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Innvandring, religion og flerkulturelle samfunn i bøker for samfunnsfag

“Em que sentido o aferimento e a mensuração de laboratório são suficientes para servir de norma à atividade funcional do ser vivo fora do laboratório?” (CANGUILHEM, G. [1943] 1978, p.114). Esta indagação concerne tanto à obra de Canguilhem quanto à crítica proposta por Politzer à psicologia. E procuraremos mostrar de que forma o experimentalismo pode lançar a medicina no campo do abstrato.

Ora, há um problema inicial com relação ao método experimental que é, justamente, a exigência de condições para a experimentação. O que está proposto na experimentação fisiológica em laboratório é um método capaz de isolar variáveis na tentativa de compreender o funcionamento pontual de cada mecanismo funcional orgânico tomado como fenômeno puro. Isso gera certo paradoxo: para compreender o funcionamento de algo em condições normais, o cientista precisa garantir certas condições experimentais que são, por definição, diversas das condições normais. Isso porque as condições experimentais se dão justamente pelo isolamento de variáveis. Ou seja, procura-se criar uma simulação de uma situação em condições normais, mas que afete unicamente o ponto que se quer pesquisar. Isso retira da cena as variáveis de sua condição normal, tornando-a experimental.

A fisiologia experimental, quando utilizada para pesquisas no campo da patologia, procura recriar em laboratório as condições normais da doença. Assim pode empreender o estudo desse fenômeno para compará-lo ao funcionamento normal – também conhecido por meio do mesmo método, o que já coloca o problema relativo à possibilidade de chama-lo propriamente de

normal. O problema se expressa da seguinte maneira: a fisiologia experimental

é praticamente uma patologia artificial. Ademais é preciso considerar que tais

pesquisas são realizadas com outras espécies. Experimenta-se em ratos, ou outros animais, para posteriormente procurar por comparações entre o fenômeno produzido em laboratório com estas cobaias e o fenômeno que ocorre em condições normais com humanos. “Ninguém pode contestar a grande margem de incerteza que tais comparações admitem. É tão inútil negar a existência dessa margem quanto é pueril contestar a priori a utilidade de tais comparações.” (CANGUILHEM, G. [1943] 1978, p. 116)

O que tal crítica pretende é deixar claro que, se é possível determinar o caráter normal de um aspecto do ser vivo por meio do modo pelo qual ele se ajusta ao meio, é necessário lembrar que o laboratório constitui um meio distinto do natural. Meio esse ao qual o ser vivo certamente se esforçará para se ajustar na intenção de manter-se funcional.

“O meio de laboratório é, para o animal ou para o homem, um meio possível, entre outros. É claro que o cientista tem razão em ver, nos seus aparelhos, apenas as teorias que eles materializam, nos produtos empregados, apenas as reações que eles permitem, e de postular a validade universal dessas teorias e dessas reações; para o ser vivo, porém, aparelhos e produtos são objetos entre os quais ele se move como num mundo insólito. Não é possível que os modos de vida no laboratório não conservem alguma especificidade em relação com o local e com o momento da experiência.” (CANGUILHEM, G. [1943] 1978, p.117)

Não atentar para o fato de que um ser vivo não é um objeto da mesma ordem de uma molécula é um problema nevrálgico nesse campo. Parece haver uma inversão na ordem das coisas: ao invés da fisiologia utilizar o método experimental porque ele lhe é útil para conhecer positivamente seu objeto, ela parece precisar utilizá-lo, mesmo alterando-o, como forma de garantir a ela a inscrição num campo discursivo que lhe garanta o lugar de ciência. Nessa mesma direção, Politzer afirma:

“O uso que os físicos fazem das matemáticas, algumas vezes, já se ressente do fato de elas representarem para eles apenas um traje de aluguel; a pura envergadura dos matemáticos pode ser-lhes inacessível e eles são frequentemente bitolados. Mas tudo isso é

nada comparado ao que acontece no andar debaixo. Os fisiólogos já mergulham terrivelmente na magia dos números, e o entusiasmo pela forma quantitativa das leis transforma-se neles em adoração do fetiche. Todavia, esse impedimento não pode fazer esquecer a seriedade fundamental que encobre. (...) O mesmo se dá com o método experimental. É o físico que detém uma visão séria dele; só ele não brinca com ela, é só nas mãos dele que ela é uma técnica racional que não degenera em magia. O fisiólogo já tem forte tendência para a magia: nele, o método experimental degenera frequentemente em pompa experimental.” (POLITZER, G. [1928] 2004, p.39. Grifos do autor)

Lembramos que o esforço de Canguilhem (2012) é procurar pelas condições de uma biologia capaz de considerar o ser vivo nessa especificidade que possui de produzir uma resposta ativa diante do ambiente, do conjunto de leis naturais responsáveis por submetê-lo às flutuações com as quais deverá lidar. É a partir da consideração de um caráter ativo na vida mesma, que se poderá construir condições de solucionar os problemas concretos dos seres vivos. Um organismo vivo é diferente de uma pedra mesmo os dois estando submetidos às condições estabelecidas pelo meio, isso porque uma pedra diante de um choque mecânico apenas se rompe, sem que haja nisso qualquer sentido biológico e, portanto, nenhum valor; enquanto para um ser vivo a coisa se passa de maneira bastante diferente.

Devemos avançar na discussão de modo que não apenas possamos diferenciar um ser vivo de um objeto passivo, mas distinguir também uma

normatividade vital de uma normatividade social (particularmente humana). E

para isso nos parece que o melhor caminho é adentrar as definições médicas que não poderão escapar da noção de valor: como doença, saúde e cura.