2. Theoretical framework
2.1 Innovation Theory
Poucos são os estudos que abordam o que ainda se denominava como “gueto” em São Paulo, na época do nascimento do movimento homossexual no Brasil, e há apenas referências esparsas a respeito do modo como os militantes da “primeira onda” viam os espaços comerciais de sociabilidade entre homossexuais e os espaços de circulação mais amplos destinados ao flerte e trocas sexuais furtivas, ocupados também por michês e travestis. Apesar da escassez de dados a esse respeito, é possível recuperar, a partir da literatura disponível, as questões que permeavam relações entre “gueto” e movimento em finais da década de 1970 e início de 1980, o que pode nos auxiliar na compreensão das dinâmicas que se dão entre movimento e mercado hoje.
Já discuti brevemente nesta dissertação o caráter de “descoberta” que o contato com estabelecimentos de freqüência homossexual adquiriu, e continua adquirindo185, para pessoas que sentem o isolamento decorrente da orientação do seu desejo em direção a outras de mesmo sexo e da desaprovação familiar/social a essa inclinação. Dessa forma, não é difícil compreender que a existência do “gueto” ganhasse contornos políticos que o aproximava em certa medida do movimento homossexual, sendo visto por muitos dos seus freqüentadores como um espaço de liberdade, em contraposição a uma sociedade castradora. Também não podemos desconsiderar os significados implícitos no fato de que talvez o maior símbolo internacional de resistência associado à homossexualidade, funcionando como um marco do movimento homossexual surgido na década de 1960, tenha sido a revolta de gays e travestis presentes no bar Stonewall Inn, em Nova York, quando se viram expostos à ação violenta da polícia local.
No contexto brasileiro de finais da década de 1970, em que os efeitos da abertura política começavam a ser sentidos juntamente com o clima de “desbunde”, registra-se também uma ampliação do “gueto” gay paulistano, com a abertura de novas boates e bares,
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Atualmente, a função determinante que o “gueto” assumiu para muitos homossexuais divide espaço com o surgimento de outros canais em que se pode travar o contato com “iguais” de maneira parcialmente protegida da desaprovação social. Refiro-me aqui especialmente às alternativas de constituição de redes trazidas pela internet.
tendo como epicentro a região central da cidade, especificamente o Largo do Arouche (Perlongher, 1987: 86). Como salienta MacRae (1990), cada novo estabelecimento que surgia era visto como “vitória para a causa” por boa parcela dos homossexuais freqüentadores do “gueto”. Tal efervescência geral tinha paralelos no incipiente movimento homossexual que passava a se organizar com a criação do Grupo Somos186.
Entretanto, havia uma considerável contraposição entre as duas esferas, com constantes críticas dos militantes do Somos a respeito da “integração dos homossexuais à sociedade de consumo” (MacRae, 1990: 300). A própria constituição do grupo definia-se em oposição ao “gueto”, com o questionamento dos militantes ao que entendiam como “papéis sexuais hierárquicos” que imperavam no “gueto”, entre outros modelos vistos como opressores. Procurava-se também criar um espaço de sociabilidade diferente do que era proporcionado pelo “gueto”, o que se expressava em parte pela instituição de reuniões de “identificação”, por meio das quais se poderia refletir a respeito da homossexualidade e construir laços decorrentes de uma experiência compartilhada coletivamente.
Se, para muitos dos homossexuais identificados com o “gueto”, a constituição de espaços de consumo era vista como um avanço no combate ao preconceito, para os militantes do Somos isso soava como uma alternativa bastante limitada em comparação às aspirações de transformações sociais mais abrangentes a partir da “margem”. Os freqüentadores do “gueto” eram vistos muitas vezes como “alienados”, conformados com o limitado espaço de expressão social garantido pelas casas noturnas e pouco dispostos a “assumir” sua orientação sexual em outros espaços. Em 1983, MacRae escreve um artigo a respeito dessa postura, intitulado “Em defesa do gueto”. Tal artigo destaca a importância do “gueto” como um lugar
“(...) onde o homossexual tem mais condições de se assumir e de testar uma nova identidade social. Uma vez construída a nova identidade, ele adquire coragem para assumi-la em âmbitos menos restritos e, em muitos casos, pode vir a ser conhecido como homossexual em todos os meios que freqüenta. Por isso, é da maior importância a existência do gueto. Mais cedo ou mais tarde, acaba afetando outras áreas da sociedade” (MacRae, 2005: 299).
A aversão dos militantes de “primeira onda” ao “gueto” passava não apenas pela
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A respeito do surgimento do movimento homossexual no Brasil e o papel desempenhado pelo “gueto” e outras alternativas de sociabilidade, ver interessante debate entre Green (1999) e Facchini (2002). Green credita a essas alternativas o estabelecimento de condições ideais para que o movimento homossexual nascesse no Brasil, ao que rebate Facchini ressaltando os desenvolvimentos próprios de uma perspectiva de “politização” da homossexualidade, que não passavam necessariamente pelo contato com o “gueto”.
consideração dos seus limites em relação a transformações sociais mais amplas, mas pela desvalorização da forma como, entendia-se, organizavam-se as relações homossexuais nesse circuito. Peter Fry (1982), como já citado nesta dissertação, observou a contraposição entre um sistema de classificação da homossexualidade estruturado pelo par “bicha/bofe” e muito presente no “gueto” de então, e outro sistema pautado pelo par “entendido/entendido”, estruturado sob o signo do igualitarismo entre parceiros e incentivado pelos militantes homossexuais. Essa oposição gerou conflitos de valores entre militantes e homossexuais identificados com o “gueto” e com as expressões culturais comuns nesses espaços, como na ocasião em que militantes protestaram aos gritos de “machista” e “autoritário” diante de uma apresentação em boate que representava um típico “machão” e uma travesti, que se desdobrava em trejeitos para conseguir sua atenção (MacRae, 1990). MacRae destaca como esse conflito intensificava-se no caso das mulheres, que tinham poucas opções no “gueto”, com bares em que os contatos e relações estruturavam-se mediante o estabelecimento dos papéis de “fancha/lady”. Uma entrevista que realizei com uma militante da APOGLBT que também chegou a participar do Somos, ainda quando muito jovem, mostra essa oposição quando narra o seu primeiro contato com um bar de freqüência homossexual feminina:
“Eu lembro que a gente começou a conversar, ela me levou pra dentro do Ferro´s, me apresentou umas amigas e de lá fomos para o Cachação. E foi a primeira vez que eu entrei, e foi o primeiro choque que tive. Quando eu cheguei no Cachação, fiquei assustada. Eu vi ‘homens’ ali dentro. Aí a visão não me chocou tanto, o que me chocou mais foi a postura, não sei explicar para você, talvez porque eu fui criada com minha mãe, meu pai saiu cedo de casa, e minha mãe nunca passou a imagem de que depende de homem, de que se submete. E eu lembro que tinha uma amiga de escola, que a mãe dela apanhava do marido. Então, sempre tive uma certa impressão desse tipo de relação entre homem e mulher. Aí aquela... eu vi umas coisas meio parecidas no Cachação, que foi uma coisa que me chateou. Porque ao mesmo tempo eu me identifiquei ali, mas me chocou... E eu tinha um jeito meio assim, que não era nem muito masculina, nem muito feminina. Nunca fui muito vaidosa, mas também não era machinho, gostava de alisar o cabelo, de ter cabelo comprido, só não gostava de usar pintura, brinco. E elas ficavam perguntando, tinha muito disso: ‘você é ativa ou passiva?’. Tinha aquela conversa. E eu lembro que era difícil eu paquerar, porque parece que eu devia causar uma certa dúvida. Porque a pessoa ficava me olhando assim... e foi nessa época que eu vi, e isso nunca vou esquecer, um cartaz dizendo: ‘I Encontro de Grupos Homossexuais’, e não sei porquê me interessei e fui. Aí foi um deslumbre: ‘gente, que isso...’. Porque aí eu vi um outro tipo de gente, eram pessoas mais normais, com roupas mais hippies, mais militantes, jeans, camiseta, meninas de cabelões, aquelas bolsas de couro típicas da militância da época. Eu vi outra
realidade ali. Tinha a relação dos grupos, e eu peguei o endereço do Somos e foi o que eu entrei”. (entrevista com Márcia – setembro 2004)
Não obstante as críticas dos militantes de “primeira onda” a respeito do “gueto”, as relações com o circuito noturno de freqüência homossexual não deixavam de existir, pois era lá que se poderia encontrar a “base” do movimento. Mesmo a primeira manifestação pública do movimento homossexual estava relacionada, de certa forma, à proteção dos espaços públicos de sociabilidade homossexual e do “gueto”, ameaçados pelo delegado Richetti187. Era nestes espaços que se poderia recrutar novos militantes188, e era em torno deles que se colocava cartazes como os do “I Encontro de Grupos Homossexuais” a que se refere a entrevista acima. Embora os primeiros militantes do Somos não tivessem o “gueto” como referência para sua atividade política, muitos que posteriormente acessaram o grupo costumavam freqüentar as casas noturnas e traziam novos integrantes por meio das redes sociais desenvolvidas nesses espaços. Dessa forma, mais do que uma oposição distanciada do “gueto”, procurava-se desempenhar um papel na tarefa de “conscientizar” os homossexuais e mesmo de explorar concretamente uma idéia de “militante homossexual”:
“de uma forma muito real, aprendia-se a ser homossexual, ou melhor, militante homossexual. Embora muitas das idéias correntes no gueto fossem aproveitadas, grande número delas passava por uma reciclagem sofrendo consideráveis transformações”
(MacRae, 1990: 132).
Essas são as referências a respeito da relação entre movimento e “gueto” na “primeira onda” do movimento. Salvo engano, não há referências de como se constituiu essa relação na década de 1980, quando o “gueto” – e também o movimento - sofre o impacto da aids. De toda forma, como vimos, registra-se uma grande redução dos grupos militantes em São Paulo, e há uma guinada do movimento como um todo em direção a um discurso mais específico de reivindicação de direitos civis, com menos ênfase no antiautoritarismo e no comunitarismo verificados na “primeira onda” (Facchini, 2002). Imagino que esses fatores possam ter contribuído, de certa forma, para o enfraquecimento da visão que contrapunha o “gueto” a alternativas “revolucionárias”. Porém, essas considerações não passam de especulações a respeito de algo que foge ao escopo desta dissertação.
187
Ver final do capítulo anterior.
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Perlongher afirma que “independentemente de ter permanecido ou não no grupo [Somos], uma parte considerável da população homossexual do gueto paulista acabou passando pelas suas reuniões” (Perlongher, 1987: 89).