O ponto de partida da pesquisa foi então a ideia de que não sendo os adolescentes (e os jovens), completamente tutelados, como à primeira vista são legitimamente as crianças devido à imaturidade biológica do seu corpo e da sua mente, existe uma diversidade de formas através das quais se dá o início de um processo de emancipação identitária. Especialmente se tomado em consideração o contexto de diferenciação social da con- temporaneidade (rumo, como se referiu, à crescente individualização dos percursos de vida). Nesta medida, a adolescência é uma fase rica em tran- sições e transformações que interpelam tanto o sujeito (que de alguma maneira tenta responder à questão «quem sou eu?»), como o sistema de relações que é a família, donde resultam tensões e, não raras vezes, para- doxos e contradições. O carácter ambíguo do período da vida conhecido como adolescência (que, tal como a juventude como um todo, tem limites difusos e imprecisos) coloca, inevitavelmente, relevantes desafios teóricos e metodológicos à compreensão dos processos de construção da autono- mia dos jovens. Foram precisamente estes desafios que nesta pesquisa se pretendeu enfrentar, ao tomar a adolescência e as experiências dos jovens como objecto de estudo empírico.
Em suma, os objectivos principais deste livro passam por entender como criam relacionalmente os indivíduos jovens, em duplo processo de
Adolescência e Autonomia
crescimento e amadurecimento, universos particulares (privados e ínti- mos), entendidos como expressão da construção da sua autonomia, em contextos de forte dependência material e/ou afectiva da família; e por prescrutar as questões processuais (relacionadas com os percursos, as mu- danças e as transformações), especialmente no que diz respeito às moda- lidades em que ocorre a reformulação das relações de filiação. Pretendeu- -se assim averiguar os modos como, em contextos particulares, consegue ou não o adolescente no limiar da maioridade legal, através do estabele- cimento processual (in)tenso de um perímetro para a sua individualidade,
ser ele próprio, ser orientado por considerações, desejos, condições e carac- terísticas que não são simplesmente impostas externamente sobre ele, mas que fazem parte de alguma forma do que é considerado o seu eu autêntico [Christman 2003, s. p.].
Trata-se, simultaneamente, de um exercício de aplicação de uma visão da autonomia enquanto conceito compósito (ou seja, perscrutando os vários eixos de significação que a definem enquanto norma e enquanto processo) a partir das formas como se estabelece o perímetro da indivi- dualidade singular face a outros e aos diversos níveis de intervenção/in- fluência (do nível cultural/normativo a nível interpessoal).
Sobre as inquietações que levaram a que a autonomia e o processo de individuação emergissem como questões de partida, contribuindo fortemente para moldar a perspectiva teórica sobre o objecto empírico, já se teve oportunidade de explanar. Mas para além das questões teóricas de base há que esclarecer também a opção por uma dada perspectiva em-
pírica, que neste caso se traduziu na adopção de um entre vários pontos
de vista possíveis sobre os sujeitos e a fase da vida que se encontravam a viver. Com efeito, os jovens adolescentes, mesmo reconhecendo a multiplicidade de territórios onde se desenrola a sua existência, foram olhados a partir de uma plataforma de observação em particular que é a da família, em virtude de se reconhecer a sua centralidade no processo de individuação.
Várias são as razões que justificam tal escolha, estando entre as prin- cipais o facto de que, se as relações amicais são nesta fase da vida criadas em abundância (havendo, naturalmente, excepções), já as familiares são
intensamente transformadas, na medida em que o sistema de relações fa-
miliares e respectivos protagonistas são forçados à recomposição quando o jovem tenta aceder (com maior ou menor dificuldade e empenho) à condição de indivíduo no seio da família. Este processo estará orientado para a obtenção de uma maior simetria relacional na família, ou seja, no
Introdução
sentido do reconhecimento mútuo da igualdade em dignidade e auto- nomia, amenizando os desníveis hierárquicos vigentes durante a infância.
A opção da família como plataforma de observação teve consequên- cias a dois níveis. Por um lado, a adopção desta perspectiva empírica não se resume a uma perspectivação linear do objecto: conferindo profundidade através de um só ponto de fuga – por exemplo, o do jovem que reportaria as suas experiências individuais e interacções familiares. Escolheu-se antes desenhar uma pesquisa com recurso a uma perspectiva oblíqua, o que im- plica abordar o objecto a partir de dois pontos de fuga separados no plano (ou seja, com uma diferente posição no sistema de relações). Significa isto que não só interessava inquirir o jovem acerca das suas experiências, como se via interesse em cruzar estes relatos com os de alguém que de perto assiste e activamente participa nessas experiências, como são os progenitores.17
Uma tal estratégia, recorrendo uma vez mais à analogia do desenho e da geometria, acrescentou, crê-se, à profundidade o volume. Acedeu-se, por esta via, a pelo menos dois dos (muitos) lados do objecto a retratar. Desta forma pretendeu-se simultaneamente operacionalizar as convicções teóricas que sublinham a importância da alteridade e o carácter relacional dos processos de construção de si no quadro de uma intersubjectividade partilhada. Contudo, ao iluminar pelos menos dois lados do objecto (pois nem todas as perspectivas oblíquas são só bidimensionais, podendo por vezes fornecer um retrato tridimensional), reconhece-se que se dei- xam na sombra dimensões tão ou mais importantes do que aquelas que a perspectiva escolhida permite observar. O trabalho de (re)definição do objecto constitui sempre um exercício de escolha e depuração, em que inevitavelmente se reequacionam algumas das ambições iniciais.
Esta é, pelo menos, umas das hipóteses centrais que presidiram à pes- quisa. Resta ainda, porém, esclarecer como se construiu a perspectiva me-
todológica, percorrendo brevemente os trilhos da pesquisa, desta feita elu-
cidando o leitor acerca da coreografia metodológica (Janesick 2000) que presidiu a este trabalho. Uma coreografia mais perto da improvisação do que do minuete, o que quer dizer que se assumiu a posição de um pes- quisador/coreógrafo que recusa uma visão padronizada, unívoca e rígida da linguagem de pesquisa e prefere usar um conjunto diversificado de
17Nos termos da grounded theory, o cruzamento de testemunhos é um claro exemplo
do procedimento de triangulação dos dados, embora neste caso a aferição da verdade factual não seja o principal objectivo, antes importando o confronto entre duas narrativas sobre uma experiência partilhada (v., por exemplo, Maroy 1997; Charmaz 2000; Janesick 2000; Stake 2000).
procedimentos que, sendo simultaneamente plurais, abertos e rigorosos, atentam à complexidade dos cenários sociais em estudo (Janesick 2000, 379). Uma coreografia construída em vários tempos que partem de movi- mentos/elementos pertencentes ao léxico metodológico (entrevistas for- mais, revisões de literatura, explorações e observações planeadas) mas onde há margem substantiva para os ajustamentos e improvisações, com vista a melhorar a performance a cada passo da pesquisa, atendendo aos imprevistos e imponderáveis do percurso.
Em primeiro lugar, todavia, houve que definir a abordagem global. Tratando-se de um objecto que ambicionava perscrutar lógicas e proces- sos de acção individual, buscando compreender valores e visões do mundo de sujeitos tanto ou mais que as suas acções, os factos e as estru- turas que consubstanciam os contextos, a abordagem qualitativa reve- lou-se à partida como a estratégia mais adequada (Charmaz 2000, 525; Kaufmann 1996, 14; Lalive d’Epinay 1990, 39).
O espectro das técnicas qualitativas de pesquisa é vasto pelo que dizer que se adoptou uma abordagem qualitativa é insuficiente. E apesar de o recurso a várias técnicas constituir um dos meios que permitem simulta- neamente amplificar a variedade e a profundidade dos dados recolhidos e triangular os dados oriundos de diversas fontes, acaba por haver no de- curso da pesquisa uma técnica que se destaca na constituição do corpus empírico. No caso da presente pesquisa foi a entrevista semidirectiva que se complementou com o tipo de aprofundamento (narrativo) em que se suportam as abordagens biográficas. Esta combinação revelou ser a via me- todológica mais ajustada aos objectivos, pois permitia atender à necessi- dade de obter diversos testemunhos subjectivos sobre experiências de vida, respeitando simultaneamente a sua singularidade, não negligen- ciando ao mesmo tempo a dimensão processual dos percursos de vida e a sucessão de etapas, acontecimentos ou vivências.
Não se pretendendo construir um guião muito elaborado, houve ne- cessidade ainda assim de sistematizar os temas que pretendiam guiar as entrevistas. Com efeito, nesta investigação acabaram por se estabelecer
territórios de pesquisa, que se converteram nos temas do guião, semelhantes
no aplicado quer aos jovens quer aos progenitores, embora o dos últimos abarcasse outros temas que visavam sobretudo obter informação adicio- nal e contextual sobre os percursos e vivências dos primeiros, para além de inquirir especificamente acerca das experiências da parentalidade.
Com efeito, é importante voltar a sublinhar que se adoptou uma abor- dagem que pressupõe complexidade do processo de construção de si pelos sujeitos, em virtude de este assentar sobre modos de pensar e agir
Introdução
porventura diferentes nos múltiplos tempos e espaços de existência. Se a construção da autonomia parece dizer respeito ao estabelecimento refle- xivo de um perímetro da individualidade, implicando afastamentos e aproximações, fronteiras construídas e/ou transgredidas, a noção de ter- ritório ganha algum protagonismo. Espaços simbólicos, materiais e ima- teriais são necessários ao uso e experimentação de um reportório de com- petências que se tem associado ao exercício dessa mesma autonomia, como aliás sublinhou Goffman (1980) ao construir a noção de territórios
do self.18
Transversalmente em ambos os guiões mobilizaram-se ainda a dimen- são temporal, ou seja, instigou-se o sujeito a fazer, sempre que possível, a reconstituição biográfica de percursos e trajectórias de vida, bem como a projecção do futuro (sonhos, projectos, anseios); e a dimensão relacio- nal, visando esclarecer a cada momento o estágio da relação de si consigo próprio (sentimentos, sensações, reflexões) e o da relação com os outros, isto é, a configuração das redes de relações sociais (familiares e amicais) bem como as respectivas dinâmicas.
Pediu-se, em suma, aos entrevistados que falassem dos vários territó- rios ou espaços da sua existência tendo em atenção as citadas dimensões transversais. Estes territórios ou espaços, recorrendo à sistematização de Lalive d’Epinay (1990, 42-43), distribuem-se num contínuo que parte dos
espaços familiares (como a escola, a casa, territórios de lazer) e termina nos espaços imaginários (os lugares imaginados no passado ou sonhados e al-
mejados para o futuro), passando pelos espaços transversais (que corres- pondem aos itinerários que os sujeitos percorrem entre os espaços fami- liares).
Explanar a constituição da amostra evoca inevitavelmente um dos principais aspectos métricos da pesquisa: quantos casos são adequados para dar resposta aos objectivos estabelecidos (Small 2009)? Se um corpus empírico se constitui em múltiplas investidas no campo (Charmaz 2000, 525) para assegurar melhor qualidade e profundidade da informação que decorre do estabelecimento de uma relação de familiaridade investiga- dor-investigado – o que pode ser difícil de conseguir num raide único de inquirição – a limitação do número de casos torna-se premente.
18Os territórios do self (que podem ser ideais, mas que assumem sobretudo a forma de
territórios físicos) são, na perspectiva do autor, os espaços individuais necessários à via- bilidade e manutenção da autonomia do self (para que este tenha as condições necessárias para se autopreservar na interacção) e têm a ver com a capacidade do indivíduo de ter algum controlo sobre algum espaço físico, tanto pessoal como social, para que possa de- terminar a sua individualidade, o seu eu autêntico e íntimo.
Adolescência e Autonomia
Nessa medida, o efeito de saturação (Bertaux 1997) da informação re- colhida (que pode aliás implicar complementar a amostra inicial com uma amostra teórica que preencha os vazios que a primeira deixou de fora) constitui um importante indicador de que os dados recolhidos são suficientes para dar resposta aos objectivos que se foram entretecendo (Ruquoy 1997, 104). Nem todos os objectos, contudo, são intrinseca- mente saturáveis. Ou seja, o efeito de saturação não é um indicador ab- soluto, mas relativo aos vários níveis de perspectiva mobilizados.
A constatação da infinita diversidade social não constitui, ainda assim, um factor de resignação face à impossibilidade de inquirir em profundi- dade uma multidão infinita de sujeitos até saturar completamente a in- formação, mas de convicção no valor singular de cada caso, atravessadas que são todas as existências humanas pelas lógicas e processos sociais e culturais. Ou seja, não é a quantidade de casos que determina a qualidade da análise e o alcance dos dados recolhidos. Optou-se portanto por uma solução que, como aconselha Stake (2000, 447), junta equilíbrio e varie- dade na construção de uma amostra que se fixou nesta pesquisa nos de-
zanove casos19– cada caso uma díade progenitor-jovem.
Equilíbrio na medida em que, para que pudessem ser vistos como casos evocativos de um conjunto de experiências e vivências que se pre- tendiam analisar, os casos tinham de se situar ao longo de um conjunto de eixos de semelhança que permitissem a comparabilidade. Variedade na medida em que se se pretendia aferir diferentes modalidades de cons- trução de autonomia e de reformulação das relações familiares, havendo que fazer variar outras características pessoais e sociais e os contextos de existência dos jovens entrevistados. Só assim o trabalho comparativo e a construção de esquemas de inteligibilidade poderia socorrer-se daqueles recursos interpretativos no estabelecimento de nexos relacionais entre as categorias, temas, territórios ou conceitos presentes naqueles esquemas. Fixaram-se, pois, alguns critérios de selecção para garantir quer o equi- líbrio, quer a variedade da amostra, deixando variar sem restrições as res- tantes características. Em suma, para garantir o equilíbrio (i. e., alguma comparabilidade) decidiu-se entrevistar um número idêntico de raparigas e de rapazes no limiar da maioridade, ou seja, indivíduos entre os 17 e os 19 anos (a maioria tinha 18 no momento da entrevista) na condição
19Foram realizadas 37 entrevistas semidirectivas (algumas em vários momentos devido
à sua extensão), com uma duração que oscilou entre uma hora e três horas, gravadas e integralmente transcritas, durante um período que se estendeu de Maio de 2005 a Março de 2006.
Introdução
de partilharem residência com a família de origem (o que à partida deixa de fora situações de jovens institucionalizados ou que, por circunstâncias várias, não vivem com os progenitores). A idade, mero indicador bioló- gico do estágio do ciclo de vida, tornou-se assim a variável estratégica (Maroy 1997, 104) para a constituição da amostra e cumpriu unicamente o objectivo de criar alguma homogeneidade no grupo, reduzindo a mar- gem para que as diferenças entre os casos não se explicassem pela dife- rença de idades, mas antes por outros factores de natureza individual e social. Com efeito, aquele limite situa todos os entrevistados numa si- tuação de dependência, senão material e financeira, pelo menos residen- cial, emergindo precisamente deste facto as tensões, processos e lógicas sociais
de acção que pretendiam ser analisadas, nomeadamente as eventuais rei-
vindicações de liberdade e independência da família, cuja memória (a existir), ou não seria sequer memória, ou, pelo menos, seria recente.
Já na perspectiva de garantir alguma variedade social na amostra esta- beleceram-se três localizações geográficas20distintas de recrutamento dos
entrevistados. A dois tempos: numa primeira fase somente os informan- tes privilegiados (protagonistas da fase exploratória e com quem se man- teve uma relação mais próxima, prévia e posterior ao trabalho de campo); numa segunda fase, a partir daqueles informantes, e por efeito de bola-
de-neve, constituíram-se três subamostras por localização. Os critérios de
selecção das localizações não são próprios, pois derivam do trabalho le- vado a cabo junto do Observatório Permanente de Escolas,21a partir do
qual se recrutaram os informantes (um a dois por localização). Estes sur- giram inicialmente na pesquisa através da sua condição de estudantes22
(ao terem participado numa actividade do OPE em 2004).
20 Estas localizações foram tornadas anónimas para minimizar os riscos de reconhe-
cimento dos lugares, assim como o foram os entrevistados aqui retratados através de pseudónimos, solução que, diminuindo o risco de identificação dos casos, não põe em causa o objectivo de fornecer coordenadas ao leitor para que possa seguir as narrativas individuais e familiares.
21 Entretanto integrado no Observatório Permanente da Juventude.
22 Muito embora se rejeite qualquer tipo de enclausuramento estatutário dos sujeitos
(nem tão-pouco constitua o estudo da condição estudantil um objectivo específico da análise) a verdade é que é na escola que se pode encontrar uma significativa percentagem de jovens no limiar da maioridade (segundo as estatísticas do Ministério da Educação, por exemplo, eram estudantes no ano 2003-2004 74,8% dos jovens de 17 anos, 65,7% dos de 18 anos e 55,8% dos de 19 anos). Mas apesar de a escola ter servido de pivô ins- trumental de recrutamento, a variável condição perante a escola não constituiu uma va- riável estratégica, pelo que através do efeito de rede gerado pelo método bola-de-neve se assegurou diversidade a este nível (a partir de um aluno/informante recrutaram-se outros sujeitos da sua rede, por vezes estudantes, por vezes não).
Ainda assim, é de notar que a diversidade de cada subamostra se re- velou coerente com os dados contextuais de cada localização e a preva- lência nestes de fenómenos como o abandono escolar, por exemplo. É o caso dos entrevistados residentes na «vila», situada numa região do Tâmega marcada pelos baixos níveis de escolaridade, pelo trabalho in- dustrial e pela emigração (6 casos – 11 entrevistas formais). Ou, pelo con- trário, fenómenos de excelência escolar num contexto urbano favorecido como o bairro onde se localiza a escola da «capital», frequentada por outro núcleo de entrevistados (6 casos, 12 entrevistas formais). Num re- gisto intermédio surgem os restantes entrevistados, recrutados numa es- cola da «periferia» (5 casos, 10 entrevistas formais), frequentada maiori- tariamente por alunos de estrato socioeconómico médio (cujas trajectórias de classe numa perspectiva intergeracional são muito diver- sas). Os restantes 2 casos (4 entrevistas), recrutados noutra «periferia» (com características semelhantes à primeira), resultaram da necessidade de completar teoricamente a amostra com casos urbanos de abandono do projecto escolar e de transição iminente para o mercado de trabalho.
Em suma, uma variedade de contextos geográficos, sociais e econó- micos que se reflecte nas experiências de vida, na medida em que se an- tevêem diferentes estruturas de recursos e oportunidades. Ainda assim, houve o cuidado de não polarizar a amostra, fazendo corresponder a cada localização um perfil socioeconómico de entrevistado homogéneo. Res- peitou-se inteiramente o efeito de rede, e estas, apesar dos fenómenos de homogamia nas relações sociais, são diversificadas: há, por exemplo, re- lativamente menos estudantes do ensino superior na «vila» do que na «capital», mas estes existem contudo, e não foram excluídos da amostra pelo motivo de não exibirem um perfil estereotipado daquela região. Do mesmo modo, na escola da «capital», que é conhecida pelas origens favo- recidas dos seus estudantes, encontrar-se-ão outros com origens menos favorecidas que, surgindo nos contactos realizados, foram mobilizados para a amostra por espelharem justamente o tipo de variedade que enri- quece a comparação e previne a estereotipação das localizações (e dos resultados).
Os dezanove casos constituem assim os referentes empíricos a uma abordagem do processo de individuação, a partir de três recortes temáti- cos e conceptuais, que emergiram da análise como particularmente rele- vantes. Estes incorrem, naturalmente, num elevado risco de sobreposição, ou não fosse o processo de individuação complexo e plural.
Assim, compôs-se uma narrativa em três momentos, ligados através da utilização das mesmas personagens, que consubstanciam assim o leitmotiv
Introdução
empírico da leitura (o leitmotiv teórico é, recorde-se, o da exploração dos vários aspectos ligados ao processo de individuação e de construção da autonomia). Ainda assim, e não negando a importância das variáveis clás- sicas (como a classe, o género, as qualificações, a etnia) adverte-se desde logo o leitor de que não foram estes os atributos que orientaram os recor- tes, pois pretenderam-se explorar caminhos interpretativos e explicativos que não reduzem os sujeitos aos seus atributos sociodemográficos.
Os primeiros dois capítulos debruçam-se sobre a importância das in- teracções, que geram um espaço de intersubjectividade partilhada, na com- preensão da acção e das trajectórias sociais. Isto é, reconstitui-se o jogo as-