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Este tópico apresenta e descreve as opções quanto à metodologia empregada na condução do estudo proposto.

A metodologia tem como propósito principal demarcar os procedimentos conduzidos na realização da pesquisa. Explicita o processo de coleta de dados e as estratégias utilizadas na análise e interpretação dos resultados. A definição clara do pressuposto paradigmático do estudo é imprescindível para justificar a metodologia utilizada.

3.1 PARADIGMA ORIENTADOR E METODOLOGIA ESCOLHIDA

Easterby-Smith e Araújo (2001) recomendam a adoção de um paradigma interpretativo e da metodologia qualitativa para os estudos de aprendizagem nas organizações. Segundo os autores, a abordagem qualitativa oferece uma contribuição significativa nesta área de estudo, pois possibilita a obtenção de dados coletados a partir da observação no campo, da realização de entrevistas formais e de conversações informais.

O paradigma interpretativo, de acordo com Gephart (1999), reúne os pesquisadores que compartilham a ideia de que o objeto das ciências sociais – pessoas e instituições – é diferente daquele das ciências naturais. Entende que a realidade é apreendida de formas socialmente construídas a partir das experiências e interações sociais vivenciadas. Como relatam Antonello e Godoy (2009, p. 272), “estas construções sociais são criadas pelos indivíduos ao tentarem dar sentido às suas experiências e usualmente tornam-se compartilhadas e aceitas”. Conforme essa perspectiva, existem diversos significados que refletem a maneira como as pessoas compreendem e respondem ao mundo objetivo. Assim, a pesquisa de natureza interpretativa tem como papel fundamental captar, descrever e compreender como tais significados – mantidos por diferentes pessoas ou grupos – produzem e sustentam um sentido de verdade em relação a outras possíveis definições da realidade. Ao se considerar que o objetivo da investigação aqui proposta é revelar o “o quê” e “como” os indivíduos que realizam as suas atividades voluntárias na ONG Canto Cidadão aprendem, acredita-se que a adoção de uma perspectiva interpretativa mostra-se adequada enquanto orientação dos passos metodológicos propostos pela pesquisadora.

De natureza exploratória, este estudo caracteriza-se como qualitativo básico ou genérico que, segundo Merriam (2002, p. 6), tem como objetivo “descobrir e compreender um fenômeno, um processo e visão de mundo das pessoas nele envolvidas”. Nesse tipo de estudo,

busca-se identificar padrões recorrentes em forma de temas ou categorias que expressem os dados encontrados. Para Merriam (2002, p. 38), “uma pesquisa qualitativa interpretativa foca o seu interesse em: saber como as pessoas interpretam suas experiências; como elas constroem seus mundos; e qual significado elas atribuem para suas experiências”.

Como aponta Godoy (1995a), a metodologia qualitativa representativa do paradigma interpretativo apresenta algumas características que orientam o estudo aqui proposto: a) o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador como instrumento fundamental, valorizando-se o contato direto e prolongado desse com a situação estudada e o seu contexto; b) o investigador deve examinar as pessoas e o ambiente de forma holística, de modo a capturar as interações e as falas para descrever o processo estudado e seus reflexos nas atividades cotidianas e c) o significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida são alvos primordiais da atenção do pesquisador, exigindo precisão, validação e ética na análise dos dados coletados.

A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas organizadas respeitando-se as seguintes características: um baixo grau de estrutura, uma preponderância de questões abertas e um foco em situações específicas e sequências de ação presentes no mundo do entrevistado (KING, 2004).

A análise dos dados obtidos seguiu as orientações de Merriam (2002), e para a categorização temática, valeu-se da abordagem denominada por King (2004) de “análise de templates”. O termo “análise de templates” não descreve um método único e claramente delineado, mas se refere a uma variedade de técnicas inter-relacionadas que visam a organizar e analisar os dados tematicamente. Nessa abordagem, a codificação e organização dos dados são feitas a partir de temas definidos como relevantes pela pesquisadora, considerando-se o arcabouço teórico apresentado.

Essa análise está baseada na criação de uma lista de códigos, que representam temas relacionados e hierarquicamente estruturados, agrupados em temas principais e secundários. A maior vantagem dessa estratégia analítica reside no fato de ser flexível, no sentido de que alguns códigos são definidos a priori, sendo alterados à medida que o pesquisador lê e interpreta o texto (KING, 2004).

A técnica de análise via utilização de templates pode ser realizada dentro de uma gama de posições epistemológicas, assumindo-se que sempre há múltiplas formas de interpretações a serem feitas sobre um fenômeno. Cabe considerar que o desenvolvimento dos templates não é uma fase separada da análise dos dados, obtidos aqui a partir das entrevistas. A seguir, serão descritas as etapas principais do desenvolvimento de templates:

a) Criação de template: a criação do template é um estágio que não ocorre separado da análise. Deve-se montar um template inicial por meio da criação de poucos grupos de códigos predefinidos que ajudarão a guiar a análise. Muitos códigos podem dificultar que o pesquisador enxergue futuros temas, e poucos podem dificultar o direcionamento do estudo. O ideal é montar um guia de tópicos para a realização das entrevistas, e as questões principais servirão de códigos de ordem principal, e questões auxiliares servirão de códigos secundários;

b) Revisão do template: uma vez construído o template, examina-se a transcrição das entrevistas identificando-se os trechos mais relevantes, considerando-se os objetivos do estudo, marcando-os com um ou mais códigos do template inicial, ajustando-os por meio de inserções (temas não mapeados podem dar origem a novos códigos), exclusões (códigos inicialmente mapeados podem ser excluídos, caso não sejam relevantes ou estejam duplicados), mudanças de escopo (caso o código seja muito abrangente ou muito estreito, deverá ser ajustado) e mudanças de classificações (o código inicialmente classificado como uma subcategoria de um grupo principal pode se adequar melhor como um grupo secundário). A interrupção no desenvolvimento do template é um momento decisivo que geralmente ocorre quando nenhum dado novo aparece após as inúmeras leituras das transcrições;

c) Na etapa de interpretação, as seguintes ações são necessárias: listar os códigos (a distribuição dos códigos nas transcrições pode ajudar a direcionar a atenção para aspectos que necessitam maior atenção), seleção (selecionar os temas centrais relacionados ao objetivo do estudo), abertura na análise (temas marginais podem ter um papel fundamental no estudo) e relação entre temas (além da análise linear, é possível relacionar os temas encontrados)

Dentre as tensões fundamentais na maioria das pesquisas qualitativas, está a questão do quão aberto ou estruturado deve ser o processo analítico. As etapas aqui descritas e que serviram de orientação neste trabalho buscaram lidar com essa tensão. Não há regras absolutas, mas sim a necessidade de uma definição quanto à abordagem de análise que melhor se encaixe ao tema da pesquisa proposta (KING, 2004). O template gerado a partir da análise das entrevistas realizadas, em sua versão final, encontra-se no Apêndice B.

3.2 A ORGANIZAÇÃO ESTUDADA E SUAS PERSONAGENS

A ONG “Canto Cidadão”, situada na cidade de São Paulo, foi fundada em 19/07/2002, baseada na Lei 9790/99 (Lei das OSCIP’s), sob a razão Organização para Produção e Democratização da Informação Canto Cidadão, a partir da decisão dos comunicadores Felipe Mello e Roberto Ravagnani. Os fundadores, incomodados pela demanda latente por mais programas sociais que provocassem as pessoas no sentido de reflexão para ações de cidadania, resolveram unir-se para criar suas próprias iniciativas.

A missão do Canto Cidadão é produzir e democratizar conteúdo multimídia orientado para a importância do exercício da cidadania em todos os aspectos e da participação organizada da sociedade civil no desenvolvimento do Terceiro Setor, fortalecendo os seus pilares e contribuindo para o equilíbrio social. Adicionalmente, tem por finalidades a promoção do voluntariado, a promoção e divulgação da ética, da paz, da cidadania, dos direitos humanos, da democracia e de outros valores universais, além do estudo e pesquisa do desenvolvimento de tecnologias alternativas, produção e divulgação de informações e conhecimentos técnicos e científicos relacionados à prática do voluntariado e ao exercício da cidadania (Lei 9.790/99, art. 3º).

Com vistas a alcançar a proposta traçada em sua missão, o Canto Cidadão tem como objetivo e se prepara com alegria e responsabilidade para realizar ações sustentáveis e duradouras que convidem as pessoas para o desenvolvimento pessoal e o equilíbrio social. Pela informação, arte e alegria, as ações acontecem a partir da consciência de que a mudança na sociedade parte da mudança no indivíduo. Portanto, o objetivo final da organização é promover valores humanos positivos, aplicados no dia a dia.

O principal projeto dessa ONG é denominado “Doutores Cidadãos” e constitui-se atualmente no maior grupo de palhaços hospitalares voluntários do mundo, contando, em agosto de 2009, com 1.100 indivíduos voluntários treinados. A atuação dos “amenizadores hospitalares” acontece de forma regular em 45 unidades hospitalares públicas e filantrópicas e mais três asilos, todos localizados na Grande São Paulo, atendendo, em média, 30 mil pessoas/mês. As principais características desse projeto são:

a) O foco da ação social são os pacientes adultos e idosos, que via de regra não são beneficiados por ações de arte-terapia em ambiente hospitalar ou asilos. Dessa forma, todas as alas dos hospitais são visitadas;

b) Atenção especial aos cuidadores, ou seja, o grupo considera os profissionais da saúde parte do público atendido, contribuindo para o seu bem-estar e estimulando o acolhimento dos pacientes e acompanhantes;

c) Atuação totalmente voluntária, envolvendo protagonistas de diversos perfis, convidando-os, treinando-os e supervisionando-os para a atuação em ambiente hospitalar, promovendo melhorias em espaços públicos pelo exercício consciente e entusiasmado da cidadania;

d) Os hospitais visitados não remuneram de nenhuma maneira os voluntários, nem a organização pelas visitas.

As entrevistas que forneceram os dados para a efetivação do estudo foram realizadas com indivíduos voluntários que atuam nesse projeto.

Fotografia 1: Turma nº 29 de voluntários no projeto “Doutores Cidadãos” e os fundadores Roberto Ravagnani e Felipe Mello na sede da ONG em São Paulo/SP.