6.3.1. 6Bsulfatoximelatonina
As concentrações de 6=sulfatoximelatonina dos trabalhadores noturnos foram estatisticamente menores do que as encontradas em trabalhadores diurnos (p<0,001). Esta menor concentração acarreta em conseqüências para os trabalhadores noturnos.
STEVENS & DAVIS (1996) construíram uma hipótese em que o aumento do risco de câncer, em particular o câncer de mama em enfermeiras que trabalhavam em turnos, era causado pela exposição a luz à noite que tinha como resultado a supressão da melatonina. Esta hipótese é baseada no acúmulo de evidências anti=câncer da melatonina tanto em modelos animais (BLASK et al, 1999; 2002) como em humanos (LISSONI et al, 2003). SCHERNHAMMER & HANKINSON, 2005 encontraram níveis mais baixos de 6=sulfatoximelatonina pela manhã em pacientes com câncer de mama do que em sureitos saudáveis, mas não concluíram se esta diferença pode estar associada a uma mudança de fase ou à supressão da melatonina.
A exposição direta à luz também pode influenciar a expressão dos “loops” de retroalimentação dos genes relógio, que dirigem os ritmos circadianos (REPPERT et al, 2000). Uma série recente de estudos indica que a alteração da função dos genes relógio está associada ao aumento do risco de câncer (FILIPSKI et al, 2004; FU & LEE, 2003; FU et al, 2002).
Existe pouca evidência do declínio da produção de melatonina durante o trabalho noturno, mas é sustentado que isso provavelmente ocorra (ARENDT, 2006).
Em recente estudo (ARENDT, 2006) esta autora observa que em trabalhadores submetidos a turnos de rotação rápida (3 manhãs, 3 tardes, 3 noites, 1 folga) ocorre uma queda de 30% na amplitude do ritmo circadiano da 6= sulfatoximelatonina durante os turnos noturnos de trabalho.
COSTA et al, 1994 em contrapartida estudando turnos de rotação ainda mais rápida que os de ARENDT, 2006, (2 dias, 2 noites, 2 folgas) não encontraram mudanças significativas no ritmo da melatonina.
Os resultados da análise de variância neste estudo mostram que as concentrações mais altas de 6=sulfatoximelatonina dos trabalhadores noturnos estão ocorrendo durante o dia próximo da hora do almoço, quando deveriam estar ocorrendo nas primeiras horas da manhã.
Quando a melatonina ou seus metabólitos são encontrados em horários não usuais, como alguns de nossos resultados, estes estão associados a cochilos diurnos (LOCKLEY et al, 1997).
Uma evidência do papel da melatonina no sono é o fato de que a supressão da melatonina endógena durante o dia diminui a sonolência diurna (de LEERSNYDER et al, 2001 a e b). O fato dos trabalhadores não estarem mais alertas no período diurno após o trabalho noturno se explica porque é neste dia que ocorre a maior parte dos episódios de sono diurno. Os resultados encontrados indicam que isto pode estar ocorrendo com os trabalhadores noturnos, uma vez que estes mostraram=se mais alertas durante o período diurno no dia de folga extra, quando dormiram muito pouco durante o dia do que durante os dias após trabalho noturno.
Segundo CAJOCHEN et al, (2000) existe uma forte correlação entre o aumento do alerta e a supressão da melatonina durante a noite. Neste estudo, quando comparados os níveis de alerta durante as rornadas noturnas de trabalho e noites de folga os mesmos mostraram=se mais alertas durante as noites de trabalho.
Deve ser ressaltado que não foi possível ser feito nenhum controle da exposição à luz à qual as trabalhadoras estavam expostas. A supressão da melatonina pela luz não parece ser causada essencialmente pela exposição em horários não usuais (KRAUCHI et al, 1997). Entretanto a elevação da temperatura do corpo pela exposição à luz durante a noite parece depender da supressão da produção de
melatonina (CAGNACCI et al, 1992; STRASSMAN et al, 1991), mas não está relacionada ao aumento do alerta induzido pela luz durante o dia (RUGER et al, 2005). O aumento do alerta induzido pela luz durante o dia, também pode explicar o fato dos trabalhadores estarem mais alertas no dia de folga extra, uma vez que neste dia os trabalhadores passam a maior do tempo realizando atividades fora de casa.
6.3.2. Cortisol
Os trabalhadores noturnos apresentaram concentrações de cortisol significantemente menores quando comparadas com as concentrações de cortisol dos trabalhadores diurnos. Porém deve ser levado em conta que as amostras colhidas nos dias de trabalho noturno incluem amostras coletadas durante o período de quiescência do ritmo circadiano do cortisol que ocorre durante a noite (WEIBEL et al, 1998)
Quando analisados separadamente, os trabalhadores diurnos não apresentaram diferenças estatísticas entre os dias de folga e de trabalho, enquanto que os trabalhadores noturnos apresentaram concentrações de cortisol estatisticamente maiores nos dias de folga e folga extra do que nos dias de trabalho.
Este resultado confirma os achados de WEIBEL et al, 1998 que estudando enfermeiras na França também encontraram concentrações de cortisol mais baixas em trabalhadores noturnas do que em diurnas durante os dias de trabalho. Os autores sugerem que este evento pode causar uma maior sonolência nos trabalhadores durante o turno de trabalho.
MUNAKATA et al (2001), também encontraram concentrações de cortisol mais baixas em enfermeiras saudáveis, em dias de trabalho noturno, quando compararam estas concentrações com os dias de folga.
Um fator que pode estar envolvido na explicação dos resultados é a fadiga. Os trabalhadores noturnos referiram estar mais fatigados do que os trabalhadores
diurnos. Vários autores afirmam que pessoas com altos índices fadiga apresentam menores concentrações de cortisol (CLEARE, 2005; JERJES et al, 2006; VOLLMER=CONNAL et al, 2006).
LEESE et al (1996) mostraram que trabalhadores submetidos a turnos noturnos de trabalho por cinco noites consecutivas apresentavam níveis de cortisol bastante reduzidos, similares ao apresentados por pacientes com a Síndrome da Fadiga Crônica.
WEIBEL et al (1999) encontraram também uma diminuição das concentrações cortisol no plasma de trabalhadores em turnos similares àquelas encontradas em pacientes com depressão. Em nosso estudo, a depressão não pode ser associada a queda do cortisol, uma vez que nenhuma das 19 participantes referiu estar sofrendo ou tendo sintomas da mesma; mesmo assim este é um fato que deve ser observado em futuros estudos uma vez que a principal doença sem diagnóstico referida pelos trabalhadores na primeira fase deste estudo foi o distúrbio emocional leve, que inclui a depressão.