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Desde que o fenômeno religioso, ao se tornar espaço, tende a refletir as características do espaço mais amplo em que se insere, torna-se importante tecer algumas considerações

relativas à questão da produção social do espaço na contemporaneidade, que tem como suas marcas fundamentais a segregação socioespacial e a crise dos espaços públicos.

De uma maneira geral, o processo social de produção do espaço nas sociedades capitalistas se dá a partir de segregações socioespaciais que visam a garantir uma produção de mais-valia e sua apropriação pelos grupos hegemônicos nessas sociedades.

Isso ocorre visando à reprodução desses grupos, a partir de uma perspectiva de uma ação sistêmica de fatores econômicos, políticos e culturais, de modo que os traços distintivos da morfologia espacial se relacionam dialeticamente com os processos de mudanças estruturais na organização social64.

A cidade é, portanto, marcada por tais processos de segregação socioespacial, que se apresentam como um de seus axiomas fundamentais e fundadores, enquanto espaço urbano na

contemporaneidade brasileira e mundial65.

A violência e o medo têm sido vetores de mudanças sociais nas cidades contemporâneas, dando origem a novos modos de segregação socioespacial e de discriminação social, em que as classes mais altas se valem de enclaves fortificados para sua residência, trabalho, lazer e consumo, o que se associa à sua retirada dos bairros tradicionais dessas cidades, incorporando nessas formas de espacialidade preocupações raciais e étnicas,

preconceitos de classe e referências pejorativas aos pobres e marginalizados66.

Esses processos se associam, em cada região do mundo, a respectivos fenômenos mais amplos, como a transição democrática na América Latina, o pós-apartheid na África do Sul, o pós-socialismo no Leste Europeu e as transformações étnicas decorrentes da migração para os Estados Unidos67.

Em torno a essas particularidades da produção social do espaço, ocorrem as dinâmicas de (re)produção do fenômeno religioso, sobretudo quando este ganha uma expressão espacial, de modo que se pode afirmar que as dinâmicas de segregação socioespacial e de crise dos espaços públicos também se tornam fundamento da espacialização das práticas religiosas, o que permite compreender o relativo ‘isolamento de iguais’ em que cada religião acaba por se encontrar na atualidade. E, também, entender certo ostracismo do espaço religioso, porque este não se faz verdadeiramente público, refletindo certa ‘privatização da religião’, e,

atualidade, à reprodução de determinadas hegemonias em detrimento das maiorias urbanas silenciadas68.

Particularmente, no caso brasileiro, em que se processa uma consolidação democrática ainda frágil, o crime, o medo da violência, o desrespeito à cidadania, combinam-se a transformações urbanas em que a ‘construção de muros’ é emblemática nas transformações de suas cidades, como uma forma material e simbólica de manifestação das relações de evitação entre grupos sociais69.

Essa seria uma marca de um novo padrão de segregação socioespacial, simbolizando diferenças, divisões e distâncias, separações, regras de evitação, exclusão e restrições ao movimento, em que uma ‘fala do crime’ tem justificado o aumento da segurança privada e o isolamento, distanciamento e encarceramento daqueles considerados perigosos,

‘naturalizando’ preconceitos e dividindo o mundo entre o bem e mal70.

As próprias vítimas do preconceito, os pobres, por exemplo, reproduzem tais estereótipos, o que, em conjunto, traz mudanças nas concepções de público e privado, fazendo, por vezes, de alguns, mais cidadãos que outros, indicando limitações ao processo de democratização brasileiro, com a atual organização espacial das diferenças sociais na forma de segregações e a crise dos espaços públicos, sendo que estes últimos se apresentam como

fragmentados, controlados e desiguais, não-democráticos e não-modernos71.

No sentido de demonstrar as perversidades desse imaginário social, estão associações entre essas ‘falas do crime’, os processos de exclusão socioespacial e algumas das práticas religiosas, e que se tornam explícitas, por exemplo, no debate acerca da pena de morte e dos direitos humanos72.

Parte dessas características da produção social de espaço urbano afetaria profundamente a espacialização das práticas religiosas, desde que se estas se inserem no urbano, tornando as religiões elementos reprodutores desse espaço caracterizado por injustiças sociais73.

Assim, dadas as características atuais da produção social do espaço, quais têm sido as contribuições das expressões religiosas na medida em que se espacializam/sacralizam? Favorecem os processos de segregação socioespacial que também conduzem à crise dos

espaços públicos, ou funcionam de modo inverso, instaurando espaços de esperança e de sociabilidade?

Desde que as formas espaciais religiosas tendem a reproduzir o espaço mais amplo em que se inserem, pode-se antever que as religiões estão muito mais propensas à alienação típica do indivíduo massificado, do que a promover certa autonomia e liberdade do sujeito que questiona o mundo em que vive e o espaço que constrói para sua habitação e a de seus deuses74.

Uma importante característica do processo de urbanização brasileira é a transferência da miséria não tolerada no campo para as cidades que cresciam a partir da década de 60 no país. Esse seria um dos significados mais marcantes dos processos migratórios que estiveram

associados à urbanização das cidades brasileiras contemporâneas75, e sua consequente

influência na formação pentecostal das práticas religiosas nas áreas de exclusão socioespacial. Por outro lado, uma vivência religiosa significativa poderia ser integradora e revestir de novos significados a vida cotidiana dos espaços públicos brasileiros, mas tem atuado de modo contraditório e ambíguo nesse sentido, reproduzindo as relações hegemônicas através de sua contribuição à produção social do espaço urbano e da cidade, ainda que a relevância da religião relativa à estruturação dos espaços públicos tenha se reduzido no Brasil contemporâneo.

Nesse sentido, em termos conceituais, o projeto do espaço urbano público brasileiro foi inicialmente marcado de modo predominantemente religioso, até se tornar quase

absolutamente mundano76.

E, em termos de seus usos, de igual modo, em termos dos espaços públicos, estes se destinavam fundamentalmente aos eventos litúrgicos das festas católicas, o que foi se diluindo e arrefecendo ao longo dos dois últimos séculos no país, sobretudo, em sua expressão pública77.

No âmbito das áreas comuns das cidades brasileiras, estas também deixaram de ter sua referência maior aos locais sagrados, em que se pesasse em sua origem certa indefinição entre as esferas do público e do privado, passando lentamente a um espaço público sem grandes referências coletivas, dado o desleixo em que estes espaços são considerados como um todo

E, no que diz respeito ao trato, as expressões religiosas praticamente foram reduzidas à sua expressão mínima no que tange à sua relevância nos espaços públicos das cidades brasileiras79.

O espaço urbano público brasileiro é marcado, portanto, por uma lenta, mas gradual laicização, em que os acontecimentos religiosos, de início importantes na vida da cidade, cedem lugar às atividades eminentemente laicas. O calendário litúrgico oficial, com suas festas e feriados santos, deu lugar ao negócio e aos dias chamados úteis, marcando um

processo de secularização, não apenas no Brasil, mas no mundo europeu e no europeizado80.

No caso brasileiro, esse crescente processo de secularização, que, nos usos da cidade, deixou como herança uma frágil institucionalização de um espaço público, em que se valha, de fato, esse nome em seus usos, ocupação e cuidado por parte da população em geral, e dos poderes instituídos, em particular81.

Há que se destacar que os lugares sagrados, na ordem institucional da cidade que foi se construindo no Brasil, eram espaços fundamentalmente regidos pelas normas canônicas, sobretudo em um Estado que se respaldava na religião Católica Apostólica Romana.

Quando da separação do Estado e da Igreja no Brasil, o processo de secularização do espaço intraurbano se aprofundou e se apresentou então de maneira mais clara e precisa, pois, a partir de então, as normas do nascente direito urbanístico passaram a governar a ordenação do espaço urbano brasileiro82.

No entanto, esse nascente mobiliário urbano público secularizado marcaria também um panorama citadino caracterizado, de um ponto de vista material e simbólico da cidade, por certa pobreza em sua qualidade e quantidade, por um descaso das autoridades públicas para com sua construção, disposição e manutenção, e, ainda, pela quase ausência de pressões populares para que os mesmos sejam funcionais a toda a população, que, aliás, tem demonstrado, na realidade, pouco cuidado e apreço pelo espaço público urbano no Brasil.

O espaço urbano público no Brasil demonstraria, portanto, de uma perspectiva socioespacial, esse longo e lento processo de secularização presente na sociedade brasileira, que a caracteriza na contemporaneidade, de modo que se poderiam compreender, através do espaço, alguns dos significados dessa secularização e do papel das práticas religiosas nesse

novo contexto, tanto em termos das continuidades, quanto das rupturas, no tocante a esse processo.

Da secularização, que tem lugar no espaço da cidade, ficaram as marcas no corpo de uma sociedade que, em linhas gerais, apresentaria certo desprezo pelos espaços públicos, até porque são usufruídos timidamente pela população em geral, revelando e alimentando o descaso de todos pela ‘coisa pública’ (res pública)83.

A partir dessas características do espaço urbano, quais sejam a segregação socioespacial e a crise dos espaços públicos, pode-se avançar na análise de alguns nexos relativos à formação dos indivíduos e/ou sujeitos, com a estruturação das práticas religiosas na forma de espaço religioso, que é, também, espaço urbano.