreagem paratópica ainda é visível na passagem da canção onde há a alusão à fábula A Cigarra e a Formiga, atribuída a Esopo e recontada por La Fontaine, em que o enunciador compara a sua condição de trabalho à da formiga (“trabaiano pra barriga”), e, seu tempo de descanso, à função da cigarra (“cantano inté morrê”). Essas duas condições (de trabalhador e de cantador) não favorecem nenhuma ascensão na hierarquia social, uma vez que nem o trabalho de peão, nem o trabalho de cantador, no contexto sertanejo, garantiriam de fato uma melhoria de vida. Há, na alusão da fábula citada, a representação da paratopia do compositor, pois a prática cancionista, pela relação com a arte, não pode ser tomada como uma atividade meramente lucrativa.

Apesar de o ato do canto proporcionar momentos de reflexão acerca da condição social, o peão tem plena consciência de que sua voz só alcança algum relevo no momento no momento do ócio, do lazer, da criação. Fora do canto, há outra tomada de consciência, pautada em um conformismo.

O enunciador constata que o desejo de liberdade, por sua vez, está associado a forças malígnas (“do Tinhoso as tentação”). Há a configuração de um ethos resignado, próprio do peão trabalhador (“Mais a canga no pescoço / Deus ponhô pru modi Adão / Dessa Lei nunca mi isqueço / Cum suó cumê o pão / Mermo Jesus cuano moço / Na Terra tomém foi pĩão”), que acaba por suprimir o ethos insurgente, atribuído ao peão “cantador” (“E toda veiz qui fô cantá / Pra mim livrá da tentação / Pr'essa cocêra cabá / Num canto mais amarração).

Dessa forma, o enunciador transita entre a condição paratópica máxima, associada ao ethos insurgente e a condição paratópica mínima, conferida pelo ethos resignado. Porém, ocorre ainda uma inversão de valores. A condição resignada, ao final do canto, adquire valor positivo: para o peão, almejar a liberdade significa ceder às tentações, portanto tornar-se fraco, ao passo que aceitar sua condição com resignação o fortificará, como Jesus, que “na Terra tomem foi pĩão”, mas reina nos céus. Já a condição insurgente adquire valor negativo, pois ceder às “tentações” de liberdade, significa não ser resistente às dificuldades da própria vida.