Menegasso e Valadão Júnior (2003) refletem que os empreendimentos solidários com menos conflitos são aqueles nos quais o processo de comunicação entre os membros flui de maneira que valores como a solidariedade e o convívio são ressaltados. Em contrapartida, nas organizações em que as decisões são centralizadas, os conflitos podem ser mais facilmente potencializados.
Desde 1960, autores como Argyris (1968), Rahim e Bonoma (1979) e Rahim (1986) buscaram definir e caracterizar os conflitos organizacionais, e, a partir de então, o tema vem sendo uma constante na agenda de estudos científicos. Argyris (1968) retrata que o conflito organizacional se instala devido ao constante choque de interesses, ou seja, para um indivíduo maduro, muitas vezes, os critérios de gestão são incongruentes à forma como ele pensa e age. E é nesse sentido que os objetivos individuais e organizacionais não se completam, e a auto- realização de ambos é prejudicada.
Já os autores Rahim e Bonoma (1979) e Rahim (1986) destacam que os conflitos organizacionais são caracterizados pelas relações interpessoais, quando a pessoa é levada a exercer atividades e ações ou desempenhar papéis que são contrapostos aos interesses pessoais. Outra característica dos conflitos organizacionais, para os autores, se liga às relações intragrupais, quando as decisões tomadas pelo grupo divergem dos interesses pessoais de seus membros, ou seja, os resultados obtidos são discordados por parte dos membros do grupo. Por fim, os conflitos emergem nas relações intergrupais, ou seja, quando membros e gestores de dois ou mais grupos se chocam entre si.
Neste sentido, Rahim (1986) retrata que, dentre as causas do conflito organizacional, as mais perceptíveis decorrem da necessidade de se tomarem decisões em conjunto, dos vários
interesses individuais inseridos no ambiente organizacional e das várias percepções acerca dos problemas reais.
No âmbito do Terceiro Setor, Mello (2007) adotou os três níveis de conflitos organizacionais – intrapessoal, intragrupal e intergrupal – propostos por Rahim (1986), para retratar as características dos conflitos e dilemas vivenciados pelos gestores de organizações do Terceiro Setor. Para a autora, os conflitos existem a partir da necessidade de se fazer escolhas. Os membros das organizações, convivendo entre si, têm valores e personalidades individuais e, a partir do momento que precisam tomar decisões em conjunto, essas características entram em cena, e, uma opção de ação, dentre outras, precisa prevalecer.
Ainda, de acordo com a autora, e baseando-se em Ramos (1989) e Serva (1997), quando os
conflitos ocorrem na esfera intrapessoal, há a incongruência entre as racionalidades
instrumental e a substantiva, ou seja, o gestor se vê em meio a atividades administrativas, cumprimento de metas e resultados, os quais se chocam com valores pessoais e papéis assumidos.
Os conflitos intragrupais, no estudo de Mello (2007), ocorrem quando há a necessidade de mudança de comportamento ou atitudes, quando há a necessidade de profissionalização por parte de algum membro do grupo ou em relação ao atendimento ao público beneficiado. Nesse sentido, quando o grupo toma decisões ou considera outras importantes e expõe aos membros, e isso vai contra os valores pessoais dos participantes, o conflito se instala. Ainda referenciando-se em Rahim (1986), Mello (2007) estudou os conflitos intergrupais em organizações do Terceiro Setor e os caracterizou como sendo divergências existentes entre essas e outros órgãos ou conselhos com os quais mantêm relações. Os conflitos são provenientes de diversas ordens, como, aprovação de projetos, cobranças em relação a recursos subvencionados, ou mesmo cobrança do próprio público beneficiado.
Guérin (2005), em seu estudo com mulheres, constatou relações conflituosas e contraditórias entre os sujeitos do mesmo gênero. Na visão da autora, os sujeitos apresentam uma engendrada complexidade de comportamentos em que o “eu”, no qual impera a singularidade, a identidade, pode distanciar uma pessoa de outra quando essa se depara com o “nós”, ou seja, quando os atores têm, necessariamente, que trabalhar o coletivo, o bem comum. Nesse
sentido, os contextos individual e coletivo apresentam tensões e se chocam entre si, e nos quais “a autonomia e o pertencimento social são sutis e freqüentemente incômodos” (GUÉRIN, 2005, p. 212).
Em se tratando do “eu” e do “nós” como exposto pela autora, DaMatta (1997) propõe uma analogia interessante para identificar o individual e o coletivo, em termos de conflitos, comparando-os em sociedades tradicionais e modernas. Para o autor, nas sociedades modernas, o individual (a parte) se sobrepõe ao coletivo (o todo), intensificando a percepção de problemas e conflitos nesses “espaços coletivos”. Na sociedade tradicional, na perspectiva do autor, o que ocorre é o inverso, ou seja, o coletivo é mais importante que o individualismo, e os problemas ocorrem nestes “espaços individualizados”.
DaMatta (1997) ainda reflete que na sociedade brasileira há a existência de pelo menos três códigos de discursos ou perspectivas, que interagem entre si: (1) no ambiente do lar, ou “na casa”, determinado, geralmente, por um conservadorismo evidente, em que o discurso soaria radicalmente diferente, se o mesmo indivíduo estivesse fora desse espaço; (2) “na rua”, onde a expressividade pessoal poderia soar de forma mais livre, criando ou ousando de forma diferenciada; (3) em espaços públicos reservados, como, por exemplo, igrejas, centros espíritas, em funerais, o discurso ainda tomaria outro direcionamento, diferentemente da “casa” ou da “rua”.
Ainda, em se tratando de conflitos, Menegasso e Valadão Júnior (2003) inferem que algumas dificuldades refletem fatores impulsionadores de problemas na gestão das organizações de economia solidária do Terceiro Setor. Na visão dos autores, a falta de recursos, principalmente, o despreparo com relação à consciência do cooperativismo e a falta de planejamento e controle podem ser entraves no desenvolvimento dessas organizações. A pesquisa dos autores mostra que uma das motivações para a criação dos empreendimentos solidários é a alternativa ao desemprego, a busca de melhores condições de vida e, em geral, para as mulheres, seria um incremento do orçamento doméstico.
Guérin (2005) complementa que, na economia solidária, as mulheres despontam no quesito organizar trabalho e vida familiar. Entretanto, é preciso que as participantes permaneçam centradas na autonomia com fins de atenuar as fontes de desigualdade. Nesse sentido, as mulheres devem ser capazes, e essa capacidade passa pela abordagem cognitiva de cada uma,
de estabelecer padrões que as apoiem em seu julgamento moral, ou seja, de estabelecer uma reflexão acerca de direitos e deveres para com o trabalho e dos vários papéis desempenhados por elas na sociedade como um todo.
A mesma autora propõe uma interconexão entre o que é justo e injusto nas organizações e alerta que, na economia solidária, os interesses individuais não devem se sobrepor ao interesse coletivo e, muito menos, uma autoridade superior deve se achar no direito de impor uma solução única para qualquer questão que seja.
Faria, Silveira e Nobre (2000) propõem uma necessária revisão organizacional no sentido de haver mudanças nos conflitos de gênero, a fim de se obter transformação de alguma realidade crítica e mais igualdade, seja econômica, cultural, política e social. Nesse sentido, o maior desafio da economia solidária é buscar um novo recorte para relações interpessoais e de gênero, ou seja, proporcionar maior autonomia e capacidade de conhecimento, no intuito de abrir novas possibilidades de atuação.
As autoras reconhecem, nas organizações de economia solidária, oportunidades que provêm às mulheres alguns pontos positivos favoráveis à igualdade entre gêneros. São eles: (1) amenizar as obrigações das mulheres no quesito conciliação de vida familiar e vida profissional; (2) servir de espaço para reivindicações e articulações com o poder público, no intuito de constituir políticas públicas que diminuam as desigualdades de gênero; (3) melhorar o acesso a crédito; (4) ajudar a fortalecer a independência financeira feminina.
Guerra e Toledo (2010), analisando a economia solidária e as relações de gênero, em uma nova perspectiva de trabalho, concordam que as organizações de economia solidária são oportunidades potenciais para que as mulheres ganhem seu merecido reconhecimento e destaque perante a sociedade civil como um todo. Afirmam, ainda, que essa transformação nas relações de gênero já ganha corpo, com maior participação das mulheres, principalmente, nos cargos de direção dessas organizações.
Entretanto, o estudo de Guerra e Toledo (2010) analisou a compreensão acerca do tema por parte das mulheres participantes de uma organização que preza por práticas e valores de economia solidária e relações igualitárias de gênero. Os resultados inferiram que existe a construção de um conceito, cuja ideia de cooperativismo e consumo consciente é evidenciada,
mas, ainda não muito praticada. Com relação à importância da relação com o poder público, ainda há um caminho a percorrer, pois, na análise dos autores, os membros que compõem as organizações de economia solidária ainda se preocupam com o imediato e o palpável, qual seja, gerar trabalho e renda, o que, na compreensão das mulheres, é a finalidade de um empreendimento econômico solidário.
As relações criadas a partir das práticas de economia solidária, ainda na visão de Guerra e Toledo (2010), demonstram uma dificuldade, por parte das mulheres, em conquistar relações mais harmônicas entre gêneros, principalmente se essas relações incluírem as de âmbito familiar. Contudo, parece que há um caminho a percorrer, mas com grandes possibilidades de transformação.
A partir da existência de conflitos em várias esferas organizacionais, faz-se um parêntese para ressaltar a visão de Caldas e Tonelli (2000), que buscam compreender o sujeito no âmbito do trabalho conferindo-lhe a capacidade de adaptação, na medida em que estimulam ou abafam certas características situacionais. Em outras palavras, os autores apontam uma característica
camaleônica para os atores organizacionais, sugerindo perfis flexíveis de comportamento e
discurso para adequação às demandas de seus trabalhos. Nesse sentido, as pessoas, no ambiente de trabalho, estariam aptas a se transformar a partir de necessidades aparentes ou não.
Conforme Guerra e Toledo (2010), a economia solidária, como uma das propostas para atenuar as desigualdades nas relações de gênero, ainda evidencia o desenvolvimento de um constructo, pois muitas mulheres inseridas em organizações que geram trabalho e renda o fizeram não por opção, mas sim, por falta dela. Todavia, elas encontraram, nesses espaços que privilegiam a cooperação e a solidariedade, a possibilidade de se (re)afirmarem como sujeitos donos de suas próprias vidas.
Assim sendo, esta dissertação encontra seu aporte nos preceitos de economia solidária, quais sejam, cooperação e solidariedade, para analisar as nuances da gestão feminina imbuídas dos conflitos de gênero existentes, em duas organizações de economia solidária do Terceiro Setor. Presume-se que esses valores – solidariedade e cooperação – sejam mais evidentes entre seus membros, uma vez que eles se encontram engajados em um propósito único, o de transformar uma realidade crítica e proporcionar melhoria na qualidade de vida dos beneficiados.