minerais (elaborado pelo Prof. Dr. Vincent Valles). Círculos vazados repre-
sentam amostras dos arredores da lagoa do Meio (Pz2, G0, G1, G2 e lagoa).
92 concentrações de sílica nas águas são em maioria comparáveis àquelas consideradas por Chadwick et al. (1987b) como suficientemente altas para permitir a sua precipitação. Deste modo, é bastante provável que o pH diminua em períodos de grandes cheias, alternados com períodos de mínima seca no local, permitindo a ocorrência de precipitação.
Cabe destacar ainda que, diferentemente dos Pedons 3 a 5, os fragmentos do horizonte 6 em P1 e P2 foram pulverizados em água, HCl 1N, NaOH 1M e NaOH 4M. Estes resultados, aliados ao fato destas amostras apresentarem consistência muito dura e firme, enquadram o horizonte 6 destes pedons como um fragipan. É possível que o grau de cimentação com sílica em P1 e P2 não seja o suficiente para um endurecimento irreversível (Fanning & Fanning, 1989), mas isto pode ser confirmado apenas com futuras análises de dissolução seletiva.
Gênese de minerais de argila
Altos valores de pH conduzem não apenas à solubilização da sílica, mas também do alumínio (Bohn et al., 1985). Desta forma, é esperado que, em determinadas condições ambientais, o Si(OH)4 precipite-se não apenas como sílica amorfa, mas se
recombine com Al3+ e cátions básicos e envolva-se na formação de minerais de argila. De fato, a formação autigênica de argilo-minerais tem sido amplamente registrada em solos submetidos a condições fortemente alcalinas (Whittig, 1959; Abtahi, 1977; Mahjoory, 1979). Como já citado nos Materiais e Métodos, indícios de formação autigênica de esmectita e mica, ambos presentes na argila fina, levaram a uma análise mais detalhada destes grupos de minerais nos capítulos 4 e 5, respectivamente. A caulinita, o outro mineral dominante na argila fina, parece contudo ter uma origem alóctone. Diagramas de estabilidade disponíveis na literatura mostram que este mineral é estável em baixos valores de pH-pK e de pSi(OH)4, condições vigentes em
solos ácidos e lixiviados (Bohn et al., 1985). Em condições ambientes de temperatura e pressão, a caulinita forma-se como um produto de intemperismo de uma série de minerais primários e secundários, que passam por perdas parciais de cátions básicos e sílica (Murray & Keller, 1993). Solos bem drenados e submetidos a altas taxas de precipitação favorecem a lixiviação e a conseqüente acidificação dos solos, sendo por isto ideais para sua gênese (Tardy et al., 1973, Velde, 1995).
93 O solos presentes no entorno da lagoa do Meio são mal drenados, fortemente alcalinos e apresentam alta saturação por bases trocáveis. Possuem, desta forma, condições opostas às ideais para formação de caulinita, o que sugere que este mineral não se formou nos arredores da lagoa do Meio. Algumas características dão suporte à esta hipótese: 1) seus índices de cristalinidade (IC) não apresentam uma tendência clara de variação em profundidade e ao longo da topossequência; diferentes IC poderiam refletir diferenças nas condições geoquímicas ao longo da topossequência e indicar autigênese deste mineral; 2) argilas neoformadas tendem a se concentrar na fração argila fina, mas há forte presença de caulinita tanto na argila fina quanto na argila grossa; e 3) na fração argila fina, a caulinita ocorre em maioria já nas proximidades da cordilheira, fora do alcance da zona de maior flutuação sazonal da lagoa salina, e em horizontes de pequena profundidade, menos influenciados pelas flutuações do lençol freático.
Assim, é provável que a caulinita da área de estudo tenha sido transportada pelo rio Paraguai e seus afluentes principalmente durante as cheias e depositada junto com os sedimentos arenosos da Formação Pantanal. Como já explicitado no Capítulo 2, as áreas–fonte destes sedimentos localizam-se essencialmente no Planalto de Maracaju, de onde são provenientes grande parte das nascentes dos cursos d’água que banham a região. Os solos aí dominantes são propícios para a formação de caulinita, pois são Areias Quartzosas álicas, ácidas e bem drenadas (atualmente Neossolos Quartzarênicos–Embrapa, 2006), muito semelhantes aos Latossolos de textura média presentes nos arredores (Orioli et al., 1982). Além disto, caulinitas com maiores teores de Fe3+ do que a média esperada, tal como as presentes nos solos da lagoa do Meio, parecem ser relativamente comuns em solos dos meios tropicais (Herbillon, 1976).
Por outro lado, experimentos de dissolução da caulinita em temperatura e pressão ambientes mostram que as concentrações de Si(OH)4 e Al3+ dissolvidos são muito
altas em pH fortemente ácidos ( 3) e fortemente alcalinos ( 10), sendo a taxa de dissolução dependente da atividade de prótons e hidroxilas, respectivamente (Huertas
et al., 1999). Como uma grande parte dos valores de pH das águas e dos solos são fortemente alcalinos, a caulinita presente na área de estudo está provavelmente sofrendo dissolução e liberando localmente Si4+, Al3+ e Fe3+ para solução. Cristais
94 hexagonais de caulinita com vértices arredondados e laterais onduladas ou rugosas e cristais com formas irregulares parecem ser evidências deste processo.
3.4.4 – Classificação dos solos
Os horizontes 1, 2 e 4 foram classificados, respectivamente, como horizontes A, H e E, mas o horizonte 3 não se enquadrou perfeitamente em nenhuma definição de horizonte pedogenético ou diagnóstico (Oliveira, 2005). O horizonte 5 atende aos requisitos para horizonte diagnóstico glei e destaca-se pelo caráter sódico e carbonático, sendo então denominado de Bkng. O horizonte 6, por sua vez, enquadra- se tanto como horizonte glei em toda a topossequência quanto como fragipã em P1 e P2 e duripã em P3, P4 e P5. Estas características aliadas ao seu caráter sódico conferiram-lhe a denominação de Bnxg em P1 e P2 e Bqng em P3, P4 e P5 (Embrapa, 2006).
Apesar dos horizontes Bkng (5) e Bnxg (6) estarem presentes ao longo de toda a topossequência, eles não puderam ser incluídos na classificação de P1 por estarem situados abaixo do limite de profundidade padrão estabelecido pelo Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS). Desta forma, este pedon foi enquadrado como Neossolo Quartzarênico Órtico, êutrico. A presença do horizonte diagnóstico Bkng dentro de 150 cm de profundidade e a ocorrência de caráter sálico (CE>7 dS/m) e de caráter sódico (100Na/CTC 15%) dentro de 100 cm classificam P2, P3, P4 e P5 como Gleissolo Sálico Sódico, típico (Embrapa, 2006).
3.5 – Conclusões
A ocorrência de processos pedogenéticos fundamentais ligados à solonização confirma a presença de solo em todo o entorno da lagoa do Meio, apesar da ausência parcial de vegetação. A alta saturação em sódio e o pH fortemente alcalino foram responsáveis pelo desenvolvimento de características morfológicas típicas de solos sódicos, tais como feições indicativas de migração de colóides, camadas endurecidas e presença de carbonatos de cálcio, magnésio e sódio neoformados.
Como os solos e as águas relacionadas à lagoa do Meio parecem ser representativos da Baixa Nhecolândia, é possível que a solonização e os processos pedogenéticos fundamentais associados sejam os principais responsáveis pela gênese dos solos do entorno das lagoas salinas. A provável alta saturação em Na+ nos solos associados às
95 salinas da Baixa Nhecolândia não é retratada, entretanto, no mapa de distribuição dos teores de Na+ no complexo sortivo do Pantanal (Figura 2.15, p. 39), organizado por
Amaral Filho (1986) e apresentado no Capítulo 2.
Ressalta-se, ainda, que a formação de Podzóis Hidromórficos, tal como sugerido por Sakamoto (1997) e Fernandes (2000), parece não ser possível nas proximidades destas lagoas. Apesar do processo de podzolização ter características morfológicas em comum com o de solonização, tal como a acumulação e migração de matéria orgânica, o primeiro desenvolve-se essencialmente em condições ácidas e o segundo em condições fortemente alcalinas.