4.1 Methodological considerations
4.1.1 Sample size and representativeness
4.1.2.6 Avoidance
A organização Sorriso de Criança existe, informalmente, desde 2006. Em 2009, a organização conseguiu o registro e o CNPJ, começando a atuar como associação. O empreendimento se localiza na área urbana, em sede alugada, utilizando equipamentos próprios. A motivação para sua criação foi, basicamente, o atendimento às famílias carentes do bairro, pois as mães precisavam de um lugar para deixar seus filhos durante o horário de trabalho, bem como a geração de fonte complementar de renda para os associados a partir do empreendimento econômico solidário criado para desenvolver capacidades e potencialidades dos seus membros.
A associação aqui caracterizada como Sorriso de Criança é formada por 25 sócios, divididos em 03 pilares de atuação (educação infantil, artesanato e velas artesanais). Entretanto, os sócios que trabalham, efetivamente, no empreendimento, são 02 homens, e, em épocas de maior movimento, a associação conta com mais 02 deles. Quatro mulheres sócias trabalham, efetivamente, no empreendimento, e, em períodos de maior movimento, somam-se a elas mais
08 mulheres. Todavia, a diretoria, responsável pela gestão do empreendimento, é composta por 03 mulheres e 02 homens, sendo o presidente um homem que, mesmo com uma atuação mínima, exerce sua gestão de forma efetiva, sendo, visivelmente, o sujeito protagonista de vários conflitos na diretoria, tanto na esfera intrapessoal e intragrupal, conforme Rahim (1986), reforçado por Mello (2007).
Assim como no filme “Quanto vale ou é por quilo”, a associação vive em clima de tensão devido a conflitos entre os membros, tendo vários fatores de desconfiança se revelado no ambiente organizacional: (1) proveito próprio; (2) interesse político; (3) falta de controle nas finanças, dentre outros.
O investimento inicial foi proveniente dos próprios sócios, tendo o incentivo inicial partido de uma das paróquias da Igreja Católica, em Uberlândia, Minas Gerais. O empreendimento também recebeu apoio do Projeto Incubadora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), do qual obtiveram assistência técnica, gerencial e jurídica, além de qualificação profissional. Por meio desses apoios, também foi possível conseguir matéria-prima para as velas artesanais, reforçando o que Menegasso e Valadão Júnior (2003) propõem em termos de gestão social. Para os autores, uma abordagem multidimensional, em que o apoio das várias esferas da sociedade, é essencial para o equilíbrio entre o viés comportamental e as práticas administrativas nas organizações do Terceiro Setor.
Os principais produtos da associação são velas, acessórios (colares de tecido, pufs de garrafas pet, caixas de MDF e flores de tecidos), além de serviços de educação (creche), inserindo-se no contexto da economia solidária, conforme o entendimento de autores como Razeto (2001), Singer (2002), França Filho (2002), Andion (2005) e Oliveira (2008). As velas artesanais são denominadas velas palito, utilizadas em cerimônias religiosas. A remuneração é feita por produção e depende da época do ano. No Natal de 2009, a associação produziu 15.000 unidades; na Semana Santa de 2010, a produção foi de 20.000 unidades e, no Natal de 2010, a produção girou em torno de 30.000 velas. Fora de épocas comemorativas, a produção média é de 3.000 velas/mês. O empreendimento atende todas as Paróquias de Uberlândia e região, sendo o retorno financeiro dividido entre os membros participantes, e uma parcela é destinada para a associação cobrir gastos cotidianos.
Os produtos são vendidos diretamente ao consumidor ou Paróquias das Igrejas Católicas e a divulgação é feita informalmente, através do boca a boca. O artesanato é exposto em feiras, portas das igrejas ou entregue diretamente ao cliente. A creche funciona no bairro como um espaço para que os pais possam deixar suas crianças durante o horário de trabalho. Nela, as crianças compartilham de atividades lúdicas e recreativas, além de receberem alimentação. Algumas dificuldades são bem evidentes na organização. Para as velas artesanais, as dificuldades são: (1) falta representação em distribuidoras; (2) existem vários outros comércio para velas ornamentais; (3) falta capital de giro para estocar, pagar funcionários, oferecer prazo para clientes. Para o artesanato, a principal dificuldade enfrentada é a demora na produção das peças. Na área de educação, a grande dificuldade está relacionada às exigências do MEC e, para supri-las, a organização necessita realizar várias adequações em estrutura e pessoal, o que exige soma de capital considerável, e isso, atualmente, está além das condições da associação.
Com relação aos produtos e serviços do empreendimento, as dificuldades em comum, nos três pilares de atuação, é a existência de conflitos entre os membros e as diferenças de opiniões. O presidente da associação é executivo de uma grande empresa em Uberlândia/MG e tomou a frente na fabricação das velas artesanais, exigindo mais profissionalização e potencialização do negócio, mas, para isso, sua vontade é encerrar as atividades da creche, pois, em sua visão, as duas atividades demandam recursos e, além disso, são incompatíveis.
Não existem benefícios, garantias ou direitos para os sócios que trabalham no empreendimento. A associação não possui homens ou mulheres não sócios como trabalhadores. Com relação à participação em fóruns de articulação, ela somente ocorre em eventos realizados por empresas privadas e igrejas. Algumas dessas empresas já conhecem a associação e, em épocas comemorativas, como Dia das Crianças e Natal, prestigiam as crianças da creche.
No quesito alimentação/doações/instituições/assistência social, a associação ganha doações como, por exemplo, 200 litros/mês de leite, provenientes da iniciativa privada; da Secretaria de Agricultura, ganha verduras, legumes e frutas, provenientes do Projeto Merenda Escolar, firmado entre a PMU e os Assentamentos Rurais de Uberlândia; da empresa Makro Atacadista, ganha arroz e feijão.
A partir do exposto, verifica-se que ambas organizações atuam na perspectiva da economia solidária, pois além de outras ações produzem e comercializam bens e/ou serviços, através de iniciativas coletivas conforme alguns autores como Razeto (2001), Singer (2002), Andion (2005) e Oliveira (2008), tentando projetar a princípio valores como solidariedade e cooperação. As duas organizações, partindo deste contexto qual seja gerar emprego e renda, esperam também injetar recursos nos focos principais das organizações, melhorando assim, o desenvolvimento das instituições.
Complementando a análise, há que salientar que as duas iniciativas apresentam, em sua concepção, a nomenclatura sem fins lucrativos, no entanto, captam recursos, seja na iniciativa privada, seja através do setor público e o distribuem conforme melhor lhes convêm para o bem das instituições. Na visão de alguns autores como Salamon (1998); Aldashev e Verdier (2009); Valadão Júnior, Medeiros e Ribeiro (2010); Silva (2010) é uma ação passível de realização sem, no entanto, ocorrer distribuição dos recursos internamente aos membros da gestão. Os autores ainda sugerem ser este, a captação e distribuição de recursos, um dos recortes para os conflitos organizacionais.
Da mesma forma, em consonância ao aporte teórico, as duas organizações apresentam de forma maciça a participação feminina, seja na direção, seja na operacionalização de ações, conforme Guérin (2005). Em ambas instituições, as mulheres gestoras são responsáveis por todas as atividades desenvolvidas para o público beneficiado, não recebem pró-labore por suas atividades nas organizações, todavia, em contrapartida, complementam seu orçamento doméstico a partir das atividades oriundas dos empreendimentos comunitários solidários. Duas mulheres – Rose, na Ilha das Flores, e Babette, na Sorriso de Criança – atuam nas organizações, não por opção, mas por necessidade de ampliar sua renda, buscar independência financeira e vontade de ser reconhecidas pelo trabalho (GUERRA e TOLEDO, 2010). Esse fato é retratado também por Guérin (2005) quando a autora mostra a participação feminina evidenciada não pela natureza do empreendimento solidário, mas sim pela necessidade de atuação.