O desencantamento do mundo corresponde a um processo social que ocorre pela via
da religião e da ciência43, que desqualificam as práticas mágicas e suas mitologias,
instituindo, pela via institucional e organizacional, doutrinas e outras liturgias que contribuem para certa inoperância de um diálogo entre os agentes urbanos, dificultando uma guinada da
fobópolis em direção a uma nova hierópolis44, que poderia ‘reencantar-se’ e se apresentar mais tolerante às diferenças, em um ambiente construído acolhedor ao desenvolvimento humano, a partir de uma prática de sua cidadania ativa e, portanto, de fato, participativa.
Na atualidade, as forças de reencantamento do mundo não pertenceriam a uma retomada do sentido religioso, mas à pulsação de vida presente na dimensão erótica, no amor sexual, uma força mais apta a reunir, religar, promover o encontro, vencer o medo e a intolerância presentes nos grandes sistemas hegemônicos, dada sua impessoalidade, como na própria religião e, sobretudo, na ciência, ambas promotoras de desencantamento do mundo e da vida45.
Isso porque esses sistemas de conhecimento do mundo acabariam por encapsular uma livre imaginação, condição esta para certo exercício de uma relativa liberdade, em que o universo simbólico admitisse outras representações que não estas atuais da ciência e da
religião, do Estado e do mercado, porém outras mais afeitas ao respeito às subjetividades46,
que se constituíssem a partir de uma nova edificação material e simbólica da fé, do espaço e das pessoas.
De certo modo, se as forças de reencantamento do mundo não advêm de uma retomada da religião, e sim do amor sexual, pode-se inferir que, numa metáfora psicanalítica, há ‘pulsão de morte’ nas atuais formas de se ‘viver’ (ou morrer?) das práticas religiosas.
A pulsão de vida, irracional per si, e, portanto, portadora de reencantamento, estaria presente também no amor sexual, fundamento da vida e da procriação, e de todo simbolizar mais próximo à escala do humano, o que implicaria em distanciamento de toda forma de comunicação de massas, desde que esta torna impessoal o ser humano.
No âmbito desse mesmo raciocínio, os lugares religiosos47 inseridos na cidade
materializariam espaços ambíguos e contraditórios à vida, desde que existem mecanismos de exclusão presentes tanto na instituição do espaço religioso, quanto do espaço urbano, instrumentalizando-os contra a vida em benefício de um determinado controle social sobre seres humanos subjugados.
Sendo assim, as práticas religiosas, ao assumirem essa dimensão espacial, dificilmente favoreceriam uma formação de sujeitos relativamente autônomos e criativos, que se contrapusessem aos processos de construção de hegemonias que impliquem em sua dominação.
Antes, os espaços religiosos inseridos na cidade contribuem mais para uma estruturação de indivíduos alienados e massificados, que, por omissão crítica (consciente ou inconsciente), endossam os projetos de poder de determinados grupos na cidade.
E, desde que a tolerância para com os excluídos é uma realidade socialmente concebida, dependendo de como for encaminhada, poderá conduzir a um ‘cinismo perante o diferente’, diante do outro48, estruturando processos de exclusão socioespacial endossados pelas práticas religiosas, ainda que estas promovam outro processo, de uma ‘união inócua’ entre as pessoas, não para as mobilizar para a liberdade, mas sim para a obediência.
Em todas as suas estruturas socioespaciais, a cidade apresentaria determinadas relações de poder, dando forma material às relações simbólicas entre os seres humanos, ainda que a partir de fundamentos inconscientes profundos e arcaicos à ancestralidade humana, que seriam ‘canalizados’ por vias do domínio e do poder excludente atualizados a cada presente.
Tal como a psicanálise e suas variantes apontam, o espaço seria também uma
representação desses fundamentos inconscientes49, materializando certas concepções
simbólicas e mitológicas, que se tornariam formatadas com a religião, a cidade, o Estado, o mercado, e a ‘cidadania’, em desfavor de uma relativa liberdade humana.
Portanto, na construção da cidade e de seu cidadão, estariam presentes estruturas psicossociais que têm sua expressão nos símbolos, entre estes os de ordem religiosa, econômica, política e urbana, que moldariam, de certo modo, as subjetividades, para que estas se tornem ‘dóceis’ e obedientes a determinado arranjo socioespacial da cidade, excludente e alienante aos cidadãos de uma forma geral, desde que estes se apresentam sujeitados a um poder que os exclui e decide por todos50.
Se essas relações entre o ambiente construído, as práticas religiosas e a realidade psíquica são verdadeiras, e sendo os espaços urbano e religioso marcados pela segregação socioespacial, então o habitante da cidade apresentar-se-ia cindido, mutilado, licencioso e, de certo modo, instruído a ‘desejar’ por um poder que o domine, dominação imposta por poucos às massas, dirigindo-lhes ‘o habitar’ na cidade, isso também por meio das práticas religiosas51.
Deve-se, no entanto, considerar a dialética do processo, pois essas subjetividades cindidas, edificadas por espaços cindidos, são as mesmas que constroem, na vida cotidiana, esses tais processos de segregação social, espacial e psíquica.
Há, portanto, um processo dialético neste ser humano que ‘constrói a coisa que o edifica’, ou, de outro modo, ‘o ser humano se edifica ao construir seu mundo’, seu ethos.
Nesse contexto, as estruturas urbanas, e, entre estas, os lugares de culto religioso, seriam criações humanas que modelam subjetividades, de modo que se pode considerar que as violências que se conformariam no espaço religioso e urbano são também partes integrantes do próprio ser humano, projetadas dialeticamente em uma realidade material e simbólica, que, de modo ambíguo e contraditório, também ‘edifica cada ser humano’.
Haveria um movimento dialético, em que a violência e a segregação, que se encontrariam antes no próprio ser humano, seriam projetadas em sua ‘realidade de mundo’, criando certa armadilha para uma ‘auto-opressão da sociedade por si mesma’, a partir dos conteúdos subjetivos que vão se reproduzindo geração após geração, através das
subjetividades envolvidas em cada uma das espacialidades (cidade/urbano/religião)52.
Haveria alguma forma de se sair dessa ‘armadilha ontológica’ que faria do ser humano ‘o lobo do homem’?
Pensa-se que sim. Firmando-se ‘ontologias alternativas’, que dependeriam da criação de ‘espaços que respeitem a vida’, possibilitando ‘modos alternativos para uma expressão humana agregadora e construtiva’.
O ser humano não é violento ‘por natureza’. Ele se expressa de tal forma, seja em palavras, gestos, relações e/ou edificações, como suportes para certo exercício de um poder que hierarquiza, violentamente, as pessoas, por atuar a partir de critérios injustos, desde que uns poucos se beneficiam em detrimento de toda a coletividade.
Assim, afirma-se nesta tese que os lugares de culto religioso, enquanto elementos da paisagem urbana, tomados como materialidade, expressão subjetiva e técnica, poderiam se
situar, em termos simbólicos, entre dois extremos, dada a polissemia inerente à situação urbana e à fé: entre ‘o muro’ e ‘a abertura’, entre segregar e religar, entre promover a alienação do indivíduo massificado e/ou a autonomia do sujeito, conforme a práxis relacionada53.
Conforme cada ser humano e coletividade se posicionar criticamente diante daquilo que (os) materializam, em termos de sua morada (cidade/urbano) e de seus deuses (religião), darão vazão a determinada construção e prática de cidadania ou não, a partir do tipo de governo de cada um dos espaços envolvidos.
Pode-se, de certo modo, afirmar que haveria, portanto, mútuas imbricações entre religião, espaço urbano, cidade e cidadania, com implicações para a vida coletiva e pessoal, desde que, tanto as práticas religiosas, quanto as cidades, e, no limite, os seres humanos são ‘criações humanas’, ‘edificadas’ por pessoas reais, em suas expressões simbólicas, estruturantes dessa humanidade.
Assim, a vida urbana se caracterizaria por certo cerceamento da liberdade de participação política, coletiva e pessoal, em nome de sistemas sociais, instituições e moral, totalitárias, com desdobramentos inerentes a cada situação concreta, em termos das cidadanias aí envolvidas.
Nesse sentido, seria coerente uma busca pela compreensão do fenômeno religioso, pela percepção do tipo de espaço em que este se estrutura, e de como as pessoas se vinculam a essas realidades, da religião, do espaço e da cidadania, pois que teriam implicações pessoais e
coletivas, no sentido de uma composição de comportamentos libertários e originais, ou de ações alienantes e massificadas, conforme se pretende aprofundar na discussão a seguir.