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4.2 MTSAT Validation with EO data

4.2.1 Inter-comparison of full moasic

A Estrada Nacional 125 (EN125) é uma via de circulação entre várias áreas funcionais urbanas, de concentração residencial e de suporte das atividades económicas da região, permitindo construir uma visão do sistema urbano regional algarvio, uma unidades extensiva, em que as cidades se prolongam através da estrada, um continuum urbano.

Esta estrada será entendida como uma construção resultante da interação social, produto de determinadas lógicas, modas, usada por agentes diversos, sob a centralidade da atividade económica marcante, o turismo. A análise das suas margens urbanas, o efeito de mobilidade que apresenta e o seu papel no alargamento das cidades tradicionais algarvias terá de ser discutido.

Ao observar a estrutura urbana nas cidades litorais algarvias, particularmente nas suas representações gráficas (mapas) um elemento fundamental desponta, EN125. Esta estrada constitui-se como um móbil de extensão urbana, ligando os diferentes locais de dinamização turística, as cidades por onde esta passa, uma verdadeira avenida de dinamização urbana regional. (Guerreiro, 2003).

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Figura 8: Mapa do Algarve com a distribuição da população em 2001 e a localização da Estrada Nacional 125

Fonte: Jordi Nofre Figura 7: Imagens da EN 125

Fonte: autor

O seu uso a partir da década de 1960, possibilitou uma configuração rodoviária da mobilidade regional (Urry, 2004; Guerreiro, 2003), constituindo desta forma um ponto de partida para a compreensão da concentração urbana nos territórios adjacentes; para o entendimento da urbanização de espaços litorais, possibilitando o alargamento das antigas cidades tradicionais para a periferia numa lógica criadora de novas centralidades, numa dinâmica de periurbanização e suburbanização (Ascher, 1995)

A proliferação do transporte rodoviário privado, a instalação de atrações turísticas fora dos centros históricos tradicionais, a ausência de uma estrutura de

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transporte público e a necessidade de mobilidade entre diferentes pontos; levou a que o uso urbano da EN125 promovesse configurações particulares de metropolização.

A mais importante estrada do século XIX no Algarve ligava Lagos a Vila Real de Santo António, que apesar da má qualidade, permitia a circulação entre o Barrocal algarvio e o acesso às áreas litorais onde se localizavam as principais cidades como Lagos, Portimão, Silves, Faro, Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António, a estrada real nº78. A origem desta estrada é decorrente de uma cada vez maior utilização de antigos caminhos pedestres e de passagem de carros de mulas, que progressivamente vão sendo alcatroados e integrados como estradas. Em 1926 esta estrada passa a ser uma estrada nacional de primeira classe, a nº112, sendo em 1945 classificada como EN125 (Andrade, 2002), a cargo da Junta Autónoma de Estradas.

As margens da EN125, desde meados do século XX, começam a apresentar características de concentração residencial e comercial. As suas margens passam a ser usadas como montras, locais de exposição de produtos que estão à venda livre, demostrando uma utilização imaginativa do território. Desde os restaurantes e cafés às lojas de mobiliário, passando pelas empresas de promoção imobiliária e à venda de materiais de construção, das oficinas e stands de automóveis, às empresas dedicadas ao fenómeno turístico (jardinagem, à assistência aos resorts, venda de piscinas, náutica de recreio); são várias as utilizações.

Figura 8: Usos agrícolas e comerciais das margens da Estrada Nacional 125

´Fonte: autor

A dominância do transporte automóvel foi determinante para o desenvolvimento da urbanização em Portugal e no Algarve (Portas et al. 2011). Perante uma estrutura urbana que não tinha sido pensada para o uso automóvel, este tipo de estradas

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apresentam um valor urbano determinante, configurando as formas de mobilidade interurbana. A expansão urbana para a periferia das cidades de pequena dimensão algarvias foi favorecida por este corredor rodoviário, criando uma área polinuclear (Marreiros: 2010), determinante para compreender os modos de deslocação de uma população turística, de residentes, commuters e profissionais de distribuição de produtos. Grosso modo, um território estruturado com base no turismo, cuja diversificação funcional pode ser vista da estrada, espelhando as diferentes apostas turísticas desde a segunda metade da década de 1960; promovendo processos de requalificação urbana em diferentes municípios.

Um exemplo claro desta importância da mobilidade pode ser encontrada no exemplo de Quarteira, uma antiga povoação piscatória na primeira metade do século XX, que já detinha a única estação ferroviária do concelho de Loulé, assim como uma boa ligação à EN125, constituindo estes dois elementos móbeis da transformação urbana turística sofrida a partir da década de 1960.

Nestes territórios junto das bermas das Estradas Nacionais, a alteração funcional e estrutural das edificações e dos espaços é mais fácil do que nos centros urbanos tradicionais, estando menos visíveis ao controlo por parte dos órgãos camarários responsáveis, nomeadamente nos processos de construção civil e alteração ilegal das edificações. Estas áreas correspondem diretamente aos desejos dos seus proprietários, que são arquitetos, engenheiros, mestres de obra e pedreiros da sua própria construção, materializando uma cada vez maior autonomia nos processos de construção e de uso dos solos.

A EN125, tal como outras estradas nacionais, foram determinantes para o incremento turístico, através da constituição de novos núcleos urbanos numa dinâmica dispersiva, do alargamento dos polos urbanos tradicionais; que progressivamente se vão ligando de forma rodoviária a outros, complementando-se de forma económica, dominados maioritariamente pelo comércio, reféns desta estrutura rodoviária.

A concentração deste tipo de atividades ligadas ao desenvolvimento turístico e urbano, fora dos seus locais tradicionais de implantação, implica a constituição de um território bastidor da cena urbana e turística central. Na verdade este não é o principal palco da atração turística, não apresenta motivos de visita, não tem monumentos históricos ou património edificado classificado, não sendo o elemento mais reconhecível para quem visita região. Mas na verdade apresenta uma centralidade escondida,

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tornando-se fundamental para o acesso aos lugares mais visíveis do turismo, para a assistência e distribuição de diferentes produtos às instalações hoteleiras e de segunda habitação, dos parques de diversão aquática, para a qualidade de excelência pedida nos campos de golfe.

Esta estrada nacional sem custos para os utilizadores é paralela a uma autoestrada iniciada em 1991 e terminada em 2003, que permite a ligação entre pontos distantes na região, funcionando como uma circular rodoviária de ligação à fronteira espanhola, uma via longitudinal em que o mais importante é a deslocação entre pontos distantes, não podendo ser confundida com o efeito urbano da EN125.

Poderemos ir mais longe na análise do efeito extensivo destas estradas. As respostas clássicas de extensão urbana na Europa Ocidental apontam para a deslocação das camadas mais desfavorecidas do sector produtivo dos centros históricos tradicionais (que geralmente se gentrificam), para a consolidação de novas áreas urbanas periféricas. Este processo contínuo levará à concentração de atividades económicas longe do centro urbano tradicional, criando novas polaridades urbanas. (Salgueiro, 2001; Domingues, 2008; Ferrão, 2011; Portas et al.; 2011). Ao mesmo tempo, para além deste elemento de expulsão, poderemos analisar esta diversificação territorial como uma oportunidade, seguindo o alargamento das estruturas de saneamento básico, eletricidade e comunicações (que seguiam as bermas das estradas), criando o contexto perfeito para o aumento do interesse fundiário em relação a estes territórios antes isolados; uma oportunidade de negócio perante solos com uma avaliação fundiária mais baixa.

Desta forma as margens da EN125 compreendem estes dois processos que são de alguma forma contraditórios: se por um lado é bem evidente o processo de afastamento de determinadas atividades e pessoas dos polos tradicionais de dinamização

económica - os centros urbanos tradicionais – por outro lado, este afastamento poderá

ser visto como um elemento de diversificação económica. Como uma oportunidade que poderá trazer bastantes trunfos, implicando investimentos mais baixos e seguros, menos controlados pela iniciativa pública, mais flexíveis e dessa forma potencialmente mais bem-sucedidos, num contexto de fortíssima automobilização da sociedade e dos usos do espaço.

Sobre este contexto urbano, Álvaro Domingues recorda-nos a constituição de uma “Rua da Estrada” (Domingues, 2009), uma visão dos espaços urbanos como unidades extensivas, que se prolongam através da estrada, que extravasam as fronteiras

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clássicas de análise do objeto urbano, mediante as dinâmicas económicas, simbólicas e administrativas do território em questão.

A Rua da Estrada é então a imagem perfeita desta metamorfose. Mais do que lugar, ela emerge como resultado da relação, do movimento, o fluxo intenso que a percorre é o seu melhor trunfo e a sua própria justificação. Sem fluxo não há troca, nem relação, génese primordial da velha cidade (…) Não vale a pena apostar tudo na idolatria da cidade histórica, no trauma que ficou no rol das perdas, já não se ter discernimento sequer para avaliar se aquilo ainda é uma cidade ou se é um simulacro cénico limpinho e abrilhantado para mais um parque temático com programação contínua para o negócio turístico.” (Domingues, 2009 a., contracapa e 13).

Os usos urbanos das margens da EN125 apresentam uma mutação constante, combinando uma lógica comercial urbana, com a alteração tradicional não regrada dos espaços rurais. Estes processos de urbanização ajudam-nos a transcender alguns clichês relacionados com a forma como analisamos essas transformações urbanas, usando um novo quadro, a relação entre a cidade tradicional e os seus subúrbios, numa análise que intermedeia essas duas noções; acompanhando de facto novas formas de ocupação urbana do território, novas centralidades urbanas.

Esta estrada espelha uma metamorfose constante - a rapidez e intensidade que a transformação urbana encerra - articulando traços do passado com uma adequação cada vez mais contemporânea, criando situações conflituantes entre as velhas regras do urbanismo do qual o Estado é o único regulador e a necessidade de reinvenção e

diversificação turística e urbana. “Muitas das vezes é a própria rede viária e sobretudo

as rodovias que têm comandado o ordenamento, contrariando até o previsto em planeamento regional e em planos de ordenamento regional” (Madeira: 2006,71).

Desta forma a EN 125 apresenta uma dinâmica diversificada: junto da estrada a concentração de atividades económicas de suporte ao turismo, instalação de objetos informativos e publicitários numa dinâmica de estrada/comércio, a venda ambulante durante o Inverno de laranja, a localização da residência de muitos dos colaboradores da atividade turística.

Ao mesmo tempo em espaços afastados da EN125 mas ligados a ela, um conjunto de resorts geridos por empresas privadas, assim como a residência de muitos dos reformados de luxo (Torkington, 2012).

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Figura 9: Territórios de luxo nas margens da EN125

Fonte: autor