A população cigana está constantemente cercada pela necessidade de inclusão no mercado que vai potenciar a sua autonomia e melhoria de condições socioeconómicas, assim como na defesa da sua identidade étnica, dificultando a concretização de diversas estratégias de inserção social. Porém, a interculturalidade só será possível “se cada uma das culturas aprender a conhecer os seus limites inerentes, se auto interprete e dialogue” (Dias apud Silva e Pinto 2004: 105)
Numa investigação levada a cabo por Manuel Carlos Silva e Maria Goretti Pinto (2004: 100) foram inquiridos membros pertencente à sociedade alargada cujas perceções e juízos sobre as comunidades étnicas são bastante convergentes, ou seja, em várias questões há consenso entre as respostas, porém outras suscitam opiniões diferentes, em resultado das clivagens, mais ou menos acentuadas, que se verificam entre as classes profissionais abordadas na investigação.
Segundo os autores, uma boa parte dos inquiridos tende a subestimar os aspetos positivos e a sobrevalorizar as caraterísticas culturais negativas das minorias, sugerindo que os indivíduos pertencentes às etnias são desonestos, impulsivos, preguiçosos, vingativos ou agressivos. Por exemplo: todos os membros inseridos na classe social “burguesia” atribuíram a caraterística de “preguiça” aos indivíduos de etnia cigana; no que respeita à capacidade de trabalho ou vontade de trabalhar cerca de 91% dos inquiridos nega inserir os ciganos nesta caraterística, não se registando discrepâncias segundo a classe social em que se inserem (Silva e Pinto 2004: 100-101).
No que respeita à trajetória escolar, os filhos dos grupos étnicos, estão pouco familiarizados com a cultura escola, sendo frequentemente encarados como situações de abandono ou insucesso escolar. Quando questionados acerca do abandono/insucesso escolar dos membros de etnias, os inquiridos da sociedade alargada sugerem que os pais menosprezam a escola e sugerem que as crianças não são capazes de estar fechadas numa sala de aula17 (Silva e Pinto 2004: 102).
Atentemos agora no caso dos ciganos de Oleiros, Vila Verde. A comunidade cigana daquela região adquiriu um terreno para acampar e foi obrigada pelas autoridades camarárias a abandonar o próprio terreno sob o pretexto de proibição de construção no espaço e alegadamente para a proteção e segurança das famílias também
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Um dos inquiridos acrescentou ainda que: “Os meninos só vão à escola se lhes pagarem. A Assistente Social vai lá ao acampamento e se eles forem à escola é que têm um subsídio qualquer… o rendimento mínimo! Ora, a nós não nos dão nada!” (Silva e Pinto 2004: 102).
elas residentes naquela localidade; mais ainda, a população afirmava que aquele se tratava de um local de tráfico de droga. Em Oleiros, a situação despoletou um levantamento popular face aos ciganos “(…) constituindo um longo e interminável processo de desresponsabilização com a passagem de „culpas‟ das instâncias centrais para as periféricas e destas para a população e vice-versa.” (Silva e Silva 2011: 216).
É importante referir um significativo conjunto de preconceitos e generalizações agressivas acerca dos ciganos, por parte da maioria dos habitantes de Oleiros, pois trata- se de situações que chegaram a concretizar-se em práticas de discriminação racista18 (Silva e Silva 2011: 217). Manuel Carlos Silva e Susana Silva (2000: 71) apuram que mais de 80% dos indivíduos inquiridos sustenta que a população cigana daquela freguesia obtém os seus rendimentos do tráfico de droga, que aliás, aliado às construções clandestinas que se verificavam naquela localidade, foi um dos principais argumentos utilizados pela população local que motivaram a expulsão dos ciganos daquele território.
Porém, verificou-se uma manutenção da referida atividade ilícita em Oleiros, bem como nas freguesias próximas. Os moradores consideram-se impotentes no que respeita ao tráfico por parte dos moradores da freguesia, pois afirmam já estar acostumados, ao contrário do que acontece com os ciganos que são vistos como invasores. Contudo, há um grupo minoritário de habitantes que assume uma posição contrária: “os ciganos são um bode expiatório, pois há por aí muitos cães grandes que continuam com o negócio da droga. Mas esses dão emprego a muita gente e os ciganos nem sequer trabalham para disfarçar” (Silva e Silva 2000: 71-72).
Para outra investigação do mesmo âmbito, foi selecionado o bairro social de Atouguia localizado em Guimarães, a fim de se analisar as auto e heterorepresentações, formas de interação e práticas de sociabilidade entre os dois grupos. O bairro social carateriza-se por grupos sociais “remediados” ou com poucos ou nenhuns recursos. Através do estudo, os investigadores verificaram que os portugueses não ciganos atribuem aos ciganos caraterísticas mais negativas sobrevalorizando-as: consideram-nos agressivos, muito falsos/mentirosos, maliciosos, desonestos, apesar de também os classificarem como alegres e unidos. De resto, é exatamente a união cigana uma das caraterísticas positivas apontadas com mais frequência pela população não cigana, que
18 A acentuação dos estereótipos negativos sobre os grupos étnicos reflete a exclusão/rejeição por parte do
grupo dominante. Assim, por um lado, estas atitudes motivam os grupos étnicos a reforçar a sua identidade, alimentar o sentimento de pertença e a coesão grupal, garantindo a sua reprodução social, porém, esse reforço identitário pode, por sua vez, acentuar a exclusão a que estão sujeitos (Silva e Silva 2011: 217).
também lamenta o mesmo não acontecer com entre os não ciganos (Silva, Sobral, e Ramos 2006: 4).
De uma forma geral, a sociedade maioritária defende a tolerância e o respeito pelos outros. Contudo, pode constatar-se que os contactos que se estabelecem entre os grupos étnicos e a sociedade maioritária são pontuais, limitados e escassos, quer nos locais de trabalho, quer em feiras ou encontros casuais em ruas (Silva e Pinto 2004: 100).