4. Empirical Data – Technology Development at NCS
4.7 The Process of Innovative Development
4.7.1 A Need or Recognition of a Problem
O contexto delineado no item anterior, apontando novos direcionamentos do mercado GLS, aliado a dinâmicas internas do próprio movimento GLBT, fez com que grande parte da oposição ao “gueto”, verificada no início do movimento homossexual, perdesse o sentido, levando parte da militância a uma revisão das posições em relação aos atores do mercado, sobretudo na direção de considerá-los como capazes de influenciar a sua área de atuação. Por outro lado, a oposição dos militantes ao “gueto”, em razão de sua associação com um modelo “bicha/bofe” e relações hierárquicas, também se enfraqueceu
diante de uma menor ênfase no antiautoritarismo e no igualitarismo, por parte do movimento, e da valorização, por parte de setores do mercado, de um padrão de gay “moderno”: discreto, viril e com relações pautadas por um modelo igualitário, não organizadas a partir da idéia de atividade ou passividade201. As tensões entre mercado e movimento ainda permanecem, mas de uma forma muito mais ambígua do que no período anterior.
É possível delinear algumas dos discursos presentes no movimento a respeito do mercado GLS, alternando-se entre uma visão positiva ou negativa a respeito do papel do mercado no combate ao preconceito. Uma das posições que pude observar estabelece conexão direta entre o desenvolvimento de um mercado GLS e a aquisição de cidadania, relacionando também, diretamente, as atividades do movimento e as do mercado. Assim, o movimento contribuiria na direção de conscientizar os homossexuais dos seus direitos enquanto cidadãos, criando condições mais favoráveis para que “assumam” publicamente a homossexualidade. Isso incidiria diretamente nos negócios GLS, sob o raciocínio de que homossexuais “assumidos” e “orgulhosos” sejam mais propensos a consumir produtos específicos e a exigir um tratamento respeitoso ao consumir variados tipos de serviços, demanda que poderia ser suprida por empreendimentos segmentados. Esse discurso esteve bastante presente no processo de aproximação entre mercado e movimento ocorrido entre meados da década de 1990 e início de 2000, tendo militantes associados à Parada de São Paulo como pólos irradiadores de tais percepções, como é possível perceber por meio da fala de um militante da APOGLBT bastante atuante nessa época:
Eu comecei a fazer essa fala. Falava pro mercado: “gente, eu não tenho absolutamente nada contra o mercado. Eu vou acabar com o mercado? Não vou acabar com o mercado”. Eu dizia sempre o seguinte: “os gays, as lésbicas, a comunidade GLBT, na medida em que ela tiver mais direitos, mais cidadania e mais espaços de participação e circular, obviamente se torna um grande nicho. Por que? A pessoa vai mais a restaurantes, ela vai mais a bares, vai mais a livraria, vai mais não sei onde. Isso vai aquecer o mercado”. Isso qualquer um percebe. Se você ajudar a criar condições... E eu dava sempre o exemplo: “se eu for comprar pasta de dente, e tem essa aqui que apóia a Mata Atlântica, e essa que não apóia, eu compro a que apóia a Mata Atlântica”. Como um todo, o mercado começou a se
201 Vale lembrar que essas mudanças foram acompanhadas de uma transformação mais ampla que implica
uma menor ênfase, e mesmo o rechaço ao modelo tradicional entre os homossexuais de modo geral. No entanto, não se pode afirmar que o modelo bicha/bofe tenha sido substituído por um modelo que não leva em conta convenções de gênero ou atividade/passividade, sendo mais correto dizer que os diferentes modelos existem simultaneamente, mesmo considerando a penetração de um modelo de homossexualidade não atrelado a papéis de gênero na mídia e a absorção da categoria “gay” nas grandes cidades brasileiras.
voltar pra responsabilidade social, começou a perceber que era uma tendência que vinha de fora, de entender que uma das formas de você ampliar o seu nicho consumidor, é você localizar no seu produto ações que o outro gostaria que você fizesse, que é a tal da responsabilidade social. Isso é um reflexo do mercado geral, porque o mercado geral estava fazendo isso, com criança desaparecida... Tanto que nessa época você começa a perceber que os grandes grupos, ao invés de apoiarem, começaram a criar institutos para desenvolver ações sociais, porque isso era um diferencial. E obviamente o mercado GLS começou a perceber... (entrevista com
Pedro – janeiro de 2006)
Esse raciocínio também é comum entre uma parcela dos empresários, que ressalta que as conquistas do movimento reverberam na formação de um público mais comprometido com o mercado, capaz de estabelecer maior fidelidade com empresas associadas ao público GLS e a uma postura de visibilidade e orgulho, que poderia se expressar inclusive por meio de uma atuação próxima ao movimento. Durante as entrevistas, houve menção a um público gay jovem que estaria chegando ao mercado como consumidor, e que teria uma nova postura diante da homossexualidade e do próprio mercado, fruto, entre outros fatores, de conquistas do movimento202. Da mesma forma, a força econômica demonstrada por esse mercado GLS seria responsável pela visibilização da homossexualidade para além de seus limites, fazendo com que homossexuais fossem vistos como uma fatia importante para a movimentação da economia e conquistassem respeito a partir da sua posição de consumidor.
Tal visão espelha-se, muitas vezes, em experiências do exterior, notadamente de países europeus ou dos Estados Unidos, aos quais são associadas estratégias de conquista de direitos e de uma visibilização positiva da homossexualidade por meio da ênfase no poder de consumo dessa parcela da população. Há quem associe, por exemplo, a expressão
“pink money” a uma ação de homossexuais norte-americanos, que carimbaram cédulas de
dinheiro com algo que remetia ao fato daquelas notas terem pertencido a homossexuais. Não encontrei nenhuma referência a essa ação, mas, verdadeira ou não, a história parece ser significativa desse tipo de estratégia política. Assim, um militante do movimento GLBT, ex-presidente da APOGLBT, qualifica o uso do poder de consumo dessa população como
202
Essa visão é reproduzida no artigo de uma consultora do mercado GLS: “nascidos após essas vitórias, têm- nas como algo natural em suas vidas. Encaram sua orientação sexual como deve ser, ou seja, sem qualquer constrangimento. Partícipes de uma nova história, vão às ruas sem inibição mostrar no que acreditam e protestar quando há preconceito generalizado, colocando-se como exemplos de cidadania. Fiéis às empresas gay-friendly, comparecem aos eventos voltados para esse público. Eles, seus amigos e familiares são os novos consumidores desse atraente mercado GLS”. In JOHNSON, Zita. Do “achismo” ao profissionalismo. Fonte: http://www.gaybrasil.com.br/noticias.asp?Categoria=Mercado&Codigo=2653 acesso 02 jan 2006.
uma estratégia legítima de combate ao preconceito: “em relação ao poder econômico,
conhecemos a experiência americana que carimbou seu dinheiro ("pink money"), fazendo valer o direito de ser bem tratado. Acho que essa também é uma possibilidade. Tenho um amigo canadense que diz que existem três formas para que respeitem os GLBTSs: primeira: pelo coração; segunda: pela cabeça, através das informações e, terceira: pelo bolso”203.
Contrário a essa argumentação em torno do mercado, coloca-se um discurso que desvincula o consumo da cidadania, e sublinha o fato de que, aos homossexuais, não interessa ser vistos a partir do papel de consumidores, mas a partir do lugar de cidadãos. Em reportagem de capa de uma revista de circulação nacional204, algumas dessas posições ficaram explícitas, inclusive o conflito entre militantes da APOGLBT e determinados atores do mercado, numa ocasião em que o então presidente da entidade afirma que “eles nos olham como consumidores, e nós queremos ser vistos como cidadãos”. Existe a concepção, portanto, de que a associação entre aquisição de direitos e consumo tende a enfraquecer a visibilidade de outras demandas relativas à cidadania de GLBT.
Além da argumentação que procura desvincular consumo e cidadania, há também uma postura que procura neutralizar estereótipos a respeito do “consumidor gay”. Na mesma reportagem citada no parágrafo anterior, uma liderança do movimento GLBT critica a associação entre homossexuais e consumo: “questionado sobre a imagem do mercado
consumidor GLS, Mott diz que a idéia do gay endinheirado é falsa: ‘eles até existem, mas são uma parcela ínfima dos cerca de 17 milhões de homossexuais brasileiros’”. Também
nessa linha, há a argumentação de que se deve mostrar que gays não consomem somente produtos direcionados, mas também itens de consumo de massa, o que os igualaria a qualquer outro cidadão consumidor. Na pesquisa de campo, ouvi de um militante que era necessário desmistificar a visão do gay que “consome apenas roupas ou lazer, mostrando que gays também compram sabão em pó e coca-cola”205.
203
In Crônica Bear. Beto de Jesus, Guerreiro das causas GLBT. Fonte:
http://www.cronicabear.com/arquivos/entrevistas/beto.php?iniciais=FSC acesso 02 jan 2005.
204
PHYDIA DE ATHAYDE. Homo: o mercado oculto. In Revista Carta Capital, São Paulo, Plural Editora, ano X, n. 265, 5 nov 2003, pp. 10-15.
205 Miller (2000), na sua observação etnográfica de hábitos de consumo de donas de casa de uma rua de
Londres, notou o fato de que, sempre que expunha o objeto de sua pesquisa a um informante em potencial, deparava-se com a indicação de outros informantes, identificados como “consumistas”, guiados pela inconseqüência e exagero na sua relação com os bens materiais. O ato de comprar era visto não como uma atividade corriqueira e necessária à manutenção de necessidades diárias, mas como uma atividade via de regra hedonista, muitas vezes identificada às mulheres ou a uma existência fútil. Nesse sentido, cabe especular se
De fato, grande parte das entradas na mídia, segmentada ou não, a respeito do mercado GLS apresenta esse setor como uma grande promessa, devido à idéia corrente de que homossexuais são donos de um poder aquisitivo maior em comparação ao restante da população, são mais refinados, têm melhor formação cultural e são mais propensos a ter uma relação hedonista com os bens culturais/materiais, a partir da qual não se mede esforços, ou dinheiro, para a obtenção de determinados produtos ou serviços. Essa imagem do consumidor homossexual refere-se ao homem gay, e muitas vezes vem acompanhada da qualificação desse público como DINK (Double Income, No Kids), seguindo um padrão norte-americano, em que se teria uma dupla receita quando se pensa em parcerias homossexuais, livre de gastos com filhos, o que habilitaria esse público para investir uma suposta renda reserva em serviços ou bens sofisticados, que não são de primeira necessidade. Pelo mesmo motivo, os gays também realizariam viagens turísticas com mais freqüência206. No Brasil, não há registro de pesquisas de mercado amplas o suficiente para detectar possíveis padrões de consumo, que se restringem às especulações da mídia e de uma parcela do empresariado. No exterior, têm sido realizadas algumas pesquisas de mercado com amostragem considerável207, mas do ponto de vista metodológico não se pode dizer que sejam confiáveis, considerando as dificuldades de realização de uma pesquisa representativa do ponto de vista populacional com grupos estigmatizados.
A crítica a essa imagem do “consumidor gay”, por parte de setores do movimento GLBT, alinha-se à idéia de que atores do mercado possam ser “exploradores do pink
money”, aproveitando-se do dinheiro de uma população que sofre preconceitos sem que
haja uma preocupação em trazer benefícios para esse público. Essa visão é compartilhada por alguns atores do mercado, que procuram combinar seus ganhos com atividades que promovam a cidadania dos segmentos GLBT:
“É o que eu falei, você tem que ter afeto. Eu ganho dinheiro com o segmento, então de certa forma, você tem que devolver. Isso é uma coisa que passa
essa visão não seria transposta para os mitos que envolvem o homossexual como consumidor, que ressaltam sempre o aspecto desnecessário e exagerado dos seus hábitos de consumo, o que também diz algo sobre a imagem do “gay” no mundo contemporâneo e sobre uma estratégia de atualização da discriminação.
206
Nos Estados Unidos, onde esse discurso se firmou, tem passado a existir nos últimos anos um discurso oposto, relacionado ao que se denomina GaybyBoom, em alusão ao BabyBoom da década de 1950, quando se registrou um aumento considerável na taxa de natalidade da população. O GaybyBoom refere-se ao ganho de direitos relativos à adoção e reprodução para casais homossexuais e à valorização das uniões entre pessoas do mesmo sexo pelo movimento, gerando um boom de casais homossexuais com filhos.
207
Fonte: Resources on gay market. In http://www.commercialcloset.org/cgi- bin/iowa/about.html?pages=resources - acesso em 15 jun 2005.
na cabeça de todo mundo que trabalha com o segmento, por isso que na ABRAT a gente tem várias ações, a gente faz um show no final do ano, que a gente doa a renda pra Casa Brenda Lee, a gente está fazendo uma ala GLS agora no Carnaval, na Mocidade Alegre, e parte do dinheiro vai ser revertido pra uma associação que cuida de doentes de HIV”. (entrevista com Antônio – dezembro 2005)
Entretanto, essas iniciativas estão muito longe das expectativas nutridas por militantes a respeito do mercado, que não reconhecem nelas um impacto estrutural no combate ao preconceito, dado o seu caráter assistencialista:
“Essa discussão, em primeiro lugar, está mal colocada por aqueles que criticam o mercado, porque eles estão no mercado e não estão fazendo nada pra, na prática, desconstruir esse mercado e ressituar ele. Aí eu fico pensando que o grande problema não é o mercado, mas as posições desiguais, hierárquicas, que eu posso ter dentro do mercado, que faz com que a exploração e a dominação ocorram de uma maneira oculta. Então, eu me beneficio disso porque ninguém está percebendo o que está acontecendo. Isso, de uma maneira genérica. Na prática, o que significa isso? Significa comprometer as pessoas que têm empresas funcionando, pra que elas colaborem pra aumentar a consciência GLBT, que elas revertam uma parte do seu lucro pra ações dessa natureza, que elas transformem algumas atividades, alguns serviços que elas prestam... Eu ainda vejo como muito comedido, limitado, o que essas empresas e estabelecimentos fazem em prol da comunidade. O problema é que eu acho que a gente cai no impasse quando falamos assim: eu vou procurar uma empresa x, a IBM, para pedir para ela financiar projeto de inclusão digital para homossexuais de baixa renda. Muito legal. É uma idéia boa, acho que isso melhora a qualidade de vida de uma parcela boa de pessoas. Mas eu não posso ficar pensando que o benefício que a gente pode extrair do mercado é enquanto consumidor: ‘eu tenho direito porque eu consumo’, ‘eu vou melhorar de vida porque eu tenho acesso a um produto que é a informática, o computador, e tudo mais’. Então, acho que no fundo, a gente ainda está muito preso a isso: se a minha cidadania está condicionada ao meu poder aquisitivo ou de status dentro do mercado, acho que isso é um problema. Esse pra mim é o nó da questão, é aí que a gente precisa atacar. E a gente precisa reconstruir as relações sociais, quando eu falo reconstruir alguma coisa, ou um cômodo, uma casa, eu preciso destruir algumas coisas, preciso derrubar algumas paredes. Como dizia o velho Marx, não dá pra fazer um omelete sem quebrar os ovos, e aí a gente tem que se questionar como é que a gente se posiciona em relação a essas coisas na minha relação com o outro, e a outra, pra que essas novas relações possam surgir”.
(entrevista com Carlos – dezembro 2005)
Argumentos presentes nos discursos pontuados anteriormente também surgem em uma versão mais radicalizada, associada a uma parcela dos setores do movimento que se identificam como de esquerda e combinada com uma crítica às Paradas do Orgulho GLBT. A posição divulgada por militantes da Secretaria GLBT do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) é um bom exemplo dessa corrente:
“Para nós, a luta contra a homofobia, não pode ser vista como um “apêndice” ao nosso projeto político. Para que esta luta seja coerente ela deve estar sintonizada com os princípios que apresentamos no Manifesto do Movimento. Queremos discutir com gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros que, também para nós, “só haverá transformação social se rompermos com essa ‘democracia’ do capital, para instituir uma ordem verdadeiramente democrática, da classe trabalhadora”. Nossa atuação deve privilegiar aquelas camadas geralmente “esquecidas” pelo movimento GLBT: aqueles que estão nas fábricas e escolas, nas comunidades carentes e entre os mais explorados. Temos que levar esta discussão para o movimento sindical, estudantil e popular. Também acreditamos que os GLBT devem entender que “a concepção de ‘cidadania’ limitada a direitos e deveres ou a redução do cidadão/trabalhador, a consumidor, de mercadorias ou do ‘espetáculo’ da política” não nos serve. Não queremos lutar para ter “direito” ao acesso a bens de consumo e serviços voltados para homossexuais; nem acreditamos que nossas manifestações, como vem ocorrendo na maioria das Paradas do Dia do Orgulho GLBT, sejam transformadas em “espetáculos” despolitizados”208.
Assim, esse discurso defende novamente a necessidade de se desvincular consumo e cidadania, almejando uma transformação social estrutural, que supere o sistema capitalista e privilegie a “classe trabalhadora” como sujeito da construção de uma nova ordem social, ressaltando que é a essa “classe trabalhadora” ou aos “mais explorados” que se deve focar as ações do movimento GLBT.
Acredito que as diferentes posições em relação ao mercado, brevemente expostas aqui, forneçam um panorama dos discursos mais comuns no movimento a esse respeito. Há a ênfase, portanto, na responsabilidade social dos empresários com o público homossexual e na sinalização de que o mercado tenha um papel, problematizado ou não, na aquisição da cidadania de GLBT. Por outro lado, também há discursos que procuram desvincular cidadania e consumo, aparecendo em versões mais pontuais, mas também atados a uma perspectiva de transformação pautada pelo socialismo. Cabe ressaltar que, embora tais discursos estejam presentes no interior do movimento GLBT, não podem ser compreendidos como posições fixas associadas a determinados elementos, sendo no mais das vezes contextualmente manejados. Assim, um mesmo ator político pode afirmar posições nem sempre coerentes entre si, a depender do contexto que se apresenta.