Algumas áreas à beira-mar do Algarve, com uma estrutura económica e populacional reduzida, dedicados à pesca, agricultura e indústrias fracamente mecanizadas são integradas depois da década de 1960 num sistema formal/informal de turismo, mudando a região nos seus termos ambientais, económicos, simbólicos e sociais, dominadas pela introdução de uma indústria globalizada de experiências de viagem. Mas as grandes transformações de natureza urbana, as profundas metamorfoses da morfologia das suas áreas litorais (praias, zonas lagunares) resultaram de um processo de mercadorização do espaço, de comercialização do solo urbanizado no sentido do seu uso como experiência lúdica associada ao lazer balnear.
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Figura 3: Mapa da Península Ibérica com o Algarve (a vermelho)
Fonte: Google Maps (acedido em Dezembro de 2014)
Até ao final da década de 1960, o Algarve constituía uma fronteira da centralidade económica, política e cultural de Lisboa, mais uma província, no contexto colonial português. Até as primeiras estâncias balneares reguladas pelo Estado surgem junto de Lisboa (Costa do Sol) e do Porto (Costa de Prata), quando as águas e praias do Algarve apresentavam uma qualidade maior, sendo o mar mais sereno e a temperatura das águas mais amena.
Poderemos até afirmar que a inexistência de uma estrutura de transportes públicos na região foi determinante no desenvolvimento turístico do Algarve, permitindo assim “a continuidade e manutenção das suas características paisagísticas e
urbanísticas, bem como dos modos de vida tradicionais da sua população.” (Freitas,
2010, 235), quando outras regiões do país já sentiam um forte impacto de transformação urbana.
Como região afastada do centro, o Algarve conheceu até meados do século XX algum isolamento em relação ao restante continente, uma região periférica no contexto português, deslocada da centralidade económica, politica e cultural de Lisboa. Nesse sentido, o transporte de pessoas e mercadorias era regularmente feito de forma marítima, usando o Atlântico e o Guadiana como vias de deslocação. No que toca à rede viária, a sua condição era bastante má, implicando longas deslocações; sendo só em
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1911 que é concluída a ligação entre o Algarve e Castro Verde (atual Estrada Nacional N2 entre Faro a Chaves) e em 1948 a ligação a Lisboa (Freitas, 2010). Terminado o percurso até Beja em 1864, o caminho-de-ferro chega a Faro em 1889, sendo que a rede ferroviária do sul só foi terminada em 1921, 65 anos depois do primeiro troço inaugurado em Portugal entre Lisboa e o Carregado.
Na verdade a tardia expansão do caminho-de-ferro foi preponderante para o desenvolvimento tardio do turismo balnear na região, ao contrário de outras áreas como o Estoril, Espinho ou a Figueira da Foz, que muito rapidamente se ligaram pelo comboio e desse modo se tornam as áreas privilegiadas para o lazer balnear (Freitas, 2010).
O Algarve é composto por cerca de 5000 km2, correspondendo a apenas 5,4% do
território português, situado junto do oceano Atlântico e as regiões fronteiriças do Alentejo e Andaluzia. A estrutura base e a denominação administrativa do território das suas cidades históricas (Portimão, Silves, Albufeira, Loulé, Faro, Tavira, Vila Real de Santo António) foram estabelecidas durante a Antiguidade e a Idade Média, desde a ocupação romana, passando pelo domínio muçulmano e a soberania cristã. A sua extensão marítima alarga-se a mais de 200km, criando uma configuração territorial particular, para além das fronteiras administrativas existentes, compreendendo as transformações de índole económico e espacial neste espaço escolhido, as relações entre os diferentes tipos de abordagem turísticas.
A região apresenta recursos de qualidade, desde os seus produtos agrícolas e piscícolas, está geograficamente distante do centro político e administrativo do país e exibe um sistema territorial marcado fortemente pela importância das conurbações urbanas de Faro e Portimão (Portas et al., 2011). Foi até ao momento da turistificação, uma das regiões mais pobres no todo nacional, consubstanciado em perdas de população residente até à década de 1970, que migravam no sentido da capital lisboeta e dos países europeus em contexto de reconstrução do pós guerra: França, Alemanha, Luxemburgo e Suiça tornam-se locais de emigração para as populações algarvias, como os dados censitários de 1951; 1961 e 1971 da população demonstram.
Reportando à divisão tradicional da região, com base na sua ocupação funcional e geográfica, mas também social, esta é dividida em três sectores, o mais reconhecível junto do mar e duas áreas interiores, divisão esta que se materializa em objetos de
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planeamento territorial como Plano Regional do Algarve de 1963-66 (Plano Dodi) ou o Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve de 2007 (PROTAL).
A Serra é um espaço que atravessa toda a região norte e é composta por três grandes conjuntos de elevações, ou montes, (Serra do Caldeirão, Espinhaço de Cão e Monchique). A sua observação revela grandes espaços desocupados em termos populacionais e económicos, solos desadequados à exploração agrícola intensiva e de regadio, estando presente uma ocupação funcional ligada à agricultura de sequeiro.
O Barrocal, situado entre a Serra e a margem norte da Estrada Nacional 125, é igualmente uma zona marcada pela fraca ocupação residencial, mas que ao contrário da Serra, apresenta uma boa qualidade dos seus solos, estando presentes uma grande quantidade de pomares, produzindo um dos produtos mais reconhecíveis da região, a laranja.
Figura 4: Mapa do Algarve com divisão geográfica
Fonte: http://rochadapena.no.sapo.pt/pages/enquad_geog_geomorf_rp.htm (acedido em Dezembro de 2014)
Estas áreas foram profundamente marcadas pelo processo de deslocação das suas populações desde o início do século XX, particularmente em direção de uma outra área, o litoral, que até aos anos 1960 foi marcada por uma estrutura urbana de cidades
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de pequena dimensão. As áreas mais próximas do mar estavam em grande parte desocupadas, compostas por pequenas comunidades piscatórias dedicadas à pesca do atum, sardinha e recolha de mariscos geradoras de baixos rendimentos (Cavaco, 1996).
Figuras 5, 6 Imagens rurais do Algarve pré turístico
Fonte: Postais do Algarve em http://www.prof2000.pt/users/avcultur/postais/AlgarvePost05.htm (acedido em Dezembro de 2014)
3.2 Conjuntura política, institucional e económica da turistificação do