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Interior de la Torre de Canyamel

Energia Nuclear (IPEN). Ao ser informada desta concorrência, a CNEA apresentou, também, uma proposta. O Instituto que o Peru queria construir constituía-se de um reator de produção de radioisótopos de 10 MW térmicos; uma planta de produção de radioisótopos; laboratórios de pesquisa de física, química, engenharia e eletrônica; laboratórios para a proteção radiológica e segurança nuclear; os laboratórios que passariam a ser o centro nacional de especialidade; e as obras de infraestrutura necessárias: torre de água, caminhos e guardas de controle. Levando-se em consideração o bom relacionamento entre os presidentes Videla e Morales Bermudez e o fato da Argentina ter apresentado uma opção que incluía o repasse de tecnologia e o financiamento da proposta, foi escolhida a proposta argentina. O contrato foi assinado em Novembro de 1978. Este representou a primeira transferência de tecnologia nuclear de grande porte realizada pela CNEA. O reator de pesquisas do centro peruano é o de maior potência que se encontra operativo na América Latina e seus laboratórios configuram a instalação mais importante da região para a produção de radioisótopos e radiofármacos. O projeto foi financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento da Argentina. O Centro foi inaugurado oficialmente em 19 de Dezembro de 1988 na presença de Alan García e Raul Afonsín. O custo total foi de aproximadamente 106 milhões de dólares. A vontade de transferir tecnologia entre a CNEA e o IPEN foi a base do referido contrato, que permitiu que as empresas peruanas participassem de todas as etapas do projeto, desde a engenharia conceitual até a execução do projeto, enquanto a CNEA mantinha a responsabilidade técnica. Assim, os profissionais peruanos se integraram com os argentinos. As empresas peruanas participaram nas obras civis do centro e auxiliaram as empresas argentinas a fabricarem componentes mecânicos, eletromecânicos e eletrônicos para o centro. Além disto, houve a capacitação de 150 profissionais e técnicos peruanos para realizarem a manutenção do centro, por intermédio de cursos, seminários e aulas práticas, que ocorreram tanto na Argentina como no Peru. O IPEN e as universidades peruanas participaram ativamente dos programas de capacitação. Foi construído o reator RP-0 para treinamento e capacitação dos profissionais peruanos, em um curto espaço de tempo, sendo inaugurado, na cidade de Lima, oficialmente, em julho de 1978. Para garantir a segurança de Lima, foi realizado um estudo completo sobre o lugar das instalações deste reator. O RP-0 é um reator pequeno com núcleo enriquecido a 20%, moderado com água desmineralizada e com refletor de grafite. Para o núcleo do reator RP-0, foram utilizados os elementos combustíveis do reator RA-0 de Córdoba, fabricados pela

Da mesma forma, em virtude dos interesses econômicos na África Ocidental, como em Guiné-Bissau, em Angola e em Cabo Verde, o Brasil “contribuía para sustentar regimes de esquerda, em tácita aliança com a União Soviética e Cuba” (sem entrar em confronto direto com os norte-americanos). Esta política externa brasileira, que atuava em diversos foros e relacionava-se com diversos países, no início da década de 80, ficou conhecida como universalismo.29 Esta postura política não era nova e estava em consonância com o paradigma pragmático que norteou grande parte da política externa do período militar. Neste sentido, Saraiva Guerreiro, ministro das Relações Exteriores de Figueiredo, buscou manter um certo grau de autonomia do país, mesmo que a administração Reagan passasse a enfatizar a problemática da Guerra Fria (VIZENTINI,

1998. p. 276).

Um dos resultados deste pragmatismo verificou-se com a não-adesão do Brasil e da Argentina ao embargo internacional de grãos contrário à União Soviética pela invasão do Afeganistão em 1979, assim como os mesmos não participaram do boicote das Olimpíadas de Moscou em 1980. Salienta-se que o Brasil assinou, em 1981, um acordo com a União Soviética, comercial e tecnológico, de 5 bilhões de dólares, por um prazo de 5 anos (BANDEIRA, 1995, p.263).

Além disto, as Forças Armadas e a indústria bélica do Brasil e da Argentina passaram, desde a década de 70, a ter alguns ressentimentos dos Estados Unidos não apenas pelo baixo prestígio devido ao “fracasso na guerra do Vietnã, mas, sobretudo, devido à sua insistência em restringir-lhes as funções à defesa da ordem interna e à luta anti-guerrilha, recusando-se a fornecer-lhes material pesado e tecnologicamente

CNEA e obtidos em empréstimo pela Universidade de Córdoba. Estes combustíveis foram, posteriormente, elementos combustíveis similares ao do RP-10, fabricados na Argentina, mas enriquecidos na União Soviética. O Centro Nuclear de Investigaciones del Perú, que se chama agora Centro de Investigaciones RACSO, foi construído na cidade Huarangal, situada a 28 quilômetros da cidade de Lima. O reator RP-10, capaz de produzir radioisótopos e de servir como base para pesquisa científica, foi o elemento principal ao redor do qual foram desenhados as demais instalações e laboratórios do centro. O reator havia sido projetado para operar com urânio enriquecido a 90%, contudo, em virtude da lei de não proliferação sancionada pelos Estados Unidos em Abril de 1978, foi redesenhado o reator para converte-lo em um reator de urânio enriquecido a 20%. Apesar da modificação, não foi possível enriquecer o urânio nos Estados Unidos, sendo necessário envia-lo para uma empresa alemã que se encarregou da construção dos elementos combustíveis para o Peru. Outra série de elementos combustíveis foi produzida na Argentina e enriquecida na União Soviética. (De acordo com o CARASALES, Júlio César; ORNSTEIN, Roberto Mario. La Cooperación

Internacional de la Argentina en el campo Nuclear site www.cari1.org.ar/pdf/nuclearesp.pdf, verificado em 15 de Janeiro de 2005.).

29 BRASIL – Ministério das Relações Exteriores. Resenha de Política Exterior do Brasil. Ministério das Relações Exteriores, Brasília, n.26, jul/ago/set, 1980, p.61-64.

sofisticado”(BANDEIRA, 1995, p.259). Neste sentido, o Secretário de Estado Cyrus Vance anunciou planos de cortar pela metade a ajuda militar para a Argentina (de 32 milhões de dólares recomendados pela Administração Ford para 15,7 milhões), em virtude dos abusos dos Direitos Humanos cometidos no país. Em 1978, o Congresso norte-americano aprovou a emenda Humphrey-Kennedy à Lei de Assistência Estrangeira que proibia todas as vendas, auxílios, empréstimos ou treinamentos na área militar à Argentina. O Brasil já havia, em 1976, se antecipado a esta espécie de represália, denunciando o acordo de cooperação militar com os Estados Unidos de 1952.

Por isto, tanto o Brasil como a Argentina passaram a investir bastante na indústria bélica. Em 1977, por exemplo, apenas 20% dos armamentos do exército brasileiro provinham do exterior (com pouca participação norte-americana), sendo que, na década de 80, de acordo com os estudos de Scott D. Tollefson, o Brasil tornou-se um dos maiores exportadores mundiais de armas (ocupando a décima primeira posição entre os anos de 1985 a 1989). Nos anos 80, o Brasil exportava armas para 42 países, sendo que mais de quarenta por cento de sua produção era destinada a países como Líbia30 e Iraque.31

Também, a aproximação estratégica com o Iraque envolvia cooperação nuclear. De fato, o Brasil vendeu ao Iraque yellow cake de 1979 a 1990. Esta estratégia brasileira estava inserida num conjunto de medidas comerciais tidas com seu grande parceiro do Oriente Médio que, durante os anos de 1976 e 1990, perfizeram um total de trinta bilhões de dólares, representando um percentual de vendas maior do que o destinado a qualquer país europeu. De acordo com o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, o Iraque era o parceiro ideal para o Brasil. Esta afirmação pode ser verificada não apenas pelos automóveis, carnes, frangos, tratores e os serviços de construção de obras de infra-estrutura vendidos pelo Brasil, mas, também, pelo fornecimento de petróleo ao Brasil em uma época de crédito escasso, de juros altos e de uma grande recessão. 32

30 O Brasil era um grande parceiro da Líbia que, segundo Expedito Carlos Stephani Bastos, comprou diversos