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Os actígrafos falharam em registrar os dados dos dois períodos de duas pessoas que trabalharam à noite (trabalhadoras 02 e 03), os dados de um período de outra trabalhadora noturna (trabalhadora 14) e os dados de uma trabalhadora diurna (trabalhadora 12). Nestes casos foram usados os dados obtidos através dos protocolos diários de atividade.

Outra reclamação freqüente era quanto ao uso do actígrafo. Algumas pessoas disseram sentirem=se vigiadas com o uso do aparelho, e outras reclamaram que o actígrafo as incomodava durante as atividades ou mesmo durante o sono.

Deve ser destacado que houve uma imensa dificuldade em se conseguir os voluntários para esta coleta. Os motivos alegados foram vários, sendo que o mais citado foi reclamações quanto ao número de amostras de urina a serem coletadas, no mínimo 32 por pessoa. Muitas pessoas recusaram=se a participar também porque se negavam a armazenar a urina em casa, além de reclamarem de não terem como armazenar a urina durante o turno de trabalho.

As amostras de duas voluntárias foram descartadas. Uma por motivo de doença, pois devido a uma queda esta tomou anti=inflamatório durante a coleta, o que afeta a produção de melatonina, e a outra por ter esquecido de anotar nos vidros de coleta fornecidos os horários em que as amostras foram coletadas. Uma terceira voluntária que trabalhava durante o dia, teve seu material enviado para análise nos

Estados Unidos, sendo descartada posteriormente pelo pequeno volume coletado em cada amostra, por existirem intervalos demasiado grandes entre uma amostra e outra, e por fim por apresentar discrepâncias significativas entre os dados obtidos pelo actígrafo, quando comparados aos dados obtidos pelos protocolos diários de atividade.

Outro problema enfrentado foi o envio do material para os Estados Unidos. Para cada voluntário foi necessário se anexar 8 diferentes documentos: Carta de anuência da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), atestado médico em inglês, Biological Commerce In Voice, Guia de Recolhimento de Exportação, Carta do Comitê de Ética da FSP/USP, Carta do Comitê Nacional de Ética (CONEP), Carta do Comitê de Ética do Regions Hospital, e finalmente o International Air Waybill da FEDEX, responsável pelo transporte do material. Todos estes documentos foram enviados em 4 vias conforme o acordo entre Brasil e Estados Unidos para o transporte de material biológico sem agentes infectantes.

6.2.3. Análise dos episódios de sono – duração e qualidade referida do sono

Quando foram comparadas as médias das durações de sono dos trabalhadores diurnos com os trabalhadores noturnos, para as categorias de sono diurno, apenas o sono após o trabalho mostrou diferença estatisticamente significante. Em relação às categorias de sono noturno, tanto os episódios ocorridos após o dia de trabalho como os ocorridos na folga, apresentaram diferenças estatisticamente significantes. Em ambos os casos os trabalhadores noturnos apresentaram maior duração de sono. Estes resultados podem ser explicados porque quando os trabalhadores noturnos têm um espaço de tempo mais longo para dormir, este é aproveitado em sua totalidade, uma vez que estes trabalhadores estão em constante privação de sono, em especial do sono noturno (ARENDT, 2006; RAJARATNAM et al, 2004).

Os trabalhadores noturnos mostraram decréscimo significante na duração do sono após 12 horas de trabalho. Quando comparadas a duração do sono noturno com a do sono diurno, após a noite de trabalho o sono diurno tem uma duração menor.

Este fato rá foi relatado por diversos autores. (AKERSTEDT & GILLBERG, 1981; FRESE & HARWICH, 1984; LAVIE et al 1989; SMITH et al 1998).

AKERSTEDT (2005), também relata que o problema para os trabalhadores noturnos não está relacionado apenas à privação do sono, mas a um problema constante de enfrentamento entre os horários em que o trabalhador pode dormir e os horários em que os mecanismos circadianos proporcionam um sono mais adequado.

Outro fator que pode estar envolvido na diminuição da duração dos episódios de sono diurno são as obrigações sócio=familiares, como cuidar de crianças, de idosos, tarefas domésticas, serviços de banco, compras, entre outros, uma vez que a realização destas tarefas geralmente ocorrem no mesmo período de folga que o trabalhador noturno estaria livre para dormir. (ESTRYN=BEHAR, 1978; GADBOIS, 1981; ROTENBERG, 2001; AKERSTEDT, 1998).

Em relação à qualidade do sono referida, tanto para trabalhadores diurnos como para trabalhadores noturnos, os resultados obtidos concordam com a literatura, isto é, as categorias de sono diurno apresentaram qualidades inferiores às categorias de sono noturno.

São inúmeras as publicações que mostram que os episódios de sono diurno geralmente são percebidos como tendo qualidade inferior a aqueles ocorridos durante a noite (AKERSTEDT, 2005; AKERSTEDT & GILLBERG, 1981, FRESE & HARWICH, 1984, LAVIE et al, 1989, SMITH & FOLKARD, 1993; HARMA et al, 1998).

Entretanto, neste estudo, quando comparados os dois grupos (trabalhadores diurnos e trabalhadores noturnos), a única diferença estatisticamente significante encontrada foi para categoria sono noturno após o trabalho, com os trabalhadores noturnos referindo qualidade de sono mais elevada. (Figura 19).

Os problemas enfrentados pelos trabalhadores para terem um sono de boa qualidade durante o dia são os mesmos citados e que explicam a diminuição da duração dos episódios de sono diurno, isto é, o conflito que existe entre o horário do sono e os ritmos biológicos (AKERSTEDT, 2005) e as obrigações sociais que em geral precisam ser cumpridas durante o dia (ESTRYN=BEHAR, 1978, ROTENBERG, 2001; PORTELA et al, 2005).

Outros estudos apontam o fato destes trabalhadores viverem em conflito constante com os relógios biológicos, pode levar a um aumento no risco de doenças, tais como doenças coronarianas (KNUTSSON, 2003 e 2004) e câncer de mama e cólon retal (SCHERNHAMMER et al, 2001, 2004 e 2006).

6.2.4. Análise dos episódios de sono durante o trabalho noturno e os níveis referidos de alerta

Para uma melhor tolerância ao sistema de 12 horas noturnas, STAMPI (1992), propõe pausas durante o trabalho e a permissão de cochilos durante rornada de trabalho para diminuir a sonolência durante o trabalho. Esta proposição corrobora os resultados encontrados neste estudo. Foi demonstrado que os trabalhadores que cochilaram durante o turno de trabalho tiveram seus níveis de alerta mais elevados do que aqueles que não cochilaram.

Em trabalhadores de turnos noturnos pode acontecer do final do turno de trabalho alcançar um tempo de vigília de 20 a 22 horas, contadas a partir do término do último episódio de sono, em comparação com até 9 horas dos trabalhadores diurnos. Isto faz com que o alerta atinra níveis críticos antes do término da rornada. O alerta e a performance em condições de privação de sono passam a ter uma queda gradual sobreposta ao padrão circadiano (AKERSTEDT, 1998).

Os resultados encontrados neste estudo corroboram os encontrados por BORGES e FISCHER, 2003, que observaram que os níveis referidos de alerta dos trabalhadores submetidos a turnos noturnos de 12 horas, seguidos de 36 horas de

descanso que dormiram durante o turno de trabalho, apresentavam ao final do turno, níveis de alerta referido significantemente mais altos do que aqueles que não dormiram.

Seguindo o modelo sono=alerta proposto por Folkard & Akerstedt (AKERSTEDT, 1996, 1998), o alerta de uma pessoa depende de seus ritmos circadianos e de seu déficit de sono. Quando uma pessoa trabalha à noite, a qualidade do sono diurno pode ser insatisfatória e muitas horas se passaram desde seu último episódio de sono. Estes são fatores que contribuem para a sonolência (AKERSTEDT, 1996).

Embora estera previsto 36 horas de descanso entre dois turnos consecutivos, uma parcela dos trabalhadores usa seu tempo fora do trabalho para realização de tarefas pessoais e não raro, devido à baixa remuneração, exerce um segundo emprego. (FISCHER et al, 2002 a e b, BORGES & FISCHER, 2003, DIEESE, 2006). Com isso, o tempo de descanso real entre dois turnos noturnos pode ser muito menor do que o necessário para recuperação plena.

AKERSTEDT, 1985 sugere pelos menos um período de descanso real de 16 horas entre dois turnos, o que provavelmente não ocorre com todos os trabalhadores estudados. Estudos mostram que os efeitos acumulados durante uma semana, com uma média de duração de sono de 4,5 horas por dia, levam a sonolência a níveis similares ao da privação total de sono, aumentando consideravelmente as chances de ocorrerem acidentes de trabalho (DINGES et al, 1997).

Este fato associado à privação parcial do sono e a uma baixa qualidade deste, em especial durante os episódios diurnos, indicam que é necessário uma discussão em fórum competente sobre esta organização do trabalho e os impactos na saúde dos trabalhadores em turnos em hospitais.